A polêmica sobre o aniversário de Feira
Passada uma semana das comemorações pelos 192 anos, volta à tona a história da mudança que definiu 18 de setembro como Dia da Cidade, defendida pelo monsenhor Renato Galvão
Feira de Santana comemorou seus 192 anos de emancipação política no dia 18 de setembro de 2025, com programação que incluiu missa, visita ao Casarão dos Olhos d’Água, sessão solene na Câmara Municipal e entrega da Medalha de Honra ao Mérito. A cidade, conhecida como a Princesa do Sertão, reafirmou sua importância cultural, econômica e política na Bahia. O tema sempre rende reflexões, como lembrou em 2018 o jornalista e historiador Adilson Simas, já falecido, ao escrever sobre a mudança da data do aniversário de Feira.
Duas datas em disputa
Mas nem sempre a cidade festejou em setembro. Durante muito tempo, as celebrações aconteciam em 16 de junho, data da Lei Provincial nº 1.320, de 1873, que elevou a antiga Vila da Feira à categoria de cidade, chamada na época de Comercial Cidade de Feira de Santana. O centenário desse ato, em 1973, foi celebrado com grande destaque e essa tradição se manteve até o fim do século 20.
Diversos estudiosos, no entanto, defendiam outra data, ou seja, 18 de setembro de 1833, quando o presidente da Província da Bahia, Joaquim Pinheiro de Vasconcelos, criou oficialmente o Arraial de Feira de Santana, autorizado por decreto imperial.

Monsenhor Renato Galvão (acervo Memorial de Feira)
A voz de Renato Galvão
Entre os defensores da mudança estava o monsenhor Renato de Andrade Galvão, liderança religiosa e historiador respeitado. Em 1979, ao discursar na Câmara Municipal durante uma sessão solene de 16 de junho, ele sustentou que o marco verdadeiro era o 18 de setembro.
Seus argumentos se apoiavam em fatos, pois, já em 1873, quando saiu o decreto provincial, a Vila contava com Câmara Municipal, escolas em funcionamento, cadeia pública, autoridades constituídas e até um jornal em circulação, O Feirense. Para Galvão, a cidade já existia de fato. O 16 de junho teria apenas formalizado uma realidade existente.
A vitória de setembro
Somente no ano 2000, já após a morte de Galvão, sua tese foi reconhecida oficialmente. A Câmara Municipal aprovou a mudança, e o aniversário de Feira passou a ser celebrado em 18 de setembro.
A primeira festa com a nova data aconteceu em 2001, sob a gestão do prefeito José Ronaldo de Carvalho, que organizou ampla programação. Em 2005, o aniversário ganhou ainda mais destaque com a criação da Ordem Municipal do Mérito de Feira de Santana.
Desde então, a cidade reafirma sua história celebrando o marco de 1833, quando nasceu o Arraial que deu origem à atual Feira de Santana.
Legado de Renato Galvão
Monsenhor Renato de Andrade Galvão nasceu em 1918, em Brejões, e foi ordenado sacerdote em 1942. Atuou em várias paróquias do interior até assumir, em 1965, a função de cura da Catedral de Sant’Ana, onde permaneceu até sua morte em 25 de março de 1995. Foi promovido a monsenhor em 1967.
Teve uma breve participação na política ao ocupar o cargo de prefeito de Cícero Dantas.
Também teve papel importante na educação superior. Foi professor, primeiro vice-reitor da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs), além de conselheiro de instituições culturais e acadêmicas. Doou seu acervo pessoal à universidade, que hoje mantém a Biblioteca Setorial Monsenhor Renato de Andrade Galvão, no Museu Casa do Sertão. Reconhecido como pesquisador e liderança religiosa, deixou um legado de fé, cultura e memória que marcou a história da cidade.
Everaldo Goes / Feira Hoje
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27/09/25




