Cultura 18 de fevereiro de 2026

Ilê Aiyê, o grito negro que mudou o Carnaval de Salvador

Criado no Curuzu em 1974, o primeiro bloco afro do Brasil enfrentou repressão e preconceito, mas se transformou em símbolo de orgulho, identidade e resistência cultural

Ilê Aiyê, o grito negro que mudou o Carnaval de Salvador Criado no Curuzu em 1974, o primeiro bloco afro do Brasil enfrentou repressão e preconceito, mas se transformou em símbolo de orgulho, identidade e resistência cultural

Fotos: Ascom / Secult-BA

O Ilê Aiyê não é apenas um bloco carnavalesco. É um marco histórico. Surgido no bairro do Curuzu, na Liberdade, em Salvador, o Ilê nasceu como afirmação direta de um povo que, mesmo sendo maioria na cidade, por muito tempo foi empurrado para as margens da festa e da própria história. Quando o Ilê entra na avenida, não é só música. É uma declaração pública de identidade, beleza e pertencimento negro.

Fundado oficialmente em 1º de novembro de 1974, o Ilê Aiyê foi criado por Antônio Carlos dos Santos, o Vovô do Ilê, e Apolônio de Jesus, em um tempo em que blocos tradicionais ainda reproduziam exclusões raciais e sociais. A proposta era clara e revolucionária. Construir um espaço onde o povo negro fosse protagonista, não figurante, e onde a cultura africana fosse celebrada com orgulho, não escondida por conveniência.

O mundo negro canta

A primeira saída do bloco, em 1975, provocou espanto e resistência. Um bloco formado apenas por pessoas negras foi tratado como afronta por setores conservadores, e houve quem tentasse transformar o Ilê em polêmica, chamando-o injustamente de segregacionista. A verdade é que o Ilê apenas expôs o que sempre existiu no Brasil. A exclusão travestida de normalidade. Ao se afirmar negro, o bloco desafiou Salvador a encarar suas contradições.

O canto que marcou aquela estreia virou símbolo permanente. A música ‘Que bloco é esse?’, de Paulinho Camafeu, tornou-se um hino do Ilê e do movimento negro brasileiro. O refrão atravessou gerações como uma resposta direta ao preconceito, como se dissesse que ali estava um povo inteiro reaprendendo a se enxergar e a se valorizar. O Ilê não pedia licença. Ele anunciava sua existência.

Repressão e coragem

No início, o bloco enfrentou repressão e hostilidade. A presença do Ilê Aiyê incomodava porque rompia a lógica de um Carnaval onde a estética negra era aceita apenas como adereço, não como centro. Mas foi justamente nesse enfrentamento que o Ilê Aiyê, o grito negro que mudou o Carnaval de Salvador Criado no Curuzu em 1974, o primeiro bloco afro do Brasil enfrentou repressão e preconceito, mas se transformou em símbolo de orgulho, identidade e resistência culturalIlê cresceu. A cada desfile, o Curuzu se transformava em território simbólico, e a Liberdade deixava de ser apenas bairro para virar conceito, identidade e trincheira cultural.

Outra música que se tornou marca do bloco é ‘Depois que o Ilê passar’, composta por Jesus de Milton, o Miltão, e eternizada na voz de Caetano Veloso. O verso cantado pelo povo, “Quero ver você, Ilê Aiyê, passar por aqui…”, virou mais do que refrão. Virou anúncio coletivo de presença. Virou afirmação de que, depois do Ilê, nada permanece igual.

No Centro em 2026

No Carnaval de 2026, o Ilê reafirmou sua força desfilando duas vezes no Circuito Osmar, no Centro de Salvador. A tradicional saída aconteceu no sábado, dia 14, mantendo o ritual que arrasta multidões e emociona gerações. E, nessa segunda-feira, dia 16, o bloco voltou a ocupar o coração da cidade, ampliando sua presença e reafirmando que o Ilê segue sendo um dos grandes símbolos da festa e da identidade afro-baiana.

Hoje, o Ilê Aiyê é um dos maiores símbolos culturais do Brasil. Sua força ultrapassa o Carnaval e alcança educação, arte, religiosidade e consciência histórica. Com raízes ligadas ao Candomblé e à liderança espiritual de figuras como Mãe Hilda Jitolu, o bloco se consolidou como instituição que forma gerações, fortalece autoestima e protege memória. É por isso que tantosIlê Aiyê, o grito negro que mudou o Carnaval de Salvador Criado no Curuzu em 1974, o primeiro bloco afro do Brasil enfrentou repressão e preconceito, mas se transformou em símbolo de orgulho, identidade e resistência cultural artistas, autoridades e admiradores fazem questão de estar por perto. Não é apenas prestígio. É reconhecimento.

O Ilê Aiyê representa Salvador em sua dimensão mais profunda. Uma cidade que é referência afrodescendente no mundo, e que carrega no corpo e na cultura as marcas da diáspora africana. O Ilê não é apenas parte dessa história. Ele é uma das razões pelas quais essa história se mantém viva. E quando o povo canta que quer ver o Ilê passar, não é só Carnaval. É a certeza de que a resistência continua desfilando.

Everaldo Goes / Feira Hoje 

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@feirahoje

18/02/26

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