Mobilização começou em setembro por melhores condições nas escolas e incorporou reivindicações contra o custo de vida; confrontos em várias cidades pressionam o governo Macron
Uma mobilização iniciada por estudantes do ensino médio em setembro se transformou em uma crise social e política na França. As reivindicações por melhores condições nas escolas se somaram ao descontentamento com o custo de vida e os serviços públicos. No sábado (17), centenas de milhares de pessoas participaram de manifestações, acompanhadas, em várias cidades, por confrontos, incêndios e saques.
Segundo a reconstituição do jornal francês Le Monde, um bloqueio organizado em 21 de setembro numa escola de Créteil, na região parisiense, contra vagas de professores não preenchidas, foi um dos pontos de partida da expansão. Entre as reclamações estão docentes ausentes sem substituição, turmas superlotadas, horários excessivos e instalações precárias.

Crédito: Autor anônimo / Paris Musées – Musée Carnavalet / CC0
Das escolas às rua
As condições dos banheiros, com problemas de higiene, falta de papel e portas quebradas, também se tornaram símbolo da cobrança por dignidade. Os estudantes questionam ainda as perspectivas de acesso ao ensino superior e o funcionamento do Parcoursup, plataforma utilizada na seleção para universidades.
A mobilização ganhou dimensão nacional e recebeu apoio de sindicatos, professores e familiares. No sábado, reuniu também diferentes categorias profissionais e participantes ligados ao que chamam ‘coletes amarelos’. O Ministério do Interior contabilizou 550 mil manifestantes; os organizadores estimaram 800 mil. As demandas passaram a incluir poder de compra e serviços públicos, sem uma direção única para todos os grupos.
Além de Paris
Os episódios de violência atingiram cidades como Marseille, Lyon, Bordeaux, Toulouse, Nantes, Rennes, Rouen e Strasbourg. Em Limoges, a prefeitura foi incendiada; em Lyon, o escritório de turismo sofreu um incêndio; em Bordeaux, a residência oficial da representante do governo foi atacada. A cobertura do Le Monde distingue os manifestantes que marcharam pacificamente dos grupos envolvidos em destruição e saques.
No balanço consolidado da jornada de sábado, divulgado pelo Ministério do Interior e reproduzido pelo jornal L’Est Républicain, foram registradas 2.397 detenções e 997 integrantes das forças de segurança feridos, sete deles gravemente. O levantamento disponível até a manhã desta segunda-feira (19) não apresenta um total nacional atualizado de manifestantes feridos.
O jornal regional também informou a morte de uma pessoa em Paris após mal-estar e parada cardiorrespiratória, citando a polícia. As informações consultadas não permitem atribuir o óbito diretamente a agressão ou ação policial. Entre os feridos graves, uma adolescente de 17 anos perdeu um olho em Mulhouse, caso que motivou investigação da corregedoria policial, e um jovem de 17 anos perdeu uma mão em Saint-Étienne.
Governo sob pressão
A crise aumentou a pressão sobre o presidente Emmanuel Macron e o primeiro-ministro Sébastien Lecornu. O ministro do Interior, Laurent Nuñez, reconheceu falhas e apresentou a demissão, recusada pelo presidente. Prefeitos cobram explicações sobre o planejamento da segurança e a proteção de comerciantes e prédios públicos.
Macron condenou a violência, mas reconheceu a legitimidade das reivindicações dos manifestantes pacíficos. Anunciou que o governo reuniria partidos, sindicatos e organizações estudantis para buscar respostas. Nesta segunda-feira, Lecornu também pediu aos representantes do governo nas regiões a adoção de toques de recolher parciais e localizados.
Disputa política
À esquerda, La France insoumise (LFI), de Jean-Luc Mélenchon, apoia a mobilização e acusa o governo de agravar a crise. O Executivo, por outro lado, atribui ao partido responsabilidade política pela escalada. Essa acusação é contestada e não equivale à comprovação de que a legenda comandou os atos violentos. O socialista Olivier Faure condenou a violência e defendeu mudanças na atuação policial para reduzir os confrontos.
Na direita conservadora, Bruno Retailleau, de Les Républicains, pediu a decretação do estado de emergência. Na extrema direita, Marine Le Pen e Jordan Bardella, do Rassemblement national (RN), concentram críticas na incapacidade do governo de garantir segurança. Segundo análise do Le Monde, o RN procura apresentar-se como o partido da ordem diante da eleição presidencial de 2027.
O partido de Macron, Renaissance, é classificado pelo Le Monde como centrista. O campo governista reúne forças do centro e da direita, com diferenças internas. Essa composição se distingue tanto da esquerda socialista e da esquerda radical quanto da extrema direita representada pelo RN.
Tradição de mobilização
A ocupação das ruas tem longa presença na história francesa. No século 19, as revoluções de 1830 e 1848 e a Comuna de Paris, em 1871, marcaram disputas sobre poder, participação popular e organização social. Foram processos distintos, que incluíram insurreições e mudanças de regime, com dimensão diferente das manifestações atuais.
No século 20, destacaram-se as greves de 1936 e Maio de 1968, quando a contestação estudantil foi acompanhada por uma ampla paralisação de trabalhadores. Mais recentemente, os ‘coletes amarelos’, mobilizados a partir de novembro de 2018 contra a alta das taxas sobre combustíveis, recolocaram o poder de compra no centro do debate. Essa trajetória ajuda a compreender o peso político das ruas na França, embora cada movimento tenha causas, participantes e resultados próprios.
Por Everaldo Goes, graduado em Licenciatura em História, jornalista e editor do Feira Hoje
Fontes consultadas: Le Monde e L’Est Républicain, da França.
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19/10/26

