Literatura 22 de setembro de 2025

Poeta Vladimir Queiroz lança antologia comemorativa de 3 décadas na ALB

Para celebrar a quadra, o autor promove lançamento de obra inédita e é homenageado em crítica literária assinada por Taurino Araújo

A Academia de Letras da Bahia (ALB) realizou ontem mais uma edição do projeto Livros na Mesa, sob a presidência do imortal Aleilton Fonseca. Desta vez, com o lançamento de Sagittarius – uma antologia, de Vladimir Queiroz.

Poeta Vladimir Queiroz lança antologia comemorativa de 3 décadas na ALBPara celebrar a quadra, o autor promove lançamento de obra inédita e é homenageado em crítica literária assinada por Taurino Araújo

Vladimir Queiroz entre Soraya e Taurino Araújo: concorrido lançamento de Sagittarius, na ALB

Em seu novo livro, o escritor, que é titular da Cadeira 38 da Academia Feirense de Letras, celebra 30 anos de dedicação à literatura. São 60 poemas reunidos, entre inéditos e já publicados. A obra marca não apenas a maturidade artística do poeta, mas também um momento pessoal de reflexão e plenitude, vivido em seus anos sexagenários.

Com sensibilidade e traços que frequentemente tocam o surreal, Vladimir Queiroz transforma a observação cotidiana em imagens que instigam e surpreendem. Seus versos, meticulosamente compostos, convocam o leitor à contemplação, sugerem múltiplos sentidos e convidam à participação ativa no ato poético.

Filho do professor Hilário Dias da Silva, inspetor municipal de educação, e da professora Marília Queiroz da Silva, desde cedo demonstrou intensa curiosidade intelectual. Em 1980, participou do Concurso Secundarista de Poesia do Colégio Severino Vieira, em Salvador, tendo sua poesia apresentada pela atriz Nilda Spencer (1923-2008), na Catedral Basílica.

Formou-se em Engenharia Química pela UFBA e, aprovado em concurso na Petrobras, por mais de três décadas trabalhou com produção de petróleo no Recôncavo Baiano.

Mesmo com intensa atuação técnica, Vladimir Queiroz jamais se afastou da literatura. Fez seu nome na poesia inspirado em poetas e romancistas como Castro Alves, Álvares de Azevedo, Gonçalves Dias, Carlos Drummond de Andrade, Fernando Pessoa, Manoel de Barros e Olavo Bilac.

O primeiro livro de poemas foi publicado em 1996. De lá para cá, foram mais de 15 obras, como ‘Luminescência’ (2008); ‘Muxarabis’ (2015); ‘Brasileirança’ (2016); ‘Kara wã’ (2022), agraciado com o Prêmio Book Brasil 2022 como melhor livro de poesia; e ‘Abayomi’ (2024), vencedor do Prêmio Literário Cidade de Manaus 2024, na categoria poesia.

Possui livros e textos traduzidos e publicados em Portugal, Romênia, Colômbia, Itália, Albânia e Chile, tendo participado de diversas antologias nacionais e internacionais e de eventos literários mundo afora.

Estudo crítico destaca relevância literária de Vladimir Queiroz

Taurino Araújo assina ensaio que analisa 30 anos de poesia do autor

Além do lançamento, a celebração inclui a publicação do estudo “A Polipoética de Vladimir Queiroz – 30 anos de poesia: uma fortuna crítica a partir de seis poemas imprescindíveis”, assinado pelo advogado, jurista, escritor, poeta, artista visual e crítico literário Taurino Araújo. O ensaio propõe uma análise aprofundada da produção poética de Queiroz, identificando elementos recorrentes e inovações estéticas que marcaram sua contribuição à poesia brasileira contemporânea. A escolha de seis poemas representativos serve como eixo condutor para a construção dessa fortuna crítica.

Segundo Taurino Araújo, a obra de Vladimir Queiroz inscreve-se em uma das vertentes mais originais da poesia brasileira contemporânea, articulando o sensorial, o mítico e o histórico em uma rede de significados que desafia qualquer leitura linear.

A ponte está em três elementos:

1. Intermidialidade: a poesia de Queiroz se caracteriza pela circulação por diferentes regimes de linguagem — ora oralidade sertaneja, ora registros místicos-religiosos, ora imagens plásticas quase pictóricas (como em Faúlhas, dedicado a Francisco Brennand), ora a dimensão performática da voz (como em Hakuna Matata). O poema não se fecha na página: ele pulsa em trânsito.

2. Processualidade: A não-fixidez também é chave para Queiroz. Seu poema não é “obra acabada”, mas movimento em espiral: retorna à tradição, mas refaz caminhos; invoca mitologias, mas reinscreve-as no presente; abre ruínas (Covoá), mas nelas planta germens de novos mundos. Assim, a poesia é processo — não produto.

3. Modernidade e pós-modernidade coexistentes: Em Queiroz vemos a permanência do poema social (ecoando Gullar, Thiago de Mello) e, ao mesmo tempo, uma abertura à fragmentação, ao hibridismo e ao trânsito cultural típico do pós-moderno. Há sertão e cidade, Buda e Zeus, Palmares e Persépolis, todos em justaposição.

Para Taurino Araújo, a “polipoética” de Vladimir Queiroz é mais que uma soma de registros; é um campo de forças, em que sertão, ancestralidade, mitologia, espiritualidade e memória coletiva se entrelaçam. Ao analisarmos seis poemas centrais — Covoá, Lótus, Faúlhas, Hakuna Matata, Porto e Trajeto — percebemos como sua obra se afirma como síntese estética e, ao mesmo tempo, abertura para novos horizontes da literatura universal.

Em síntese, a obra de Vladimir Queiroz é uma tessitura plural, marcada por:

• Imagética visceral, que funde corpo, chão e cosmos.

• Sincretismo cultural, que mescla sertão, mitologia, religiosidade afro, indígena e oriental.

• Estruturas rituais, que ecoam ladainhas, aboios, rezas e cantos de roda.

• Universalidade, ao transformar a experiência local em metáfora da condição humana.

Por isso, ao lado de vozes como João Cabral, Guimarães Rosa (com seus lindos “prosoemas”), Manoel de Barros e Thiago de Mello, Vladimir Queiroz afirma-se como poeta que devolve à palavra sua densidade ritual, histórica e cósmica. Sua polipoética é arqueologia e profecia, memória e invenção: uma das contribuições mais originais da poesia brasileira contemporânea à literatura ununiversal.

23/09/25

@feirahoje

 

 

 

 

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