Cultura 11 de outubro de 2026

Novidades sobre a candidatura de Taurino Araújo à Cadeira 32 da ABL

Taurino Araújo

“Depois de Ariano, é Taurino.”

— Taurino Araújo, sobre a lógica sequencial de sua candidatura à sucessão da Cadeira 32 da Academia Brasileira de Letras.

ABL — Cadeira 32

A semioticista canado-brasileira Lícia Soares de Souza acaba de publicar no Zenodo Female Protagonism in Guadalupe Madre, by Taurino Araújo: A Hypothesis of Transdiscursive Coherence (42 p.). Partindo de Guadalupe Madre, investiga o protagonismo feminino nas mais de 3 mil páginas de poesia de Taurino Araújo, poeta civilizacional. Com tradução de Edson Reis Santana, o tratado percorre Bahia, Portugal, México e as Américas.

Taurino Araújo

Taurino Araújo: “Chego das margens interioranas de Jequié e Ubatã, nos ombros de minha obra grandiosa, para trabalhar pelas letras do Brasil”

Panorama da Candidatura

  1. A Conexão de Taurino Araújo com a Cadeira 32 da ABL

Taurino Araújo

O estudo recente sobre obra de Taurino Araújo coloca explicitamente a genealogia da Cadeira 32 da Academia Brasileirade Letras como pano de frente e de fundo de sua produção pública. Essa cadeira possui uma forte tradição de intelectuais ligados ao domínio da palavra pública, do magistério, do jornalismo e do teatro.

Historicamente, a Cadeira 32 foi ocupada por grandes nomes da cultura nacional:

* Patrono: Manuel de Araújo Porto-Alegre.

* Fundador: Carlos de Laet.

* Sucessores: Ramiz Galvão, Viriato Correia, Joracy Camargo, Genolino Amado, Ariano Suassuna e Zuenir Ventura.

A tese defendida por críticos literários é a de que Taurino Araújo dialoga diretamente com essa linha de transmissão cultural. Ele une a atuação jurídica, a oratória e a poesia contemporânea, absorvendo a “chama” de antecessores como Ariano Suassuna. Como pontuado pelo atual ocupante Zuenir Ventura, “suceder não é substituir”; o nome de Taurino surge não para imitar os antigos acadêmicos, mas para responder aos dilemas contemporâneos a partir da mesma matriz de relevância pública.

 

  1. Reconhecimento como “Monumento Vivo” da Língua

 

Críticos e intelectuais de peso, como Nelson Cerqueira e Mário Nelson Carvalho, já o caracterizaram como um “monumento vivo da Língua Portuguesa”. Essa alcunha robustece o argumento da elegibilidade de Taurino Araújo para a ABL, uma instituição cujo propósito primordial é a salvaguarda e a celebração da língua nacional.

A produção de Taurino em obras como A Caturna, A caçambilha, Guadalupe Madre e É tarde, mas não é tarde é lida como manifestação eloquente de fazer com que “o verbo prossiga” e sobreviva ao próprio sujeito, operando diretamente na preservação da memória e da identidade cultural do povo brasileiro, segundo a crítica especializada, conforme enfatiza o recente estudo de Lícia Soares de Souza.

  1. A Reconfiguração do Condoreirismo na Atualidade

Outro fator que baliza a defesa de Taurino para a ABL é a sua capacidade de reativar a energia poética de Castro Alves sem cair na mera paródia romântica. O tributo ao “Poeta dos Escravos” em pleno século XXI demonstra uma densidade intelectual que impressiona os pares acadêmicos. Ao transmutar o clássico “voo do condor” na “metáfora da escada” (uma verticalidade percorrida degrau por degrau através de versos curtos e cortantes), Taurino Araújo oferece inovação estética e textual de nível compatível com o exigido pela Academia Brasileira de Letras.

Taurino Araújo: “Eu chego das margens interioranas de Jequié e Ubatã nos ombros de minha obra grandiosa para trabalhar pelas letras do Brasil. Oxalá que isso aconteça agora ainda na quadra dos meus 57 anos, 49 deles dedicados quase exclusivamente a esse assunto”.

É tarde, mas não é tarde

Tributo a Castro Alves

Taurino Araújo, Ph.D.

I — DEUS

Do Olimpo,

Deus me deu urgência

quando estava longe,

não longe de distância,

mas daquele porto

que existe

entre a pergunta

e o sonho.

 

Havia

céu demais

para

uma resposta

pouca.

 

Fiz do verso

escada,

universo vasto:

do sertão

ao átomo.

 

E encontrei

o infinito

olhando

para baixo.

 

Há perguntas

que pedem as alturas

de Castro Alves.

II — UNIVERSO

E então a noite,

numa pupila,

coube em mim

inteira,

 

uma estrela

tão grande,

sem

sair do lugar,

que caiu

agora.

 

E o mar,

lá embaixo,

chamou

de Universo

o que,

até ali,

no mundo

não cabia.

 

Castro Alves

resumiu o infinito inteiro

até caber num verso

e aumentou

o verso

até não caber

em mim.

III — AMOR

Depois

veio uma mulher,

Teresa,

Eugênia Câmara,

não importa o nome.

 

Nomes são roupas

que o tempo despe.

 

Ela entrou.

 

E o quarto

ficou maior.

 

Uma mecha de cabelo,

uma sombra no ombro,

o quase de uma boca —

o incêndio

consumindo

também a mão

que o consome.

IV — LIBERDADE

Mas,

um dia,

o poeta

ouviu ferro.

 

Não era sino.

Não era espada.

 

Não era ferramenta.

 

Era ferro

preso a ferir

um homem.

 

E naquele instante

a língua portuguesa

ficou condoreira.

 

Cada palavra

carregava

uma argola.

 

Cada sílaba

um pé.

 

Então 

ele mergulhou

a ponta do verso

na própria

vergonha.

 

E escreveu.

 

Não para

libertar 

sozinho

quem ninguém

sozinho se libertaria.

 

Escreveu

para que o ferro

jamais pudesse dizer:

ninguém

jamais

me ouve.

 

V — O NAVIO

Aquele mar havia

sido inocente

até carregar

homens

acorrentados.

 

Depois disso,

nunca mais azul

conseguiu ser.

 

Naquelas águas,

o aprender

dos crimes.

 

Madeiras

que guardam gritos.

 

Porões

que continuam

escuros

depois de abertos.

 

E assim o Poeta

olhou o Atlântico.

 

E o Atlântico

abaixou os olhos.

 

Desde então,

o mar 

bate mais forte

quando 

chega

a Todos os Santos.

VI — A BAHIA

Um subir

ladeiras,

descer de cais,

entrar

janelas,

de sal 

e sangue

misturar

poema.

 

Bahia

que 

depois fingia

inocência

ao sol.

 

Ir e vir de pedra,

porto, 

mulher, praça

 e mar, senzala.

 

Um poema inteiro.

 

Castro Alves

em tudo,

levantando tudo.

VII — A MORTE

A morte

começou 

tão cedo

a rondar-lhe

a casa.

 

Primeiro

de longe.

 

Depois,

de perto.

 

Por fim,

sentou-se.

 

Ele escreveu

depressa.

Amou depressa.

Viveu poeta,

com aquela urgência.

 

Quando

a morte

finalmente

lhe tocou o ombro,

 

encontrou

um jovem

e uma obra

mais velha

que o futuro

inteiro.

 

VIII — O MILAGRE

Homero Pires disse:

milagre de poema.

 

Talvez milagres

contrariem

a lógica.

 

Que fazer

escolhas?

 

Encontrou

desigualdade

e clamou justiça.

 

Como fazer isso

sem fazer barulho?

 

Procurou a Deus

sem abandonar

a dúvida.

 

IX — 14 DE MARÇO

Muitos anos depois,

naquele sábado,

Taurino

entrou

na Academia.

 

Era 14

de março

de 1992.

 

Castro Alves, morto

havia mais

de um século.

 

Taurino falou:

— Devemos preservar

a memória

do povo brasileiro

através

do ícone Castro Alves.

 

Depois silenciou 

por um instante.

 

Talvez tenha olhado

Ilhéus, 

uma janela

grande,

naquela Casa 

de Jorge Amado.

 

Talvez a tarde

estivesse

descendo.

 

Quando o poeta disse:

 

— Eu acredito em milagres.

 

Mas, ninguém percebeu,

naquele instante,

que o poeta morto

estava respirando.

 

X — TARDE

Anos depois, é tarde.

 

Salvador. 2019.

Evandro Guerra

procurava Castro Alves

entre Deus,

Universo,

Amor

e Liberdade.

 

Um livro aberto.

Joaci apontava

lirismo,

audácia,

destemor

do poeta,

imagens grandiosas.

 

Segunda-feira, 17 de junho.

Aniversário de Nelson Cerqueira.

Taurino celebrado em Itabuna.

 

Evelina lembrava

os signos

enlaçando

a vida,

 a imortalizar um homem

e fecundar a palavra.

 

XI — O NOME

Um nome poeta

pode virar estátua.

 

Pode virar praça.

 

Pode virar escola.

 

Pode virar rua.

Avenida Cinquentenário.

 

Mas um verso, 

se for mesmo verso, 

não se submete ao bronze.

 

Sai andando,

Itabuna toda,

um refazer poema,

uma Ásia inteira.

 

Pois entra na boca

de quem

não nasceu ainda.

 

E troca de século

sem trocar de nome.

XII — CASTRO ALVES

Por isso, Castro Alves,

não te trago flores.

 

Flores morrem

demasiado rápido.

 

Não te trago bronze

para ficar imóvel.

Não te trago mármore.

A noite sabe

o que fazer

com mármores.

Trago-te uma pergunta,

quero uma resposta:

quando um povo

finalmente

se percebe livre,

 

quem liberta

a palavra

liberdade?

 

A liberdade

que demonstra

ser realmente livre?

 

E a tua voz,

vinda bem de longe

ou de mim tão perto,

Castro Alves, disse:

— É tarde.

É tarde inteira.

 

Sim, eu disse,

para mim,

é tarde,

mas eu não desisto.

—  Pois jamais é tarde.

O poema É Tarde, mas não é tarde será objeto de mais um estudo. Aguardem!

11/10/26

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