‘A Caturna’, de Taurino Araújo, recebe tratado crítico de Nelson Cerqueira
‘A Caturna’, de Taurino Araújo, Ph.D., jurista, poeta, crítico literário e escritor, recebe uma análise de elevada densidade intelectual em ‘A Caturna’, de Taurino Araújo: um tratado crítico’, de Nelson Cerqueira, Ph.D. em Literatura Comparada pela Indiana University Bloomington, membro da Academia de Letras da Bahia, onde ocupa a Cadeira 4, e detentor de uma trajetória intelectual profícua e de extraordinária profundidade, desenvolvida em quatro continentes.

Nelson Cerqueira
O tratado culmina em uma afirmação excepcional sobre a figura autoral que emerge da obra: “É nesse limite que as designações usuais de poeta e pensador — tomadas isoladamente — já não bastam para dimensionar Taurino Araújo”.
Sistema poético
Ao longo de 48 páginas, Cerqueira examina o poema como uma ode épico-lírica e metalinguística à Língua Portuguesa. Demonstra como Taurino transforma a palavra rara “caturna” em um sistema poético no qual a língua se converte em calçado, corpo, passo, pegada, memória e continuidade histórica.
A leitura chama a atenção também pela própria trajetória de Nelson Cerqueira. Romancista, ensaísta, poeta, jornalista e crítico literário, ele construiu uma obra marcada pela literatura comparada e pelo trânsito entre diferentes tradições culturais. Essa experiência reaparece no tratado não como exibição de erudição, mas como instrumento para dimensionar a singularidade do poema diante de horizontes literários e intelectuais mais amplos.
Diálogos universais
O estudo aproxima ‘A Caturna’ de tradições internacionais distintas e de diferentes momentos da história da literatura e do pensamento. Rudyard Kipling surge como referência comparativa para a imagem das botas e da marcha; Sujata Bhatt, para a corporalização da língua materna; e Olavo Bilac, como intertexto direto da tradição lusófona. Ao lado deles, autores como Paul Ricoeur, George Lakoff, Mark Johnson, Gérard Genette e Julia Kristeva ajudam a ampliar as questões relacionadas à metáfora, à linguagem, à intertextualidade e à produção de sentido que o próprio poema suscita.
É importante observar, porém, que

Taurino Araújo
Cerqueira não apresenta essa bibliografia como origem da leitura nem como moldura imposta ao poema. O movimento crítico é o inverso: parte da arquitetura interna de ‘A Caturna’ e mostra que ela própria convoca problemas capazes de dialogar com diferentes tradições filosóficas, antropológicas, linguísticas e literárias. As referências funcionam como uma constelação crítica que amplia e contextualiza questões já presentes no texto poético.
Nesse sentido, Nelson oferece também ao leitor um percurso possível de aprofundamento. A bibliografia não aparece apenas como aparato acadêmico ao final do estudo, mas como convite para que o leitor refaça, amplie ou confronte a investigação por outros caminhos: teoria da metáfora, autobiografia, identidade, caminhada, corporeidade, memória cultural, oralidade, intertextualidade e história da Língua Portuguesa.
Língua em movimento
A geografia também integra essa ampliação. Publicada on-line em 18 de agosto de 2026, a análise acompanha a travessia entre Portugal, a Serra do Caramulo, o Recôncavo e a Bahia. A herança lusitana é incorporada, ressignificada e devolvida ao idioma pela experiência brasileira. A língua conserva sua ancestralidade porque continua caminhando e recebendo novas marcas e novos ritmos.
Uma das qualidades mais evidentes da análise está justamente em seu fôlego crítico. Cerqueira não se detém na descoberta inicial da metáfora. Ele acompanha suas ramificações e mostra como a caturna se transforma de objeto em arquivo, corpo, instrumento de travessia, marca autoral e, finalmente, voz capaz de sobreviver ao próprio poeta.
Nelson evidencia também a dimensão autobiográfica: a caminhada representa trajetória, magistério, criação, desgaste humano e desejo de permanência. Taurino emerge como herdeiro, intérprete e renovador da Língua Portuguesa.
Independência crítica
A força do tratado, entretanto, não decorre apenas do elogio. Cerqueira reconhece diferenças de intensidade entre os 96 versos, registra passagens mais retóricas e identifica zonas de resistência sintática. Essa independência crítica confere maior peso às conclusões posteriores, pois mostra que a elevação de Taurino resulta de uma demonstração, e não da mera adesão ao objeto analisado.
É depois dessa travessia que Nelson chega a algumas das formulações mais fortes do estudo. Taurino aparece como “utente, intérprete, renovador e monumento vivo da Língua Portuguesa”, alguém que deixa no idioma uma “cicatriz autoral” e projeta para a posteridade “a potência de uma voz inconfundível”.
Ao relacionar ‘A Caturna’ às mais diferentes tradições internacionais da literatura e do pensamento, Cerqueira não dilui a singularidade do poema. Ao contrário, utiliza o confronto comparativo para delimitá-la com maior precisão. O próprio tratado afirma que as referências devem ser entendidas como horizonte de diálogo, e não como genealogia obrigatória da poética de Taurino Araújo.
Poesia e pensamento
A afirmação final decorre dessa convergência entre grandeza poética e grandeza do pensamento: a imagem torna-se conceito; a matéria verbal converte-se em forma de conhecimento; e a experiência individual alcança dimensão antropológica, universal e civilizatória.
Acesse:
A Caturna, de Taurino Araújo: Um Tratado Crítico – Por Nelson Cerqueira
Siga @feirahoje
FH, 20/08/26




