Artigo / Agenor Sampaio Neto 10 de novembro de 2025

O centenário de Euclides Neto: um homem à frente do seu tempo

No centenário de nascimento de Euclides Neto, o Feira Hoje tem a honra de publicar um texto inédito do professor Agenor Sampaio Neto, da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs). Filho de Ipiaú como o homenageado, Agenor traz uma leitura afetuosa e lúcida sobre a trajetória do escritor, advogado e político que marcou a literatura e a história social da Bahia com sua visão humanista e vanguardista.

Mais do que uma biografia, o texto é uma celebração da sabedoria e da coragem de Euclides Neto — um homem que viveu à frente do seu tempo e acreditou na força transformadora do povo. Um convite à memória, à reflexão e ao orgulho de uma Bahia que pensa e sente o seu interior

 

Com a palavra, o professor Agenor Sampaio Neto*

 

“Euclides sempre teve olhos para os mais simples. Sempre foi amigo dos humilhados e ofendidos, e sempre quis retirá-los dessa condição, porque conhecia a força e a generosidade deles. Diria ter sido ele um misto de Gandhi, Tolstói, Gramsci e Marx, com tudo o que significaram para a humanidade, diferentes e complementares entre si. O pacifismo determinado de
Gandhi, o amor pelos pobres de Tolstói, a construção das trincheiras da transformação revolucionária de Gramsci, o olhar nunca superado de Marx sobre o capitalismo.”
(Emiliano José, 2014)

Neste 11 de novembro de 2025, comemoramos o centenário do escritor, advogado, agricultor e político baiano Euclides José Teixeira Neto.

Dr. Euclides, como era conhecido, ou Dr. Ôcride, como o chamava o povo de Ipiaú, foi descrito por Emiliano José, ao prefaciar um de seus livros, como pertencente à “estirpe dos sábios e ainda um erudito que dispensa erudição”.

O centenário de Euclides Neto: um homem à frente do seu tempo No centenário de nascimento de Euclides Neto, o Feira Hoje tem a honra de publicar um texto inédito do professor Agenor Sampaio Neto, da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs). Filho de Ipiaú como o homenageado, Agenor traz uma leitura afetuosa e lúcida sobre a trajetória do escritor, advogado e político que marcou a literatura e a história social da Bahia com sua visão humanista e vanguardista.

Euclides Neto

Entre 1946 e 2000, escreveu 14 livros, iniciando com Porque o homem não veio do mercado e encerrando com O tempo é chegado, publicado postumamente em 2001, após seu falecimento em 5 de abril de 2000. Obras como Os magros, 64: Um Prefeito, a Revolução e os Jumentos e Machombongo se destacam em sua produção literária. Sobre sua escrita, o Nobel da Literatura José Saramago afirmou: “Se sei o que é escrever, Euclides Neto é bom escritor.” Seu estilo regionalista é peculiar e, apesar da erudição, simples e coloquial, como no clássico Dicionareco das roças de cacau e arredores.

Toda a coleção dos 14 livros de Dr. Euclides foi relançada pela Edufba, possibilitando que novas gerações conheçam esse gênio da literatura regional. Como leitor há mais de 30 anos, vejo sua obra como regionalista, mas, sobretudo, universal. Embora centrada nos conflitos agrários da região cacaueira, ela reflete preocupações universais com o drama humano e a exploração do homem pelo homem.O centenário de Euclides Neto: um homem à frente do seu tempo No centenário de nascimento de Euclides Neto, o Feira Hoje tem a honra de publicar um texto inédito do professor Agenor Sampaio Neto, da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs). Filho de Ipiaú como o homenageado, Agenor traz uma leitura afetuosa e lúcida sobre a trajetória do escritor, advogado e político que marcou a literatura e a história social da Bahia com sua visão humanista e vanguardista.

O professor ipiauense Albione Souza Silva, que apresentou em 2019 a dissertação Os despossuídos da terra: conflitos sociais no campo e representações dos trabalhadores rurais na produção intelectual de Euclides Neto (1946–1996), e que considero seu biógrafo, afirma com lucidez: “Na literatura euclidiana não há exaltação aos ditos ‘vitoriosos desbravadores’, que colonizaram as matas, tornaram-se donos do fruto do ouro e ostentavam a riqueza como troféu. Suas tramas seguem um caminho inverso: o fazendeiro é o coadjuvante, à sombra do trabalhador. Assim, entram em cena os subalternos despossuídos da terra, anônimos, esquálidos, vivendo nos ranchos de taipas cobertos de indaiás, em meio aos venerados cacauais.”

Dr. Euclides era compadre de meu avô Agenor Sampaio (de quem herdo o nome) e amigo do meu outro avô, Antônio Santos. Devido a essa proximidade, tive na adolescência, em minha Ipiaú, a feliz oportunidade de visitar sua casa, onde passávamos tardes conversando sobre literatura, direito, política, filosofia e socialismo, um de seus temas preferidos. Aquelas tardes foram um intenso aprendizado e, mais tarde, compreendi que estava diante de um sábio, uma espécie de preceptor. Se pudesse, voltaria no tempo para reviver aquelas conversas vespertinas prazerosas.

Eleito prefeito de Ipiaú em 1962, realizou, com grande resistência, a primeira experiência socialista de distribuição de terra e trabalho. Na chamada “Fazenda do Povo”, assentou dezenas de famílias de indigentes, desempregados e desiludidos em uma área de 167 hectares. Homens, mulheres e crianças passaram a produzir sua subsistência e, sobretudo, sua dignidade.

O centenário de Euclides Neto: um homem à frente do seu tempo No centenário de nascimento de Euclides Neto, o Feira Hoje tem a honra de publicar um texto inédito do professor Agenor Sampaio Neto, da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs). Filho de Ipiaú como o homenageado, Agenor traz uma leitura afetuosa e lúcida sobre a trajetória do escritor, advogado e político que marcou a literatura e a história social da Bahia com sua visão humanista e vanguardista.

Professor Doutor Agenor Sampaio Netoo

Sobre essa iniciativa, ele afirmava que “nasceu da vontade de fazer uma experiência socialista, sem ficar somente na proveta do laboratório de sociologia e política”. Ainda hoje, muitas daquelas famílias sobrevivem dignamente em função dessa experiência bem-sucedida. A Fazenda do Povo continua gerando emprego para os netos dos primeiros agricultores que ali se estabeleceram.

Durante o golpe militar de 1964, Dr. Euclides foi processado e punido por essa experiência. O Inquérito Policial Militar (IPM) durou de abril de 1964 a dezembro de 1965. O último depoimento ocorreu em Salvador. Sua cassação não foi efetivada graças ao apoio unânime da Câmara de Vereadores, inclusive de opositores. Mesmo assim, foi constantemente vigiado até o fim do mandato, em abril de 1967.

Mesmo sob investigação, Euclides Neto buscou estruturar Ipiaú como um polo regional, explorando suas condições geográficas e econômicas: eixo rodoviário relevante, bancos, casas exportadoras de cacau, campo de pouso e vocação agrícola. Por essa gestão de vanguarda, Ipiaú recebeu o título de Município Modelo da Bahia.

O centenário de Euclides Neto: um homem à frente do seu tempo No centenário de nascimento de Euclides Neto, o Feira Hoje tem a honra de publicar um texto inédito do professor Agenor Sampaio Neto, da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs). Filho de Ipiaú como o homenageado, Agenor traz uma leitura afetuosa e lúcida sobre a trajetória do escritor, advogado e político que marcou a literatura e a história social da Bahia com sua visão humanista e vanguardista.Em 1987, após a vitória de Waldir Pires para o governo da Bahia, Dr. Euclides, seu antigo colega de faculdade na UFBA, foi convidado a assumir a Secretaria de Reforma Agrária – a primeira do Brasil. Sobre o convite, afirmou: “Ao receber o convite do governador Waldir Pires para dirigir a primeira Secretaria de Reforma Agrária do Brasil, não podia recusar. Relutei, mas a consciência me cobrava. Tantos anos lutando por isso e, agora, por comodidade, indiferença, preguiça, egoísmo, não queria enfrentar o desafio. O nome da Secretaria: Assuntos Fundiários ou Reforma Agrária? Opinei pelo segundo. Precisava logo desmistificar a expressão pornográfica.”

Seu desempenho à frente da pasta o levou a ser cogitado como candidato ao governo da Bahia nas eleições de 1990, por uma coligação denominada Frente Brasil Popular. Divergências políticas, contudo, impediram a candidatura. Em 1991, foi homenageado pela Câmara Municipal de Salvador com o título de cidadão soteropolitano.

O centenário de Euclides Neto: um homem à frente do seu tempo No centenário de nascimento de Euclides Neto, o Feira Hoje tem a honra de publicar um texto inédito do professor Agenor Sampaio Neto, da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs). Filho de Ipiaú como o homenageado, Agenor traz uma leitura afetuosa e lúcida sobre a trajetória do escritor, advogado e político que marcou a literatura e a história social da Bahia com sua visão humanista e vanguardista.

Concluo este modesto escrito em homenagem ao centenário de Dr. Euclides afirmando que ele foi, acima de tudo, um homem à frente do seu tempo: um sábio que escolheu caminhar ao lado do povo e dos excluídos do sistema. Sobre ele, afirmou, profeticamente, Emiliano José, ao prefaciar em 2014 a segunda edição de 64: Um Prefeito, a Revolução e os Jumentos:

“As sementes de sabedoria, ele as espalhou ao longo da existência, cotidianamente, sem nenhuma pretensão professoral, com uma impressionante humildade que nunca lhe retirou a também impressionante autoridade. Amou sua aldeia
profundamente. E foi a partir dela, da sua Ipiaú, que deixou lições universais, para nunca mais serem esquecidas.”

*Agenor Sampaio Neto
Professor do Curso de Direito da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS)
Doutor em Família na Sociedade Contemporânea (UCSAL)
Ipiauense (1974)
[email protected]

Feira Hoje, 10/11/25

@feirahoje→www.instagram.com/feirahoje

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