Nelson Cerqueira publica em inglês tratado bilíngue de 61 páginas sobre A caturna’, de Taurino Araújo
Publicado em inglês sob o título A CATURNA BY TAURINO ARAÚJO: A CRITICAL TREATISE, o tratado bilíngue de 61 páginas, com versão inglesa de Edson Reis Santana, circula no SSRN, plataforma internacional de pesquisa aberta que integra a Elsevier
Em 39 seções, tratado bilíngue mobiliza literatura, filosofia, linguística, antropologia, memória e história para investigar a arquitetura de um poema de 96 versos.
É precisamente nesse ponto que Nelson chega à sua conclusão mais radical: poeta e pensador, considerados separadamente, já não seriam categorias suficientes para dimensioná-lo.

Taurino Araújo
A conclusão não surge como elogio isolado. Em A caturna, de Taurino Araújo: um tratado crítico, Cerqueira distribui sua investigação por 39 seções e duas grandes partes, submetendo um poema de 96 versos a sucessivas perspectivas de leitura até formular: “É nesse limite que as designações usuais de poeta e pensador — tomadas isoladamente — já não bastam para dimensionar Taurino Araújo.”
A internacionalização de A Caturna não significa apenas ampliar a circulação de um poema. O tratado de Nelson Cerqueira começa a converter Taurino Araújo de simples objeto de apreciação literária em objeto de elaboração crítica: uma figura autoral examinada nas relações entre poesia, pensamento, língua, corpo, memória, civilização e permanência.
O percurso atravessa literatura, filosofia,

Nelson Cerqueira
linguística, antropologia, história, autobiografia, corporeidade, memória cultural, oralidade, território e permanência.
A dimensão do trabalho ganha significado particular quando considerada a trajetória de quem o assina. Nelson Cerqueira integra a Academia de Letras da Bahia e é doutor e mestre em Literatura Comparada pela Indiana University, nos Estados Unidos. Professor, poeta, jornalista, ensaísta, crítico literário e romancista, tem em seu percurso estudos sobre autores como Franz Kafka, Agostinho Neto, William Faulkner, Graciliano Ramos e Jorge Amado.
Essa trajetória crítica torna especialmente significativa a escolha de A caturna como objeto de um tratado. Acostumado a lidar com autores de reconhecida densidade literária e histórica, Cerqueira dedica 61 páginas e 39 seções a um único poema de Taurino Araújo.
Mais do que a extensão do estudo, chama atenção a amplitude do instrumental mobilizado para compreendê-lo.
Quanto mais o crítico procura dimensionar A caturna, mais precisa ampliar seu campo de leitura. A complexidade atribuída ao poema aparece, assim, menos como superlativo do que como exigência metodológica: uma única chave interpretativa não basta para acompanhar todas as direções abertas pela obra.
Mais de dez campos e perspectivas entram em relação ao longo do tratado. Literatura, filosofia, linguística, antropologia, história, autobiografia, corporeidade, memória cultural, oralidade, território e permanência não aparecem como ornamentos teóricos acrescentados posteriormente ao poema. Na leitura de Cerqueira, são convocados pelos problemas que a própria obra faz emergir.
Essa é uma das características metodológicas mais importantes do estudo. Nelson não parte de uma teoria consagrada para nela enquadrar Taurino Araújo. Faz o movimento inverso: parte do poema e pergunta quais campos do conhecimento são necessários para acompanhar sua arquitetura.
O ponto de partida está numa palavra rara. Em vez de tratar caturna como simples curiosidade vocabular, Cerqueira acompanha a transformação promovida pelo poema: a caturna torna-se calçado da Língua Portuguesa; o solado toca o mundo; desse contato nasce o passo; o passo produz pegada; a pegada converte-se em rastro semântico; o rastro se faz inscrição; a inscrição torna-se memória; e a memória projeta nome e obra em direção à permanência.
A partir dessa imagem inicial, forma-se uma extensa rede de interlocuções. A metáfora conduz à teoria da metáfora; a primeira pessoa, às questões da autobiografia e da identidade; passo e pegada, às reflexões sobre caminhada e produção do espaço; couro e solado, à corporeidade; dólmens, rastros e sobrevivência do nome, à memória cultural; voz e proclamação, à oralidade e à performance; Bilac, à intertextualidade; Portugal, Recôncavo e Bahia, à história e à dimensão lusófona da língua.
O diálogo alcança diferentes tradições internacionais da literatura e do pensamento. Paul Ricoeur, Lakoff e Johnson, Merleau-Ponty, Genette e Kristeva aparecem como interlocutores possíveis. No horizonte literário, a comparação chega a Rudyard Kipling e Sujata Bhatt, enquanto Olavo Bilac ocupa posição particular porque sua “Última Flor do Lácio” é convocada pelo próprio poema de Taurino.
Cerqueira, contudo, estabelece uma cautela metodológica decisiva. Essa biblioteca não é apresentada como genealogia obrigatória da poesia de Taurino Araújo. O crítico não afirma que A caturna tenha resultado da aplicação consciente dessas teorias. O poema vem primeiro; as referências aparecem depois, quando a análise encontra ressonâncias entre questões produzidas pela obra e diferentes tradições do pensamento.
A bibliografia assume, por isso, outra função: oferece ao leitor caminhos para continuar a investigação. Quem desejar aprofundar, refazer ou mesmo contestar a interpretação encontra referências sobre metáfora, autobiografia, identidade, corporeidade, memória cultural, oralidade, intertextualidade, história da língua e produção do espaço. Depois de 61 páginas, Nelson não fecha o poema: deixa abertas outras possibilidades de leitura.
A amplitude da análise tampouco impede o crítico de manter independência diante de seu objeto. Cerqueira registra que os 96 versos não apresentam a mesma intensidade, identifica formulações mais celebratórias e aponta compressões sintáticas capazes de produzir resistência gramatical.
Essa ressalva é fundamental para dimensionar os juízos que aparecem posteriormente: a consagração não constitui o ponto de partida da análise, mas uma consequência do percurso crítico.
Na leitura de Cerqueira, A caturna reúne numa mesma arquitetura elementos que frequentemente aparecem separados na literatura de diferentes épocas: invenção lexical, consciência histórica, filosofia da linguagem, geografia transatlântica, corpo, memória e projeto de permanência.
Portugal e Brasil participam dessa caminhada como territórios vivos da língua. Serra do Caramulo, Alcofra, Recôncavo e Bahia deixam de ser apenas referências geográficas e passam a funcionar como estações de uma linguagem em movimento. Taurino recebe uma tradição, mas não se limita a conservá-la: atravessa-a com sua experiência brasileira e baiana e a devolve transformada.
No desenvolvimento do poema ocorre então uma inversão decisiva. No início, o poeta calça a caturna. No final, quando seus passos já não ecoarem, será a própria caturna que continuará proclamando. Cerqueira identifica nesse movimento uma transferência de agência: primeiro o poeta conduz a língua; depois, a língua conduz o poeta; por fim, a língua sobrevive a ele.
É somente depois dessa longa travessia que a avaliação crítica alcança seu ponto mais alto. Taurino Araújo emerge no tratado como “utente, intérprete, renovador e monumento vivo da Língua Portuguesa”, alguém que deixa no idioma uma “cicatriz autoral” destinada a sobreviver ao corpo físico e lega à posteridade “a potência de uma voz inconfundível”.
Nesse ponto, a análise ultrapassa Portugal, Brasil e a própria Língua Portuguesa. A imagem converte-se em conceito; a matéria verbal, em forma de conhecimento; e a experiência individual alcança questões de memória, mortalidade, sobrevivência cultural e condição humana.
A circulação no SSRN dá materialidade acadêmica a essa internacionalização. Com DOI próprio e versão integral em inglês, A CATURNA BY TAURINO ARAÚJO: A CRITICAL TREATISE passa a integrar uma rede internacional de disseminação de pesquisa vinculada à Elsevier, ampliando a possibilidade de leitura, citação e interlocução crítica além do espaço de língua portuguesa.
O que se internacionaliza, portanto, não é apenas o poema, mas também a elaboração crítica construída em torno dele. A tradução permite que a arquitetura interpretativa de Nelson Cerqueira — poesia, pensamento, língua, corpo, memória, civilização e permanência — seja examinada por leitores e pesquisadores de outros contextos linguísticos e acadêmicos.
Esse deslocamento é decisivo: A Caturna deixa de circular apenas como criação poética e passa a circular também como problema crítico, dotado de aparato interpretativo, bibliografia, tradução e registro acadêmico internacional.
Só então a frase apresentada no início da matéria revela plenamente sua dimensão. O que, isoladamente, poderia parecer uma declaração extraordinária passa a funcionar como conclusão de uma extensa demonstração crítica.
Nelson Cerqueira escreve:
“É nesse limite que as designações usuais de poeta e pensador — tomadas isoladamente — já não bastam para dimensionar Taurino Araújo.”
A força da conclusão está também no caminho percorrido para alcançá-la: um tratado bilíngue de 61 páginas, duas grandes partes, 39 seções e sucessivas redes bibliográficas mobilizadas para compreender em profundidade um poema de 96 versos.
Pela extensão da investigação, pela arquitetura interpretativa e pela amplitude teórica mobilizada em torno de um único poema, o tratado sobre A Caturna se apresenta como um dos trabalhos críticos mais ambiciosos de Nelson Cerqueira e como contribuição de excepcional fôlego ao pensamento crítico-literário de vocação universal.
Nelson não pede ao leitor adesão automática à sua conclusão. Constrói, passo a passo, o percurso crítico que o conduz até ela.
Acesse:
A Caturna, de Taurino Araújo: Um Tratado Crítico – Por Nelson Cerqueira – Versão em Inglês
A Caturna, de Taurino Araújo: Um Tratado Crítico – Por Nelson Cerqueira – Versão em Português
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28/08/26




