Não seja um acumulador
Entre o apego e o excesso, o peso silencioso dos objetos que carregamos para o próximo ano
Não é raro que reportagens chamem nossa atenção para casos extremos de pessoas que acumulam objetos em casa. Imagens impressionam: cômodos tomados por entulho, móveis inutilizados, sacos de lixo empilhados, caminhões sendo carregados por equipes da limpeza pública. Em geral, esses casos envolvem sofrimento psíquico, isolamento e a necessidade de
acompanhamento familiar e do poder público.
Mas, ao observar essas cenas com espanto, talvez seja honesto fazer uma pausa e perguntar: será que cada um de nós não carrega, em menor escala, um pouco desse mesmo comportamento?
Tenho um amigo bem-sucedido, com vida profissional estável e família estruturada. Durante uma visita, o filho resolveu circular pela casa com um olhar mais atento. Depois, veio a constatação desconcertante: dois colchões mofados guardados sem uso, caixas de papelão cheias de papéis sem qualquer serventia, objetos esquecidos que já não cumpriam função alguma. Nada disso era percebido no dia a dia. Estava ali, silencioso, ocupando espaço.
É importante fazer distinções. Há objetos que devem, sim, ser preservados. Exemplos disso são documentos pessoais, registros bancários, contratos, fotos, joias de família, relógios herdados, pequenas memórias que carregam afeto e história. Descartar tudo indiscriminadamente não é solução. O problema começa quando o que fica não tem valor prático, financeiro ou sentimental — apenas ocupa lugar.
Do ponto de vista da saúde e do bem-estar, o acúmulo excessivo traz consequências concretas. Móveis sem uso acumulam poeira, favorecem crises respiratórias e alergias. Ambientes abafados e abarrotados facilitam a proliferação de baratas, formigas, traças e outros insetos. Caixas guardadas por anos se tornam esconderijos ideais para mofo e umidade. Aos poucos, a casa deixa de ser abrigo e passa a ser obstáculo.
Viradas de ano costumam vir acompanhadas de promessas grandiosas. Talvez valha começar por algo mais simples e profundamente transformador, como abrir armários, revisitar gavetas, perguntar a cada objeto se ele ainda tem lugar na nossa vida. O que não serve mais pode ser doado, reciclado ou descartado de forma correta. O espaço que se abre fora quase sempre produz alívio por dentro.
Não se trata de rotular ninguém como acumulador, nem de minimizar quadros graves que exigem cuidado especializado. Trata-se de reconhecer que a desordem também pode ser silenciosa, discreta e socialmente aceita. E que, muitas vezes, ela reflete medos, apegos e adiamentos que atravessam os anos.
Que tal, nesta virada, levar para o próximo ano menos peso, menos excesso e mais espaço? Às vezes, organizar a casa é só uma forma prática de começar a organizar a vida.
*Adalberto Nunes é professor aposentado e colaborador do Feira Hoje
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31/12/25




