Prefeito de Feira de Santana e governador da Bahia: a aproximação política à luz dos investimentos chineses
Em um momento histórico de reconfiguração global e de novos fluxos de investimento, a aproximação entre o prefeito de Feira de Santana, José Ronaldo de Carvalho (União Brasil), e o governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues (PT), tem despertado atenção e comentários na cidade.
Para alguns, trata-se de um gesto improvável entre adversários políticos. Para outros, um movimento de maturidade e pragmatismo diante de uma realidade que exige cooperação. A verdade é que o mundo mudou — e a Bahia, assim como o Nordeste, está no radar de potências econômicas como a China. Essa nova conjuntura ajuda a entender por que a convergência política local faz mais sentido do que o distanciamento partidário.
O pano de fundo econômico
Nos últimos anos, a China se tornou o principal parceiro comercial do Brasil e ampliou fortemente seus investimentos em território nacional. Somente em 2024, o volume de investimento direto chinês no
país dobrou, alcançando cerca de US$ 4,18 bilhões, com foco em energia, infraestrutura e indústria verde.

Secretário Ângelo Almeida promoveu encontro entre representantes da BYD e o prefeito José Ronaldo
Na Bahia, o exemplo mais expressivo é a BYD, gigante do setor de veículos elétricos, que instalou em Camaçari seu principal polo de produção na América Latina. O movimento chinês não se limita às grandes capitais. Ele busca territórios com potencial logístico e produtivo — e Feira de Santana reúne todas as condições para se inserir nesse circuito: localização estratégica, rede viária ampla e tradição empreendedora.
Política como instrumento, não obstáculo
Durante décadas, o desenvolvimento regional foi refém de rivalidades partidárias. Prefeitos e governadores, muitas vezes de campos opostos, desperdiçaram oportunidades por motivos ideológicos. A atual aproximação, portanto, representa um gesto de inteligência política — não de rendição.
Como lembraria o historiador Edward Palmer Thompson, a história das sociedades não se faz apenas de confrontos, mas também de negociações. E é exatamente isso que o momento pede: diálogo em torno de um projeto comum de desenvolvimento.
Feira de Santana pode — e deve — ser protagonista dessa nova etapa. Para isso, precisa deixar para trás o velho hábito de tratar a política como trincheira e passar a enxergá-la como ferramenta de construção.
Resistências e preconceitos
Nem todos, porém, compartilham dessa visão. Recentemente, um vereador chegou a declarar na Câmara Municipal que era contrário à aproximação “porque os chineses não são cristãos”. A fala, absurda, revela como parte do pensamento conservador local ainda confunde fé com economia e religião com estratégia de desenvolvimento.
Não se trata de abandonar valores, mas de compreender que o diálogo com outras culturas é essencial para o progresso. Em um mundo globalizado, o fechamento de portas custa caro. Rejeitar parcerias por dogmas culturais é condenar a cidade à irrelevância.
O que está em jogo
A Bahia vive um momento singular. Além da BYD, empresas chinesas têm olhado para o estado em áreas como energia solar, eólica, biotecnologia e infraestrutura. Feira de Santana, por sua vez, pode tornar-se um polo complementar — fornecedora de peças, prestadora de serviços e centro logístico para essa nova cadeia produtiva.
Mas para que isso aconteça, será preciso algo mais que discursos: qualificação de mão de obra, transparência nas negociações e contrapartidas sociais que garantam emprego e renda.
| Setor | O que a China busca | Significado para a Bahia / Nordeste |
|---|---|---|
| Energia e infraestrutura | Participação em redes elétricas, hidrelétricas e renováveis. | A Bahia tem potencial eólico e solar; pode gerar emprego e renda local. |
| Indústria automotiva / veículos elétricos | Instalação de fábricas e centros logísticos, como a BYD em Camaçari. | Feira de Santana pode se tornar polo de fornecedores e serviços. |
| Recursos naturais e agronegócio | Importação de soja, carne e minérios. | O interior baiano pode agregar valor e exportar produtos beneficiados. |
| Tecnologia e serviços | Expansão para setores digitais e de inovação. | Feira pode mirar startups e economia criativa. |
Um editorial sobre maturidade
A aproximação entre José Ronaldo e Jerônimo não é sinal de fraqueza, mas de maturidade política. Num tempo em que o Brasil tenta se recolocar no mapa do desenvolvimento, as cidades que souberem negociar, abrir portas e pensar estrategicamente sairão na frente.
Feira de Santana pode ser uma delas — se aprender que o verdadeiro progresso começa quando a política deixa de dividir para começar a somar.
Everaldo Goes / Editor do Feira Hoje
@feirahoje→www.instagram.com/feirahoje
26/10/25




