Educação e Cidadania 14 de setembro de 2025

Projeto do curso de Direito da Uefs leva cidadania às escolas e transforma vidas

Professor Agenor Sampaio Neto fala sobre a trajetória e os impactos do Projeto A Uefs vai à escola, que já alcançou centenas de estudantes da rede pública

O Projeto de Extensão A Uefs vai à escola nasceu em 2017 com o objetivo de levar noções de direito e cidadania a estudantes do ensino médio da rede pública de Feira de Santana e região. Coordenado pelo professor Agenor Sampaio Neto, do curso de Direito da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs), a iniciativa já envolveu mais de uma dezena de professores e mobilizou centenas de universitários extensionistas. Em entrevista ao jornalista Everaldo Goes, o professor fala sobre desafios, conquistas e sonhos para o futuro.

Confira:

Everaldo Goes – Como nasceu a ideia do Projeto A Uefs vai à escola?
Agenor Sampaio – A ideia surgiu em 2017, com o propósito de levar noções de direito e cidadania para estudantes do ensino médio das escolas públicas de Feira de Santana e região. Naquele momento, nos incomodava muito o fato de o curso de Direito da Uefs não ter um projeto de extensão voltado para esse diálogo com as escolas.

EG – No início, o foco foi o Direito do Consumidor. Por que começar por esse tema?
AS – Eu trabalho com Direito do Consumidor desde 1997, primeiro como advogado de seguradoras e bancos, e a partir de 2001 passei a atuar na defesa dos consumidores. Conheço, portanto, os dois lados da moeda. Na Uefs, comecei a lecionar a disciplina em 2006, e um ano depois nasceu o projeto, trazendo esse tema como ponto de partida natural.

EG – O senhor esperava que o Projeto ganhasse a dimensão que tem hoje?
AS – Não. Eu sabia que teria impacto nas escolas públicas e na comunidade, mas jamais imaginei que chegaríamos ao ponto de ter 13 professores integrados e dezenas de estudantes a cada semestre. Foi além do que eu sonhava.

EG – Qual foi o maior desafio enfrentado desde 2017?
AS – Foram dois grandes desafios. Primeiro, fazer os estudantes do curso de Direito acreditarem no projeto e se engajarem. Depois, convencer as escolas públicas a abrirem suas portas para receber nossas atatividades.

EG – O envolvimento de outros professores ampliou os horizontes do Projeto?
AS – Ampliou bastante. Hoje somos 13 professores de três cursos — Direito, Administração e Ciências Contábeis — abordando temas que vão além do Direito do Consumidor, como educação financeira, direito à saúde, direitos previdenciários, combate à violência contra a mulher e direitos sociais do trabalhador.

EG – Como os estudantes da rede pública reagem às atividades?
AS – A reação é maravilhosa. Esse é o momento mais gratificante, porque marca o fechamento do ciclo formativo dos extensionistas da Uefs. Há sempre muita interação entre os alunos da universidade e os da escola pública. É um encontro marcado por emoção, reconhecimento e cidadania atativa.

EG – Os alunos extensionistas também saem transformados dessa experiência?
AS – Sem dúvida. Eles percebem, na prática, que a universidade cumpre uma missão social ao levar conhecimento às escolas públicas. É uma transformação profunda.

EG – Qual foi o momento mais marcante que o senhor viveu no Projeto?
AS – Dois me marcaram muito. Em maio de 2025, quando levamos 25 estudantes e seis professores da Uefs para uma visita de campo à Central de Regulação do Estado da Bahia. Passamos o dia inteiro conhecendo a estrutura e participando de um seminário com a superintendente, Dra. Mônica Hupsel. Outro momento foi em junho de 2025, no Colégio Estadual General Sampaio. Ao final, uma aluna chamada Mariana, do 1º ano, pegou o microfone e deu uma verdadeira aula sobre cidadania. Eu me emocionei e chorei. Até hoje guardo essa lelembrança.

EG – Os projetos de extensão mudam a comunidade externa?
AS – Não posso afirmar que mudam, mas certamente impactam. E é importante lembrar, como dizia Paulo Freire, que a extensão universitária não existe apenas para mudar a sociedade, mas também para transformar a própria universidade.

EG – E a universidade, também se transforma com a extensão?
AS – Com certeza. A universidade aprende que não é a “dona do conhecimento”. A interação com a comunidade mostra o valor do saber popular e nos ensina com quem ainda não está dentro dos muros da Uefs.

EG – Que impacto o senhor percebe no olhar dos jovens ao descobrirem seus direitos?**
AS – Eles percebem novos horizontes. Entendem que podem reivindicar seus direitos porque, primeiro, passaram a conhecê-los. Quando criei o projeto, em 2017, minha ideia era essa: não se pode cobrar aquilo que não se conhece. Muitos alunos não sabiam, por exemplo, que têm o direito de devolver uma compra feita pela internet em até sete dias — algo previsto no Código de Defesa do Consumidor. Esse tipo de descoberta muda perspectivas.

EG – Educação cidadã pode ser considerada um caminho para reduzir desigualdades?
AS – Sim, é um caminho fundamental. Eu costumo chamar de cidadania ativa: conhecer os direitos, ocupar espaços e se tornar agente de transformação social e de redução das desigualdades.

EG – Existe algum plano para expandir ainda mais as ações do Projeto?
AS – Temos dois planos principais. O primeiro é visitar uma escola pública de uma cidade vizinha a Feira de Santana, o que deve acontecer em 2026. O segundo, mais ousado, é reunir mil estudantes do ensino médio no Auditório Central da Uefs para um grande “aulão” de cidadania, seguido de um tour pelo campus. É um sonho que exige logística — transporte, alimentação —, mas que pretendemos realizar.

EG – Nesses oito anos de projeto, como se deu a relação com a Pró-Reitoria de Extensão da Uefs, a Proex?
AS – A Proex foi fundamental. Sempre nos apoiou com a impressão das cartilhas distribuídas aos estudantes e com a presença em nossos eventos. Agradeço especialmente aos pró-reitores Márcio Campos e Taíse Bomfim, atual pró-reitora, além dos servidores Verônica, Maurício e Inalva, que sempre atenderam nossas demandas com agilidade. A Proex é uma parceira estratégica do projeto.

EG – O que motiva o senhor a continuar na extensão universitária?
AS – O brilho nos olhos dos estudantes do ensino médio quando visitamos as escolas. E também a certeza de que nossos alunos de Direito saem transformados ao concluir o ciclo extensionista.

EG – Se pudesse resumir o Projeto em poucas palavras, quais seriam?
AS – Cidadania ativa.

14/09/25

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@feirahoje

 

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