Artigo / Por Everaldo Goes 29 de dezembro de 2025

Pelé não jogou contra o Brasil

Neste 29 de dezembro, quando se completam três anos da morte de Pelé, o Feira Hoje republica na íntegra artigo escrito em janeiro de 2023 como memória, testemunho pessoal e reflexão histórica sobre o Rei do Futebol

Acompanhando as merecidas homenagens prestadas ao Rei do Futebol, Édson Arantes do Nascimento, o Pelé, tento lembrar algo que não foi falado, se é que isso é possível, pois os canais de comunicação mostram, incansavelmente, as mais belas recordações deste brasileiro, desde praticamente o seu nascimento até sua morte em 29 de dezembro de 2022. De qualquer forma, arriscarei a escrever, aqui, três fatos que me

Pelé não jogou contra o BrasilNeste 29 de dezembro, quando se completam três anos da morte de Pelé, o Feira Hoje republica na íntegra artigo escrito em janeiro de 2023 como memória, testemunho pessoal e reflexão histórica sobre o Rei do Futebol

Wikimedia Commons

lembro muito bem sobre o Rei, dois ocorridos em 1976, ano em que, aos 12 anos de idade já acompanhava, apaixonadamente, o futebol baiano e brasileiro, e o terceiro datado de 1980.

De início, devo dizer que me recordo muito bem de grandes campeonatos brasileiros e estaduais disputados a partir de 1974, além das Copas do Mundo. Naquele ano, aos dez anos, era aluno da então 4a série primária, na extinta Escola Cinderela, em Feira de Santana. A competente e dinâmica professora Georgina, aproveitando, com sabedoria, o entusiasmo dos alunos com a realização da Copa do Mundo da Alemanha, usou o evento como motivação para diversos trabalhos acadêmicos, envolvendo pesquisas sobre história dos países presentes na competição, localização geográfica, elaboração de redações, etc. Ela sabia que se tratava de uma geração que nasceu e cresceu em meio à euforia da parte de pais, parentes e outros adultos que viveram a conquista de três copas do mundo pela Seleção Brasileira, em 1958, 1962 e 1970. E Pelé era narrado, em prosa e verso, como o maior jogador de futebol de todos os tempos, o único a conquistar três campeonatos mundiais. E ai de quem falasse o contrário.

Não vi Pelé jogar, pessoalmente, num estádio de futebol. Eu estava no Joia da Princesa, em Feira de Santana, em 1975, quando ele acompanhou o Santos FC numa partida amistosa com o Fluminense de Feira. Ele se fez presente naquela tarde festiva, mas, não jogou. Naquele ano, já tinha assinado contrato com o New York Cosmos, um dos times criados para promover o futebol ‘soccer’ nos EUA.

Lembranças que marcaram

1. Um fato que nos fez aumentar ainda mais o orgulho por Pelé, como jogador de futebol, foi uma homenagem que os norte-americanos fizerem a ele em 1976. Numa reportagem de TV, foi informado que a foto de um gol de bicicleta virou selo dos serviços postais dos EUA. Pesquisando na internet, encontrei a informação que foi o gol foi o de número 1.255 do Rei, marcado na partida de número 1.313 da carreira, no jogo Cosmos 8 x 2 Miami Toros, no dia 10 de agosto de 1976.

Este gol, que na época foi chamado de “a bicicleta perfeita”, está disponível em diversos canais do YouTube:

Tentei, mas, não consegui, encontrar a imagem desse selo. No entanto, a pesquisa realizada esta semana na internet rendeu uma bela surpresa: são inúmeros os selos confeccionados ao longo dos anos, em diversos países, em homenagem a Pelé. Confira alguns aqui, no Google

Além de Pelé, o Cosmos tinha uma legião de supercraques contratados para promover o futebol nos EUA, como o alemão Franz Beckenbauer e o italiano, nascido em País de Gales, Giorgio Chinaglia, além do nosso capitão do tri, Carlos Alberto Torres.

2. Outra bela recordação foi poder gritar “gol de Pelé”, três anos depois da despedida oficial do futebol. Ele parou no dia 1º de outubro de 1977, vestindo a camisa do Cosmos no Giants Stadium, em New Jersey, em amistoso festivo contra o Santos, perante mais de 75 mil espectadores. Estiveram presentes nomes importantes como o então presidente americano Jimmy Carter, o secretário de Estado dos EUA Henry Kissinger e a lenda do boxe Muhammad Ali. O time norte-americano venceu o jogo por 2 a 1, com direito a um gol de falta de Pelé. E o público gritando “fica, Pelé”.

Como citado acima, o momento marcante, para mim, ocorreu três anos depois, em 1980. Pelé foi convidado para a festa de despedida de Beckenbauer. Mas, que Beckenbauer que nada! A festa parecia ter sido organizada para Pelé, que marcou um golaço que não me sai da memória. Ele foi apaixonadamente reverenciado pela torcida, desde o momento em que pisou no gramado. Lembro-me que, no outro dia, no colégio, não se falava outra coisa. Hoje, converso sobre este jogo com diversas pessoas, mas ninguém se lembra. Por sorte, pesquisando também na internet, consegui localizar um vídeo com alguns momentos do jogo. Não recordo o adversário, mas, tenho uma pequena lembrança que se tratava de um combinado de craques de diversos países, inclusive com o lateral-esquerdo Marinho Chagas, brasileiro considerado o melhor, na posição, na Copa do Mundo de 1974. Marinho também atuou no Cosmos.

No vídeo não é dito, mas, recordo que no gol de Pelé, ele tabela, na entrada da área, com o italiano Giorgio Chinaglia. O estádio, destinado ao futebol americano, neste jogo foi adaptado para o ‘soccer’:

3. Por fim, ainda com 12 anos, lembro-me que Pelé cumpriu a palavra quando disse aos desportistas norte-americanos que tanto o amavam: “Contra o Brasil, eu não jogo; sinto muito, mas, meu amor pelo Brasil é maior e não permite isso”. Isso se deu em 1976, durante o Torneio Bicentenário dos Estados Unidos, competição criada para fazer parte das comemorações do Bicentenário da Independência dos Estados Unidos, com a participação de quatro seleções.

Os EUA não atuaram com a seleção de jogadores natos. O ‘Team America’ foi uma equipe de estrelas da então Liga Norte-Americana de Futebol (North American Soccer League – NASL). Também participaram a Inglaterra e a Itália.

E os norte-americanos não protestaram com a recusa de Pelé, convocado para time dos EUA, de jogar contra o Brasil. Muito pelo contrário: ficaram orgulhosos pela posição diante do País de origem. E, para nós, brasileiros, seria estranho ver Pelé atuando contra superestrelas do tricampeonato de 1970, como Rivelino, Carlos Albertos Torres e outros. Nesse torneio, Pelé jogou, pelo Team America, contra a Itália e a Inglaterra.

Por estas e por outras, obrigado, Pelé!

Notas

I. O Torneio Bicentenário dos Estados Unidos, em 1976, foi um espetáculo, um desfile de craques e de grandes seleções. O Brasil se tornou campeão, com três vitórias. Foram elas:

23 de maio de 1976, no Los Angeles Memorial Coliseum (Los Angeles)
Brasil 1 x 0 Inglaterra
Gol: Roberto Dinamite, aos 44 min do segundo tempo.
Brasil: Leão (Palmeiras-SP), Orlando (América-RJ), Miguel (Fluminense-RJ), Beto Fuscão (Grêmio-RS) depois Amaral (Guarani-SP) e Marco Antônio (Vasco-RJ) depois Marinho Chagas (Botafogo-RJ); Falcão (Internacional-RS), Rivelino (Fluminense-RJ) e Zico (Flamengo-RJ), Gil (Fluminense-RJ), Neca (Grêmio-RS) depois Roberto Dinamite (Vasco-RJ) e Lula (Internacional-RS).
Técnico: Oswaldo Brandão
Público: 32.900

28 de maio de 1976, no Kingdome (Seattle)
Team America USA 0 x 2 Brasil
Brasil: Leão (Palmeiras), Orlando “Lelé” (América-RJ), Miguel (Fluminense), Beto Fuscão (Grêmio), Amaral (Guarani), Marinho Chagas (Botafogo), Getúlio (Atlético-MG), Falcão (Internacional), Givanildo (Santa Cruz), Zico (Flamengo), Rivellino (Fluminense), Gil (Fluminense), Roberto Dinamite (Vasco), Lula (Internacional).
Técnico: Oswaldo Brandão
Gols: Gil

31 de maio de 1976, no Yale Bowl (New Haven)
Brasil 4 x 1 Itália (uma repetição do placar da final da Copa do Mundo de 1970)
Brasil: Leão (Palmeiras-SP), Orlando (América-RJ) (depois Getúlio, do Atlético-MG), Miguel (Fluminense-RJ), Amaral (Guarani-SP) e Marco Antônio (Vasco-RJ) (depois Beto Fuscão, do Grêmio-RS); Falcão (Internacional-RS) (depois Givanildo, do Santa Cruz-PE), Rivellino (Fluminense-RJ) e Zico (Flamengo-RJ); Gil (Fluminense-RJ), Roberto Dinamite (Vasco-RJ) e Lula (Internacional-RS).
Técnico: Oswaldo Brandão
Gols: Gil 28 min e aos 48 min do primeiro tempo, Zico aos 31 min e Roberto Dinamite, aos 33 min do segundo tempo.
Para a Itália, Fabio Capello aos 2 min do primeiro tempo.
Público: 36.096
Gil foi o artilheiro da competição com quatro gols.

II. O Estádio Octávio Mangabeira, a Fonte Nova (Arena Itaipava) homenageou Pelé com uma estátua inaugurada em 1971, que fica na na Ladeira da Fonte das Pedras. O obra, de autoria da artista plástica Lucy Viana, foi restaurada Fundação Gregório de Matos (FGM) após a reconstrução do estádio para a Copa do Mundo de 2014.

III. O bairro Cidade Nova, em Feira de Santana, possui uma via denominada “Rua Pelé”. As ruas do bairro, que teve a primeira etapa de construção concluída em 1969, são denominadas com os nomes dos jogadores e da comissão técnica da Seleção Brasileira tricampeã mundial de futebol de 1970.

IV. Esta posição de Pelé, de não jogar contra o Brasil, me fez lembrar de um outro brasileiro, Waldir Pereira, o Didi, bicampeão do mundo pela Seleção Brasileira (1958 e 1962). Tinha assistido, no Cine Íris, em Feira de Santana, a um filme sobre a Copa do Mundo de 1970. Didi foi o treinador da Seleção do Peru, que jogou as quartas-de-final contra o Brasil, perdendo por 4 a 2. Que sofrimento, o de Didi, não pela derrota, mas, por ter que jogar contra o seu país natal. As imagens mostravam Didi encolhido, muitas vezes sem reação, até mesmo quando o Peru fez os gols. Mas, não deixou de cumprir a sua obrigação profissional como treinador.

Didi foi eleito pela Fifa o melhor jogador da Copa do Mundo da Suécia, em 1958.

V. A propósito, tinha certeza que a CBF e o Governo Brasileiro organizariam um grande torneio para celebrar o Bicentenário da Independência do Brasil completados em 2022. E, como retribuição histórica, convidariam as mesmas equipes que disputaram o Bicentenário dos EUA. Ou, quem sabe, Portugal e Argentina. Mas, que nada…

* Everaldo Goes é jornalista e graduado em Licenciatura em História.

Publicado originalmente em 03/01/2023

Republicado em 29/12/25

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