Senhor do Bonfim e o caboclo disputaram o imaginário de Salvador no início do século passado
Símbolos hoje consolidados pela fé e pela história já viveram tensões silenciosas, reveladas nos estudos da historiadora Wlamyra Ribeiro de Albuquerque
Por Everaldo Goes*
A força dos símbolos na Bahia
O culto ao Senhor do Bonfim é hoje uma das marcas mais reconhecidas da Bahia. A imagem do Cristo, associada à fé, às romarias e às fitinhas coloridas, tornou-se um emblema da espiritualidade baiana e do sentimento de acolhimento que atravessa gerações.
No entanto, no final do século 19 e início do 20, Salvador vivia transformações sociais, políticas e urbanas que também se refletiam nas festas populares. Nesse período, o caboclo ocupava lugar central no imaginário brasileiro.
O termo ‘caboclo’ designava pessoas de ascendência mista indígena e europeia e aparecia na literatura como representação do herói nacional. Obras como ‘O Guarani’, de José de Alencar, reforçaram a figura romântica do indígena. Talvez por isso o caboclo tenha sido alçado ao posto de símbolo da luta pela Independência da Bahia.
O caboclo como guardião do dois de Julho
Presente no cortejo do Dois de Julho, o caboclo carregava significados de bravura, resistência e afirmação popular. Para muitos habitantes da capital, era ele o
personagem que melhor sintetizava a vitória de 1823 e a construção da identidade baiana.
A historiadora Wlamyra Ribeiro de Albuquerque, autora do estudo ‘Algazarra nas ruas’, analisa que esse protagonismo convivia com tensões próprias do início da República. É quando o poder público tenta reorganizar festividades cívicas e produzir novos símbolos capazes de dialogar com a ideia de modernidade e com os projetos políticos daquela época.
A ascensão do Senhor do Bonfim
Nesse cenário, o Senhor do Bonfim ganhava força social e religiosa. Embora já houvesse grande devoção na Cidade Baixa, com ex-votos e romarias, o santo passou a ser incorporado de modo crescente por setores urbanos e elites republicanas. Em algumas ocasiões, especialmente nas primeiras décadas do século vinte, houve tentativas de aproximar a imagem do Bonfim das celebrações cívicas, o que deslocava simbolicamente a figura do caboclo.
Essas movimentações revelam uma disputa silenciosa, travada nos cortejos, nas escolhas oficiais e na própria construção da memória pública. De um lado, o caboclo representava a bravura popular e a identidade mestiça exaltada pelo romantismo brasileiro. De outro, o Senhor do Bonfim emergia como expressão de fé e coesão social, capaz de unir diferentes grupos em torno de um mesmo símbolo.
Convivências e permanências
Hoje, caboclo e Bonfim coexistem como ícones da Bahia, cada qual com sua força e seu território simbólico. O caboclo segue como guardião do Dois de Julho, preservando a narrativa da Independência. Já o Senhor do Bonfim alcançou projeção internacional e consolidou-se como o principal símbolo religioso do estado. Relembrar essa convivência nem sempre pacífica ajuda a entender como culturas vivas são feitas de disputas, adaptações e ressignificações constantes.

Wlamyra Ribeiro de Albuquerque (Foto: Wikipedia)
A pesquisadora que ajudou a iluminar esse debate
Wlamyra Ribeiro de Albuquerque é historiadora e professora vinculada ao Departamento de História da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal da Bahia. Com mestrado pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), doutorado pela Unicamp e pós-doutorado em Harvard, é superintendente de relações internacionais da UFBA e integra o Comitê Assessor de História do CNPq. Já foi docente da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs), onde atuou no Departamento de Educação. Parte das análises apresentadas nesta matéria está desenvolvida em sua obra ‘Algazarra nas ruas’, publicada pela Editora da Unicamp em 1999.
Referência completa:
ALBUQUERQUE, Wlamyra Ribeiro de. ‘Algazarra nas ruas. Comemorações da Independência na Bahia (1889-1923)’. Campinas: Editora da Unicamp/Cecult, 1999, cap. 3, seção O Senhor do Bonfim contra os caboclos.
*Everaldo Goes, jornalista, editor do Feira Hoje, graduado em Licenciatura em História
19/11/25
@feirahoje→www.instagram.com/feirahoje




