Teria Trump usado a guerra comercial como nova fonte de arrecadação?
Discurso contra parceiros estrangeiros pode ter encoberto objetivo fiscal: tarifas já dobraram a receita anual dos EUA. Caso pensado?
A hipótese levantada neste texto é baseada em dados divulgados pelo The New York Times, nesse domingo (03). Enquanto o ex-presidente Donald Trump apresentava a guerra comercial como uma estratégia para proteger a indústria norte-americana e pressionar parceiros internacionais, números recentes levantam a suspeita de que o verdadeiro foco tenha sido fiscal, ou seja, gerar uma nova e robusta fonte de arrecadação para o governo dos Estados Unidos.
Salto expressivo na arrecadação
Segundo dados do Tesouro norte-americano, as tarifas sobre produtos importados já renderam US$ 152 bilhões até julho deste ano — quase o dobro do registrado no mesmo período do ano fiscal anterior. O avanço ocorre num momento em que o país enfrenta elevado endividamento público e tenta compensar cortes tributários aprovados recentemente, que reduziram a receita tradicional da União.
Perigo de dependência
Trump frequentemente anunciou, em suas redes sociais, que as tarifas estariam “trazendo o dinheiro de volta para os EUA”, e usou esse argumento como símbolo de sucesso da política comercial. Para especialistas consultados pelo Times, no entanto, o risco é que as receitas se tornem tão volumosas — podendo ultrapassar US$ 2 trilhões em dez anos — que o país passe a depender dessa fonte, tornando politicamente difícil abrir mão de uma medida que nasceu, em tese, como temporária.
Quem paga essa conta nos EUA
Embora a retórica oficial defenda o interesse dos trabalhadores americanos, os efeitos já começam a ser sentidos no bolso do próprio consumidor. Como os produtos importados chegam mais caros ao país, varejistas e indústrias repassam parte dos custos para os preços finais. Isso pesa, sobretudo, sobre famílias de menor renda, que consomem alimentos, eletrônicos e bens duráveis fabricados com componentes estrangeiros.
Efeitos sobre o resto do mundo
Caso Washington mantenha as tarifas por mais tempo, países afetados como China, Canadá, México e membros da União Europeia tendem a endurecer a retaliação, buscar novos mercados e reduzir sua dependência da economia norte-americana. A longo prazo, essa disputa pode isolar os Estados Unidos em segmentos estratégicos das cadeias produtivas globais, abrindo espaço para que outros competidores, como Índia e Brasil, avancem em áreas deixadas pelos antigos parceiros históricos de Washington.
Everaldo Goes / Feira Hoje
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04/08/25




