Artigo / Por Everaldo Goes 6 de fevereiro de 2026

O interesse é econômico; nas urnas José Ronaldo deve permanecer no grupo de origem

A aproximação institucional com Jerônimo Rodrigues faz parte da disputa por investimentos, mas o prefeito tende a manter fidelidade ao campo político liderado por ACM Neto

A repercussão sobre qual posição o prefeito José Ronaldo de Carvalho adotará nas eleições de 2026, se permanecerá no campo histórico da oposição liderada por ACM Neto ou se poderá apoiar o governador Jerônimo Rodrigues, tem sido amplificada nos bastidores políticos da Bahia. Em Feira de Santana, o assunto ganhou ares de “grande enigma” e passou a ser tratado como se cada reunião institucional fosse, necessariamente, um anúncio de adesão partidária.

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Ocorre que a política real, aquela que move investimentos e decisões estratégicas, funciona em outra lógica. Em tempos de reconfiguração global, com o Brasil novamente inserido em fluxos internacionais de capital e infraestrutura, o diálogo entre prefeitos e governadores deixou de ser um gesto de cortesia e passou a ser um requisito mínimo de governabilidade. Feira de Santana, pela sua posição geográfica e relevância econômica, não pode se dar ao luxo de ficar isolada em disputas ideológicas.

O investidor quer números, estrutura e capacidade de execução

A Bahia vive um momento raro de visibilidade econômica, especialmente com a entrada de capitais chineses em setores estratégicos. O exemplo mais evidente é a BYD, instalada em Camaçari, mas há um movimento maior em curso, envolvendo ferrovias, energia, logística, indústria verde e grandes obras estruturantes, como a ponte Salvador-Itaparica e a ampliação de eixos de transporte para o interior. Trata-se de um novo ciclo que reposiciona o estado no mapa do desenvolvimento nacional.

Nesse ambiente, a pergunta central não é se o prefeito é aliado de um partido ou de outro. O investidor estrangeiro quer saber o que a cidade tem a oferecer. Qual é o nível de escolaridade da população, qual é a capacidade de formação técnica, como funciona o transporte público para levar trabalhadores às unidades industriais, se o trânsito é fluido ou travado, se a cidade tem segurança jurídica e institucional, se existem áreas disponíveis, zoneamento adequado e agilidade administrativa.

Feira de Santana está dentro desse processo não por ideologia, mas por geografia e vocação econômica. É o principal entroncamento rodoviário do interior nordestino, tem tradição comercial e um potencial logístico que a coloca como peça natural em qualquer estratégia de expansão industrial. Por isso, é natural que José Ronaldo dialogue com o governo estadual em busca de obras e investimentos, independentemente de divergências partidárias.

Conversar com o governo é obrigação administrativa, não sinal de mudança eleitoral

A leitura mais realista é que as conversas com Jerônimo Rodrigues e lideranças do PT fazem parte de um jogo administrativo, de atração de recursos e de reposicionamento institucional de Feira. E, nesse ponto, a cidade tem muito a ganhar. O prefeito não pode se comportar como se Feira fosse um território fechado, incapaz de negociar com o governo estadual apenas porque os campos políticos são diferentes.

No entanto, transformar esse diálogo em sinal automático de apoio eleitoral é uma interpretação apressada. A política baiana tem memória. José Ronaldo tem uma trajetória consolidada, construída dentro de um campo político específico, com alianças históricas e com uma base eleitoral fortemente vinculada a esse grupo. A lógica das urnas é diferente da lógica dos gabinetes.

O que se desenha, portanto, é um cenário mais racional do que teatral. José Ronaldo deve continuar negociando investimentos com o governo do estado, porque Feira precisa disso e porque a Bahia está no radar econômico internacional. Mas, no momento decisivo, quando o palanque for montado e a disputa se tornar explícita, a tendência é que ele permaneça no grupo de origem, onde estão sua história, seus aliados e sua identidade política.

Afinal, maturidade institucional não é troca de lado. É entender que desenvolvimento não espera eleição.

Everaldo Goes / Feira Hoje 

08/02/26

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