Entre os favoritos à ABL, Taurino Araújo quer ‘trabalhar pelas Letras do Brasil’

Jornalista Walter Brito aponta escritor, jurista e artista plástico baiano entre os três favoritos à Cadeira 32, vaga com a morte de Zuenir Ventura

Apontado pelo jornalista Walter Brito como um dos três favoritos à Cadeira 32 da Academia Brasileira de Letras (ABL), o escritor, jurista e artista plástico baiano Taurino Araújo apresenta a candidatura como compromisso com a criação e a vida cultural do país. Em entrevista ao portal Notícia Livre, sintetiza o propósito: “Quero a Cadeira 32 para trabalhar pelas Letras do Brasil”.

Na avaliação de Brito, baseada em acompanhamento presencial da disputa, Taurino, a artista Anna Bella Geiger e o médico e escritor Drauzio Varella aparecem como os nomes favoritos entre os 17 inscritos. A eleição acontece em 12 de novembro, para a vaga aberta com a morte do jornalista e escritor Zuenir Ventura, em 22 de setembro, conforme comunicado oficial da ABL.

Disputa aberta

O favoritismo identificado por Brito convive com a imprevisibilidade das eleições acadêmicas. No texto publicado no São Paulo nas Entrelinhas, o jornalista recorda a vitória de Bernardo Élis sobre o ex-presidente Juscelino Kubitschek, em 1975, para assinalar que todos os candidatos permanecem no páreo. A comparação situa a atual sucessão como disputa aberta, sujeita às mudanças de preferência dos eleitores da instituição.

Na entrevista publicada pelo Notícia Livre nesta quarta-feira, 4 de novembro, Taurino demonstra confiança na adequação do próprio nome à cadeira e afirma conduzir a campanha mais organizada da história da Academia. A declaração expressa a avaliação do candidato sobre uma mobilização que reúne apresentação da obra, circulação de estudos críticos e diálogo com a tradição da instituição. “Sou um executivo das artes”, define.

Taurino Araújo

Trajetória plural

Nascido em Jequié e criado também em Ubatã, Taurino reúne atuação em poesia, Direito, ensaio, crítica literária e artes plásticas. Na entrevista, relaciona essa diversidade à admiração, desde a infância, por personalidades como Ruy Barbosa e Afrânio Peixoto. A formação cultural também passa pelo Grupo de Arte Canoatan, em Ubatã, mencionado no estudo do professor Willis Santiago Guerra Filho.

Essa pluralidade encontra correspondência na história da cadeira pretendida. O patrono, Manuel de Araújo Porto-Alegre, desenvolveu atividades em literatura, pintura, magistério, jornalismo, diplomacia e teatro. Antes de Zuenir Ventura, a Cadeira 32 foi ocupada pelo dramaturgo, poeta e romancista Ariano Suassuna.

No texto de Brito, a aproximação entre essas trajetórias ajuda a explicar a projeção da candidatura. O jornalista destaca a construção de uma recepção crítica que acompanha o processo eleitoral e apresenta diferentes dimensões da produção de Taurino. Nesse contexto, o estudo de Guerra Filho acrescenta fundamentação literária à discussão sobre a obra do candidato.

Taurino Araújo na criação de AGREGAÇÃO (2017) em homenagem ao legado de Santa Dulce dos Pobres - Foto: Divulgação A obra AGREGAÇÃO, integrante da série Assemblage no Parque da Cidade (2017), interpreta o legado de Santa Dulce ao transformar folhas, cascas, sementes e galhos em uma metáfora visual do acolhimento e da dignidade humana.
Taurino Araújo na criação de AGREGAÇÃO (2017) em homenagem ao legado de Santa Dulce dos Pobres – Foto: Divulgação

De Afrânio Peixoto à formação de uma personalidade literária 

A menção de Taurino Araújo a Afrânio Peixoto, em entrevista ao Notícia Livre, encontra eco nas homenagens que a Academia Brasileira de Letras e a Academia de Letras da Bahia dedicam ao escritor, médico, professor, historiador e crítico literário baiano. Em 29 de outubro, o presidente da academia baiana, Aleilton Fonseca, apresentou na ABL a conferência Afrânio Peixoto: releitura de um ficcionista precursor, sob a coordenação do imortal Arno Wehling.

Nesta quarta-feira, 4 de novembro, o intercâmbio entre as instituições tem continuidade em Salvador. Arno Wehling participa da programação pelos 150 anos de nascimento de Afrânio Peixoto com a conferência Nacionalismo e regionalismo: a brasilidade de Afrânio Peixoto, mediada por Aleilton Fonseca. A convergência chama a atenção: o intelectual de múltiplos saberes celebrado pelas duas academias é apontado por Taurino, ao lado de Ruy Barbosa, como referência escolhida ainda na infância para orientar a própria formação.

Formação plural

Essa identificação ajuda a compreender a diversidade da trajetória de Taurino como resultado de um projeto intelectual cultivado desde cedo. Poesia, Direito, pensamento, crítica literária, artes visuais e vida pública constituem expressões de uma mesma personalidade criadora. O percurso dialoga com a tradição de escritores brasileiros cuja atuação atravessa diferentes campos do conhecimento.

Outro momento da entrevista aprofunda essa perspectiva. Ao mencionar Cyro de Mattos, Taurino afirma que a literatura transforma as pessoas e que elas passam a se parecer cada vez mais com aquilo que escrevem. A ideia se aproxima da reflexão de Cyro: “A literatura não muda o mundo, transforma as pessoas”. Taurino estende esse entendimento à formação do escritor: além de expressar a personalidade de quem escreve, a criação participa continuamente da construção dessa personalidade.

Humor e ação

Sob essa perspectiva, o reconhecimento da crítica e o humor do poeta convivem de maneira coerente. Taurino recorda que Nelson Cerqueira considera A Caturna um poema monumental e o autor um monumento vivo da Língua Portuguesa. Logo depois, desfaz a solenidade com a frase: “Além de ser genial, eu não sento no pudim”.

A expressão coloquial dá movimento à imagem do monumento. Ao mesmo tempo que reivindica reconhecimento, Taurino se apresenta como alguém em atividade permanente. Define-se como “executivo das artes” e vincula a candidatura à disposição de trabalhar pela literatura brasileira.

A entrevista articula, assim, três aspectos de sua trajetória: a formação inspirada em intelectuais de múltiplos saberes, a transformação pessoal proporcionada pela escrita e a atuação cultural contínua. Nesse encontro, delineia-se uma personalidade literária empenhada em aproximar obra, pensamento e ação pública.

Ana Geiger - Retrato de 2016. Crédito: Universidad Nacional de Tres de Febrero (UNTREF) / Wikimedia Commons — CC BY-SA 4.0; Taurino Araújo - Arquivo pessoal; Drauzio Varella — foto de maio de 2025, Crédito: Luiz Munhoz / Festival Fronteiras — CC BY-SA 2.0.

A literatura transforma também quem a escreve

Outra passagem da entrevista ganha profundidade quando Taurino invoca Cyro de Mattos para afirmar que a literatura é transformadora e que as pessoas passam a se parecer cada vez mais com aquilo que escrevem. A formulação dialoga com uma conhecida reflexão de Cyro: “A literatura não muda o mundo, transforma as pessoas”. Taurino amplia o raciocínio ao próprio processo de formação do escritor: a criação não apenas expressa uma personalidade preexistente, mas participa continuamente de sua construção.

Essa interpretação ajuda a compreender a convivência entre a monumentalidade atribuída à obra pela crítica e o humor com que o poeta se apresenta publicamente. Ao recordar que Nelson Cerqueira considera A Caturna um poema monumental e o próprio autor um monumento vivo da Língua Portuguesa, Taurino imediatamente rompe a solenidade: “Além de ser genial, eu não sento no pudim”.

A expressão coloquial introduz movimento na imagem do monumento. O escritor reivindica reconhecimento, mas recusa a imobilidade contemplativa. Define-se como “executivo das artes” e associa a candidatura à disposição de trabalhar pela literatura brasileira. Entre a formação inspirada nos grandes polímatas, a transformação promovida pela criação e a atividade cultural permanente, a entrevista revela uma personalidade literária que procura fazer coincidir obra, pensamento e ação pública.

Gramática poética

Professor titular da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), Willis Santiago Guerra Filho assina o ensaio ‘Na língua de Taurino Araújo: xadrez, casa, tempo, drama e Kafka no Poema absurdo’. Nele, propõe a categoria de gramática poética de competências para compreender como a escrita atribui a objetos, seres e tempos capacidades que não possuem na experiência cotidiana.

Na leitura do pesquisador, o passado movimenta peças de xadrez, o relógio adquire direito à defesa e os objetos guardam lembranças. O absurdo estabelece possibilidades próprias dentro do poema, preservando uma coerência interna. A palavra casa, que designa tanto habitação quanto posição no tabuleiro, aproxima espaço vivido e jogo existencial.

Guerra Filho situa a análise no conjunto de mais de três mil páginas reunidas em ‘A caturna e outros poemas: 40 anos de poesia brasileira 1984–2024’. O professor ressalva que a diversidade da produção impede tomar poema isolado como representação de toda a obra. A hipótese crítica permite, entretanto, examinar procedimentos que reaparecem em diferentes composições.

Direito e criação

O ensaio também aproxima ‘Poema absurdo’ de ‘O pendor ao drama — Tributo a Franz Kafka’. Nos dois textos, o pesquisador identifica termos do universo jurídico, como sentença, prova e testemunha, associados a situações domésticas e inquietações existenciais. A experiência do jurista participa, assim, da construção literária, integrada às questões de linguagem, memória e tempo.

A dimensão visual também recebe atenção. Segundo Guerra Filho, a experiência artística de Taurino ajuda a compreender uma poesia que organiza o pensamento por cenas, objetos e espaços. Casa, tabuleiro, retrato e telha assumem funções na composição, aproximando palavra e imagem.

É esse percurso que Taurino apresenta aos acadêmicos na sucessão de Zuenir Ventura. Na entrevista ao Notícia Livre, associa as quatro décadas de produção à transformação pessoal proporcionada pela literatura. Entre a confiança do candidato e o favoritismo apontado por Walter Brito, a decisão de 12 de novembro cabe aos integrantes da Academia.

Fotos

Ana Geiger – Retrato de 2016. Crédito: Universidad Nacional de Tres de Febrero (UNTREF) / Wikimedia Commons — CC BY-SA 4.0;

Taurino Araújo – Arquivo pessoal;

Drauzio Varella — foto de maio de 2025, Crédito: Luiz Munhoz / Festival Fronteiras — CC BY-SA 2.0.

• In Taurino Araújo’s Tongue Chess House Time Drama and Kafka in “Absurd Poem”

04/11/26

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