Artigo / Por Humberto de Oliveira 5 de outubro de 2025

Elogio aos mestres e mestras que assumem seu protagonismo na sala de aula

Neste novo artigo, o professor Humberto Luiz Lima de Oliveira traz uma reflexão sensível e contundente sobre a força do magistério. Entre elogios e provocações, ele destaca a importância de reconhecer o protagonismo de mestres e mestras que, com dedicação e amor, moldam trajetórias e constroem caminhos de esperança

Elogio aos mestres e mestras que assumem seu protagonismo na sala de aula

Pode haver honestidade no pensamento ingênuo (Jacques Bouveresse)

A cada resultado do ENEM patenteia-se uma certeza quase indiscutível: vem das escolas públicas os melhores resultados, sobretudo na área de Linguagens e, em redação, mais precisamente.

Claro que é inegável a dedicação, a disciplina e o esforço que fizeram garotos e garotas, e que por isso merecem todo o reconhecimento. Que seus nomes e rostos sejam tornados públicos, tornem-se célebres, pois se tornam modelos, assim como seus professores e professoras, sem os quais estas realizações não teriam sido possíveis, apesar do pouco destaque que lhes é conferido.

De fato, talvez que nenhuma outra profissão tenha merecido tanta propaganda negativa quanto a do professor, graças ao que me parece uma peripécia no sentido aristotélico do termo : ao pressionar governos a pagar salários dignos, foi necessário mostrar ao público a vida franciscana de homens e mulheres que tinham a tão nobre missão de ensinar às novas gerações e, assim, com a força das palavras, o mantra “o professor é desvalorizado”, foi criado e congelou-se, através dos tempos, a figura estereotipada do “coitado”, da “coitada”.

Mas, visto como coitadinhos e coitadinhas, numa sociedade competitiva e que supervaloriza o sucesso financeiro, não é sem desconforto que os estudantes tentam admirar estas figuras aparentemente “fracassadas”, mas tão importantes em suas vidas.

Não deixo de sorrir, contente, quando passo perto das escolas públicas e vejo os pátios com carros novos e caros estacionados. E mais feliz fico quando vejo ex egressos dos cursos de licenciatura, com pós-graduação, percebendo salários acima da média da massa salarial vigente e, o que é mais importante : podendo morar bem e arcar com despesas de educação dos próprios filhos.

Pouco a pouco, este esterótipo negativo vai sendo desconstruindo para dar lugar a uma verdade insofismável: a grandeza de uma profissão essencial ao desenvolvimento humano e social. Claro que, somente quem compreende a real dimensão da função de quem ensina é que será capaz de exercer plenamente o exercício do magistério, ou seja, interceder pelo destino de quem, criança ou adolescente, vive na ignorância da potência do seu destino.

O (a) professor(a) sabe que nos rostos aparentemente indiferentes, ou alheios, desdenhosos, ou barulhentos, esconde-se um futuro que começa a ser moldado pela educação, no chão da sala de aula. Como um garimpeiro que intui o valor da pedra escondida sob a poeira da gruta, ou sob a lama do rio, ou como o ourives que forja a joia no metal bruto, o bom professor antevê na face do estudante o futuro em germe que deverá ser delineado com a força da palavra.

Realizar a alquimia de dar forma ao destino apenas esboçado é, antes de tudo, um projeto de vida, uma militância que exige do professor/da professora um comprometimento só possível com a capacidade de amar. Amar, primeiro a si mesmo, e por se amar, estender o amor ao próximo e ao próprio trabalho.

Somente quando o /a professor(a) consegue romper o feitiço do desencanto do mundo, quando sacode a desesperança nas mentes e corações da juventude, quando consegue avivar a brasa do animus sob as camadas de desencanto e de desânimo é que se realiza a possibilidade de se criar laços de solidariedade e de pertencimento, condições para uma vivência na sala de aula como Comunidade: cada participante sabe o porquê deve participar, quais condições e objetivos e quais os resultados possíveis a serem atingidos. Pois a educação contemporânea exige, previamente, que assim sejam constituídos os laços necessários para que haja uma verdadeira escuta de quem pretende ensinar.

Nunca é demais lembrar que a educação tradicional que resiste às mudanças contemporâneas não mais funciona. Se as gerações passadas, até meados do século XX, estavam sendo preparadas para o mundo do trabalho, o mundo atual nos mostra o desemprego em massa nas sociedades ocidentais ou em vias de se ocidentalizar, e contingentes de jovens se vêem ameaçados de desemprego ou acreditando que, formados, irão se deparar com a incerteza e o desamparo do viver.

Professor que se preza é capaz de desconstruir o negacionismo que uma mentalidade carregada de ressentimento quer espalhar, pois saberá ser capaz de evidenciar as vantagens da aquisição de conhecimentos formais tanto na formação de capital cultural que traz vantagens na concorrência no mercado de trabalho, quanto, por estudar e por ler, o aprendente poderá melhor fazer a resiliência diante das adversidades, pois terá aprendido que não se pode negar a presença do inesperado na vida humana. Observe-se que é o conhecimento advindo do estudo que poderá criar a fé na vida, dotando cada indivíduo da crença na possibilidade de uma nova ordem na aparente desordem do caos.

Quando o professorado desenvolve a capacidade de ser escutado, é inegável que a juventude, em sua grande maioria, desperta do torpor da distração, aprende a aceitar a negociar e conciliar interesses e consegue sair da zona de conforto onde está sendo colocada pelo enfeitiçamento do desencanto do mundo, ou melhor escuta a voz que clama: “Não foste formado para viver como os brutos, mas para seguir a virtude e conhecimento”, como nos lembra o poeta Dante Alighieri. Quando isso acontece, a maldição da produção da pobreza começa a ser dissolvida e o olhar novo do aprendente consegue enxergar com clareza apesar da densa bruma que o cerca em sua subalternidade.

Mas, esta voz capaz de convocar as mentes e corações de jovens para criarem as condições de libertação dos grilhões da ignorância, não é uma voz qualquer: é aquela capaz de provocar ecos e quebrar o enfeitiçamento do desencanto do mundo: a voz potente de quem sabe que deve assumir seu protagonismo e, ao fazê-lo, dá início ao processo revolucionário de libertar a humanidade da escravidão do feitiço da falta de esperança. Por isso, nossos elogios que, como nos lembra Merleau-Ponty, é bênção do louvor e bendizer aos professores e professoras que se enxergam como intercessores e realizam sua missão com esperança.

Humberto Luiz Lima de Oliveira, professor aposentado, membro honorário da Academia Metropolitana de Letras e Artes, membro efetivo das Academia Feirense de Letras, Academia Brasileira de Artes Integradas, Academia de Cultura da Bahia, Academia internacional de Literatura Brasileira, Secretário do Conselho Municipal de Cultura de Feira de Santana, é também colunista do Jornal Feira Hoje.

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05/10/25

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