Novidades sobre a candidatura de Taurino Araújo à Cadeira 32 da ABL

“Depois de Ariano, é Taurino.”
— Taurino Araújo, sobre a lógica sequencial de sua candidatura à sucessão da Cadeira 32 da Academia Brasileira de Letras.
ABL — Cadeira 32
A semioticista canado-brasileira Lícia Soares de Souza acaba de publicar no Zenodo Female Protagonism in Guadalupe Madre, by Taurino Araújo: A Hypothesis of Transdiscursive Coherence (42 p.). Partindo de Guadalupe Madre, investiga o protagonismo feminino nas mais de 3 mil páginas de poesia de Taurino Araújo, poeta civilizacional. Com tradução de Edson Reis Santana, o tratado percorre Bahia, Portugal, México e as Américas.

Taurino Araújo: “Chego das margens interioranas de Jequié e Ubatã, nos ombros de minha obra grandiosa, para trabalhar pelas letras do Brasil”
Panorama da Candidatura
- A Conexão de Taurino Araújo com a Cadeira 32 da ABL

O estudo recente sobre obra de Taurino Araújo coloca explicitamente a genealogia da Cadeira 32 da Academia Brasileirade Letras como pano de frente e de fundo de sua produção pública. Essa cadeira possui uma forte tradição de intelectuais ligados ao domínio da palavra pública, do magistério, do jornalismo e do teatro.
Historicamente, a Cadeira 32 foi ocupada por grandes nomes da cultura nacional:
* Patrono: Manuel de Araújo Porto-Alegre.
* Fundador: Carlos de Laet.
* Sucessores: Ramiz Galvão, Viriato Correia, Joracy Camargo, Genolino Amado, Ariano Suassuna e Zuenir Ventura.
A tese defendida por críticos literários é a de que Taurino Araújo dialoga diretamente com essa linha de transmissão cultural. Ele une a atuação jurídica, a oratória e a poesia contemporânea, absorvendo a “chama” de antecessores como Ariano Suassuna. Como pontuado pelo atual ocupante Zuenir Ventura, “suceder não é substituir”; o nome de Taurino surge não para imitar os antigos acadêmicos, mas para responder aos dilemas contemporâneos a partir da mesma matriz de relevância pública.
- Reconhecimento como “Monumento Vivo” da Língua
Críticos e intelectuais de peso, como Nelson Cerqueira e Mário Nelson Carvalho, já o caracterizaram como um “monumento vivo da Língua Portuguesa”. Essa alcunha robustece o argumento da elegibilidade de Taurino Araújo para a ABL, uma instituição cujo propósito primordial é a salvaguarda e a celebração da língua nacional.
A produção de Taurino em obras como A Caturna, A caçambilha, Guadalupe Madre e É tarde, mas não é tarde é lida como manifestação eloquente de fazer com que “o verbo prossiga” e sobreviva ao próprio sujeito, operando diretamente na preservação da memória e da identidade cultural do povo brasileiro, segundo a crítica especializada, conforme enfatiza o recente estudo de Lícia Soares de Souza.
- A Reconfiguração do Condoreirismo na Atualidade
Outro fator que baliza a defesa de Taurino para a ABL é a sua capacidade de reativar a energia poética de Castro Alves sem cair na mera paródia romântica. O tributo ao “Poeta dos Escravos” em pleno século XXI demonstra uma densidade intelectual que impressiona os pares acadêmicos. Ao transmutar o clássico “voo do condor” na “metáfora da escada” (uma verticalidade percorrida degrau por degrau através de versos curtos e cortantes), Taurino Araújo oferece inovação estética e textual de nível compatível com o exigido pela Academia Brasileira de Letras.
Taurino Araújo: “Eu chego das margens interioranas de Jequié e Ubatã nos ombros de minha obra grandiosa para trabalhar pelas letras do Brasil. Oxalá que isso aconteça agora ainda na quadra dos meus 57 anos, 49 deles dedicados quase exclusivamente a esse assunto”.
É tarde, mas não é tarde
Tributo a Castro Alves
Taurino Araújo, Ph.D.
I — DEUS
Do Olimpo,
Deus me deu urgência
quando estava longe,
não longe de distância,
mas daquele porto
que existe
entre a pergunta
e o sonho.
Havia
céu demais
para
uma resposta
pouca.
Fiz do verso
escada,
universo vasto:
do sertão
ao átomo.
E encontrei
o infinito
olhando
para baixo.
Há perguntas
que pedem as alturas
de Castro Alves.
II — UNIVERSO
E então a noite,
numa pupila,
coube em mim
inteira,
uma estrela
tão grande,
sem
sair do lugar,
que caiu
agora.
E o mar,
lá embaixo,
chamou
de Universo
o que,
até ali,
no mundo
não cabia.
Castro Alves
resumiu o infinito inteiro
até caber num verso
e aumentou
o verso
até não caber
em mim.
III — AMOR
Depois
veio uma mulher,
Teresa,
Eugênia Câmara,
não importa o nome.
Nomes são roupas
que o tempo despe.
Ela entrou.
E o quarto
ficou maior.
Uma mecha de cabelo,
uma sombra no ombro,
o quase de uma boca —
o incêndio
consumindo
também a mão
que o consome.
IV — LIBERDADE
Mas,
um dia,
o poeta
ouviu ferro.
Não era sino.
Não era espada.
Não era ferramenta.
Era ferro
preso a ferir
um homem.
E naquele instante
a língua portuguesa
ficou condoreira.
Cada palavra
carregava
uma argola.
Cada sílaba
um pé.
Então
ele mergulhou
a ponta do verso
na própria
vergonha.
E escreveu.
Não para
libertar
sozinho
quem ninguém
sozinho se libertaria.
Escreveu
para que o ferro
jamais pudesse dizer:
ninguém
jamais
me ouve.
V — O NAVIO
Aquele mar havia
sido inocente
até carregar
homens
acorrentados.
Depois disso,
nunca mais azul
conseguiu ser.
Naquelas águas,
o aprender
dos crimes.
Madeiras
que guardam gritos.
Porões
que continuam
escuros
depois de abertos.
E assim o Poeta
olhou o Atlântico.
E o Atlântico
abaixou os olhos.
Desde então,
o mar
bate mais forte
quando
chega
a Todos os Santos.
VI — A BAHIA
Um subir
ladeiras,
descer de cais,
entrar
janelas,
de sal
e sangue
misturar
poema.
Bahia
que
depois fingia
inocência
ao sol.
Ir e vir de pedra,
porto,
mulher, praça
e mar, senzala.
Um poema inteiro.
Castro Alves
em tudo,
levantando tudo.
VII — A MORTE
A morte
começou
tão cedo
a rondar-lhe
a casa.
Primeiro
de longe.
Depois,
de perto.
Por fim,
sentou-se.
Ele escreveu
depressa.
Amou depressa.
Viveu poeta,
com aquela urgência.
Quando
a morte
finalmente
lhe tocou o ombro,
encontrou
um jovem
e uma obra
mais velha
que o futuro
inteiro.
VIII — O MILAGRE
Homero Pires disse:
milagre de poema.
Talvez milagres
contrariem
a lógica.
Que fazer
escolhas?
Encontrou
desigualdade
e clamou justiça.
Como fazer isso
sem fazer barulho?
Procurou a Deus
sem abandonar
a dúvida.
IX — 14 DE MARÇO
Muitos anos depois,
naquele sábado,
Taurino
entrou
na Academia.
Era 14
de março
de 1992.
Castro Alves, morto
havia mais
de um século.
Taurino falou:
— Devemos preservar
a memória
do povo brasileiro
através
do ícone Castro Alves.
Depois silenciou
por um instante.
Talvez tenha olhado
Ilhéus,
uma janela
grande,
naquela Casa
de Jorge Amado.
Talvez a tarde
estivesse
descendo.
Quando o poeta disse:
— Eu acredito em milagres.
Mas, ninguém percebeu,
naquele instante,
que o poeta morto
estava respirando.
X — TARDE
Anos depois, é tarde.
Salvador. 2019.
Evandro Guerra
procurava Castro Alves
entre Deus,
Universo,
Amor
e Liberdade.
Um livro aberto.
Joaci apontava
lirismo,
audácia,
destemor
do poeta,
imagens grandiosas.
Segunda-feira, 17 de junho.
Aniversário de Nelson Cerqueira.
Taurino celebrado em Itabuna.
Evelina lembrava
os signos
enlaçando
a vida,
a imortalizar um homem
e fecundar a palavra.
XI — O NOME
Um nome poeta
pode virar estátua.
Pode virar praça.
Pode virar escola.
Pode virar rua.
Avenida Cinquentenário.
Mas um verso,
se for mesmo verso,
não se submete ao bronze.
Sai andando,
Itabuna toda,
um refazer poema,
uma Ásia inteira.
Pois entra na boca
de quem
não nasceu ainda.
E troca de século
sem trocar de nome.
XII — CASTRO ALVES
Por isso, Castro Alves,
não te trago flores.
Flores morrem
demasiado rápido.
Não te trago bronze
para ficar imóvel.
Não te trago mármore.
A noite sabe
o que fazer
com mármores.
Trago-te uma pergunta,
quero uma resposta:
quando um povo
finalmente
se percebe livre,
quem liberta
a palavra
liberdade?
A liberdade
que demonstra
ser realmente livre?
E a tua voz,
vinda bem de longe
ou de mim tão perto,
Castro Alves, disse:
— É tarde.
É tarde inteira.
Sim, eu disse,
para mim,
é tarde,
mas eu não desisto.
— Pois jamais é tarde.
O poema É Tarde, mas não é tarde será objeto de mais um estudo. Aguardem!
11/10/26




