Artigo / Por Humberto de Oliveira 19 de junho de 2025

Exorcizando o feitiço da estereotipia negativa: por uma nova gramática para o Sertão

Neste artigo, o professor Humberto Luiz Lima de Oliveira propõe uma instigante reflexão sobre a identidade sertaneja, desafiando os estereótipos que historicamente moldaram o imaginário coletivo sobre o Sertão. A partir de sua vivência pessoal e de uma abordagem transdisciplinar, o autor questiona o enfeitiçamento simbólico que transformou o sertanejo em sinônimo de atraso, sofrimento e limitação, defendendo uma leitura mais ampla, complexa e humanizada.

Com olhar sensível e erudito, o professor nos convida a repensar o Sertão não como um lugar imóvel no tempo e no espaço, mas como território simbólico que dialoga com outros mundos, outras culturas e outras paisagens. Um texto que mistura memória, literatura, sociologia e filosofia para iluminar o que há de universal na experiência sertaneja — e o que há de sertanejo na experiência humana.

Prof. Dr. Humberto Luiz Lima de Oliveira – pesquisador independente, escritor, editor da revista digital Cadernos do Sertão, Membro das Academia Feirense de Letras e Academia Metropolitana de Letras e Artes de Feira de Santana.

Resumo: Por se saber objeto de estudo por vozes autorizadas, o Sertanejo deixou-se instalado numa zona de conforto, e enfeitiçado, comprazia-se em ser visto como um pobre coitado, incapaz de inteligência e prosperidade. Sabendo que “tudo o que o mundo social fez (armado do saber) o mundo social mesmo pode desfazer”,como nos lembra Pierre Bourdieu, para tentar desconstruir esta imagem fixa ofertada pela Literatura e que ainda circula no imaginário coletivo,- sobretudo nos meios universitários – este trabalho, a partir do lugar de fala do seu autor, e com o auxílio de uma metodologia multi ou transdisciplinar, ao mapear formações identitárias de outras culturas, retira do imobilismo a identidade do Sertanejo que, liberto do enfeitiçamento da prisão essencialista, pode encontrar os elementos necessários para articular diálogos com outras culturas e reconhecer-se, assim, em sua plena humanidade.

palavras-chave: Sertão, enfeitiçamento, identidade, cultura, imaginário, literatura

  1. O lugar da fala

Nascido em Feira de Santana, eu conheço desde cedo as potencialidades simbolizadas nas encruzilhadas que nos acenam com    veredas, caminhos e estradas para nos levar a territórios desconhecidos, mas que podem ser buscados  e, quasemente, quem há de duvidar?– encontrados! O que mais me intrigava, em minha adolescência, era saber que eu estava numa terra da Princesa do Sertão, no Portal do Sertão.  Que reino seria este, o Sertão que tinha princesa, possuía tamanha nobreza? Embora um certo orgulho me tomasse ao ver-me assim nascido “entre verdes colinas”, numa cidade bela e pujante que cativava o  estranho “com seu clima sagrado”, e que tem como hino um dos mais belos poemas de amor, composto por uma mulher, a professora Georgina de Melo Erismann, eu não deixava de andar desajeitado, sentindo-me realmente muito deslocado, ou tão somente escabreado.

 Na minha pobreza de filho de migrantes forçados ao êxodo rural pela impossibilidade de encontrar condições de vida para continuar vivendo em sua terra natal, tão pobres que éramos, não deveríamos merecer as boas graças desta nobilíssima princesa que tinha a chave deste portal do misterioso território chamado Sertão.  Mas, e meus pais que vieram de Mundo Novo e somente em Feira de Santana se conheceriam, seriam eles,também, sertanejos? Eu, nascido nesta bendita terra de Santana, seria então um Sertanejo? Que seria exatamente esta identidade pessoal e coletiva, e que seria este Sertão que todos insistiam em repetir que era tão somente único, coisa só daqui, só nossa,  mas  que eu encontrava nos livros, até em outras línguas e   em longínquos alhures?  Talvez que Guimarães Rosa tivesse e ainda tenha razão ao afirmar que “O Sertão é dentro da gente”, pois os romances que eu lia me mostravam que a solidão das campinas  e colinas não se diferenciava daquela das geleiras, nem das montanhas, seja na Europa, ou nas Cordilheiras andinas,  na Chapada Diamantina, ou na Serra da Borborema.

Doeria menos a solidão na savana africana do que aquela vivida por alguém no Ártico canadense1?  E a solidão do indivíduo citadino, em plena separatividade, sozinho no meio das multidões, nas metrópoles?(FROMM,Erich. A Arte de amar).. Pois se o homem é o mesmo, mudando apenas a cor da pele, a língua que fala ou o que usa para cobrir o seu corpo! Mas, se era o mesmo vivente humano sob disfarces da diversidade, seria então a paisagem que determinaria o Sertão? Achei que assim resolvia minha angústia, aceitando muito contente o fragmento de realidade que me foi sugerido: o Sertão era cheio de cactus, mandacarus que quando floravam anunciavam a chuva que era visitante, pois o Sol era o morador, quase dono latifundiário do território vasto que se estendia sempre ao longe, pois o Sertão, diziam-me, ficava sempre mais além do alcance da vista. Era sempre quase todo ensolarado e quasemente deserto, por isso os cactus, a terra inculta, o arenoso que impedia o vicejar das plantas, as secas que esturricavam os brotos de esperanças de toda árvore, abortando toda planta que no chão fosse plantada, toda semente ficando sem vingar. O Sertão era sinônimo de Nordeste, que tinha outros apelidos: seca, fome, pobreza extrema, aridez, tristeza…triste sina...Morte e vida severina, como já nos mostrou o mestre João Cabral de Mello Neto.

Durou pouco essa minha zona de conforto, embora tenha ficado muito emocionado com esta dolorosa sorte, destino incruento, ciclo que jamais se quebrava, tanta carência e tanta dor reunidas sob o nome de Sertão, que também se chamava Nordeste! Quase gostando de lamber as feridas, sentindo-me assim resignado nessa constatação de que vivia uma condenação toda mística, toda carregada de maldições de divindades indiferentes ao sofrimento, eis que a Literatura me mostraria cactus, os mesmos mandacarus e outros vários, como   as palmas forrageiras das quais se extraiam a cochonilha do carmim para colorir os tecidosi. Então, este fardo não seria apenas meu, nosso, dos nordestinos sertanejos? Não seríamos então os únicos condenados a viver com a seca, com a inclemência do sol? Haveria então vida inteligente no aparente deserto de esperanças? Mas esta planta que chamamos de palma forrageira, que serve para alimento humano e rebanhos bovinos, ovinos e caprinos em longos períodos de seca, suprindo a ausência de pastagens, não é ela originária do México?

2 A literatura como formação de imaginários

Vejam que, na literatura e no cinema encontramos paisagens semelhantes ou muito parecidas com o semiárido que chamamos também de Sertão nordestino. Basta ver os filmes de faroeste estadunidenses ou mesmo os chamados faroestes spaghetti produzidos nos estúdios italianos.  Ou um clássico do cinema preto e branco, somente aparentemente caubói, mas um drama espetacular, traduzido com o nome de Quatro confissõesii , no original em inglês The Outrage.

Solidão do cavaleiro sedento, sem encontrar sombra ou qualquer abrigo, sujeito à picada mortal da cascavel, tendo apenas cactus como vegetação, a perder de vista. Mas sob a roupa diferente e apesar da língua estrangeira, é o mesmo sertão e o mesmo homem, o mesmo ser humano. Mesmo porque, paisagens inóspitas, secas ou estiagens prolongadas, vegetação escassa, jamais foram, nem serão privilégios do Sertão, deste Sertão nordestino.  Podem ser encontradas essas imagens de escassez ou penúria, a depender da época, da estação, nos vários continentes, inclusive na própria Europa, ali mesmo entre Portugal e Espanha, na Extremadura,  seja nas Cordilheiras andinas,  nas Américas, quase todas, inclusive nos Estados Unidos, e em Lima, no Peru, onde nunca chove. 

O que é o Sertão, enfim, este mítico território que o Portal da Princesa quer anunciar?  Ah, dizem que é onde a população é constituída de sertanejo, que viria a ser uma raça estranha da humanidade, a contar pela descrição que faz Euclides da Cunha, que este conceito inventou:

[…] O sertanejo é, antes de tudo, um forte.[…]Falta-lhe a plástica impecável, o desempeno, a estrutura corretíssima das organizações atléticas. É desgracioso, desengonçado, torto. Hércules-Quasímodo, reflete no aspecto a fealdade típica dos fracos. É o homem permanentemente fatigado[…] E ele completa: […] O andar sem firmeza, sem aprumo, quase gingante e sinuoso, aparenta a translação de membros desarticulados. Agrava-o a postura normalmente abatida, num manifestar de displicência um caráter de humildade deprimente. A pé, quando parado, recosta-se invariavelmente ao primeiro umbral ou parede que encontra; a cavalo, se sofreia o animal para trocar duas palavras com um conhecido, cai logo sobre um dos estribos, descansando sobre a espenda da sela. Caminhando, mesmo a passo rápido, não traça trajetória retilínea e firme. Avança celeremente, num bambolear característico, de que parecem ser o traço geométrico os meandros das trilhas sertanejas. […] Euclides da Cunha, Os Sertões, in https://fundar.org.br/wp-content/uploads/2021/06/os-sertoes.pdf..

Perdoem-me se rio, enquanto leio. Seremos nós, assim, mesmo, tão lesos, tão doentios, ou desengonçados?  Que povo é este que Euclides descreve? Em que são diferentes, em que se diferenciam uns dos outros, em termos fisionômicos,  os mineiros, dos cariocas, dos nortistas, como são chamados, ou até mesmo dos  marroquinos amazighs, ou argelinos, ou tunisianos, ou os próprios baianos que só podem ser identificados pela língua, mas que se passam por parentes próximos, como de fato são, se permanecermos com a boca fechada? Como esquecer da Pangeia que separou os continentes e nos deixou frente a frente com a larga faixa da África?

Mas, voltemos à citação do intelectual brasileiro que conseguiu nos marcar, a nós, nordestinos, a ferro e fogo, como uma raça de gente resistente e forte capaz de sobreviver às intempéries das secas, à pobreza, à fome, à sede.  Vemme à memória o Ensaio sobre a desigualdade das raças humanas do conde Arthur de Gobineau que foi embaixador da França na corte de D.Pedro II.  Morando no Rio de Janeiro,  Gobineau diria que os brasileiros eram incontestavelmente um povo feio, logo um exemplo ruim da mestiçagem das raças. Aliás, para Gobineau e demais teóricos da pureza racial, toda e qualquer mistura ou mestiçagem teria como resultado a degeneração. Logo, o mestiço, o brasileiro típico era um degenerado, doentio, incapaz de progresso. Talvez por isso, durante muito tempo, décadas, talvez séculos, tenha-se pensado na impossibilidade de o Brasil vir a ser um grande país: pelo caráter mestiço do seu povo. Eis o que afirma o eugenista Gobineau:

[…] O mundo das Artes e da nobre Literatura resultantes das misturas de sangue, as raças inferiores melhoradas, enobrecidas, são tantas maravilhas que se faz necessário aplaudir. Os pequenos foram elevados. Infelizmente, os grandes, por sua vez, foram rebaixados, e isto é um mal que nada compensa, nem repara. A raça branca possuía originariamente o monopólio da beleza, da inteligência e da força[…] (GOBINEAU, Ensaio sobre a desigualdade das raças humanas. In https://lelivros.shop/ensaio-sobre-a-desigualdade-das-ra-as-humanas (acesso em 06.06.2025)

Euclides da Cunha parece conhecer e partilhar das teorias raciais, quando se refere ao sertanejo. Se “Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral”, nem por isso deixa de ser “incompleto”, isto é, é portador de falha, posto que mestiço, e a mestiçagem das raças, assim como das espécies vegetais, de onde vem a inspiração, é “degenerescência”, anomalia, logo defeito, incompletude, carência…  Desengonçado, no entanto, ou poder-se-ia dizer, com a mesma configuração dos arbustos da caatinga, galhos retorcidos, ressequidos, como braços levantados aos céus, numa aparente súplica pela água da chuva, cactus de formas aparentemente assimétricas! E, a capacidade humana de integrar-se ao ambiente, de conviver, de usufruir prazeres mínimos da vida social, é vista como outro critério para a classificação da insuficiência: “[…] A pé, quando parado, recosta-se invariavelmente ao primeiro umbral ou parede que encontra; a cavalo, se sofreia o animal para trocar duas palavras com um conhecido, cai logo sobre um dos estribos, descansando sobre a espenda da sela […]”Euclides da Cunha, op.cit)

O que seria elogiável, o fato de o homem, enquanto parado, procurar apoiar  seu corpo, descansando das lidas e labutas, é visto como uma postura negativa, um defeito moral… e, quando montado, se encontrando um companheiro com quem possa trocar dois dedos de prosa, descansar uma perna sobre a “espenda da sela” e relaxado, ciente da docilidade da sua montaria em quem tem plena confiança, e somente por isso podem relaxar um momento que deve ser bem usufruído, pitam um cigarro de palha, comentam sobre o tempo, auscultam  se existem sinais de chuva, trocam informações sobre conhecidos, buscam conhecimentos e saberes sobre a vida cotidiana, uma rês perdida, quem daria notícia?  Urubus não estão à vista, um ou outro apenas sozinho, sinal de que morta a criatura não está. Porque notícias da política nacional, ah! isto nem é motivo para se estragar um dedo de prosa, uma boa tragada de um cigarro na garganta umedecida pela saliva grossa, tanto tempo sem refresco de água ou uma boa caninha. Pobre Euclides…só conhecia as montarias do Jockey club, onde o cavalgar é outro desfile em espaços racionalmente planejado… Na imagem abaixo, podemos ver vários vaqueiros, de diferentes idades, relaxados, bem à vontade em suas mansas montarias, aguardando o sinal para retomar as atividades. Enquanto esperam, conversam, fumam, divagam, relembram, fantasiam, sonham…como todos os homens do mundo…

Quanto ao andar “bamboleante característico, de que parece ser o traço geométrico os meandros das trilhas sertanejas” (citando ainda a mesma obra), o jornalista carioca, moldado no pensamento eurocêntrico, não  conseguia ser de fato capaz de ver nesta intimidade , por assim dizer, do homem ao meio, uma atitude louvável de quem, inteligentemente, sabe que é melhor seguir as trilhas abertas e marcadas pelos animais que assim se desviaram instintivamente de perigos invisíveis aos olhos humanos: aqui, um buraco onde cobras e animais peçonhentos poderiam estar abrigados, ali uma grande touceira de  macambira com seus poderosos espinhos, acolá uma ladeira muito íngreme que precisou ser contornada…adiante um poço que se esconde sob as folhas secas, quase areia movediça ou pura pedra a estragar os cascos dos animais, por isso a ausência de linha reta, mesmo porque, vivendo numa  sociedade pré-capitalista, o homem rural, mesmo se quase analfabeto, pouco letrado em livros, aprende com os animais, lê a natureza, busca sabedoria ao auscultar a vida aparentemente silenciosa que grita no seu entorno, ele sabe que é também Natureza. Por isso há quem saiba que vai chover porque patas e gansas resolveram fazer seus ninhos em novembro bem longe dos barreiros. Ou porque, mais elaboradamente ainda,  um  compadre, ou uma comadre, não um(a) qualquer, mas alguém especial,  letrado em adivinhações, leu nas pedras de sal, colocadas na telha, na véspera do ano novo, quais meses serão mais ou menos chuvosos no ano que se inicia, ou no dia de Santa Luzia (https://g1.globo.com/rn/rio-grande-do-norte/noticia/2020/12/13/dia-de-santa-luzia-agricultores-mantem-tradicao-com-flor-de-sal-para-prever-se-novo-ano-sera-de-chuvas-em-mossoro.ghtml )

Também os tuaregues, ao atravessarem o deserto, não o fazem sempre em linha reta, eles sabem que o deserto, apesar de aparentemente único ao olhar ignorante, tem sua geografia com suas morfologias internas, aqui areia movediça, ali, talvez pedras;  como não seguem em linha reta os indígenas das selvas amazônicas. Nem seguiam  em linha reta os Incas peruanos e a prova mais cabal está na geometria circular de Machu Picchu2.

É o meio que deve merecer a atenção e o respeito do homem que, de modo inteligente,  nele busca adaptar-se com proveito máximo. Diferentemente do que ocorre no capitalismo que não pode aceitar nenhuma resistência ao seu desejo de lucro e dominação: o mar é invadido com aterros para dar lugar a uma praia, pois aquela que havia foi encoberta pelas sombras dos edifícios; florestas são derrubadas por tratores e máquinas – em linhas retas! – para dar lugar ao agronegócio, em plantações de desenhos simétricos! Isto porque o capitalismo não pode, por sua própria natureza, aceitar limites, pois é

[…] um sistema de produção para o qual nada é impossível, senão ser para ele mesmo seu próprio fim. […] A sociedade industrial, a mais formidável máquina de produção é por isso mesmo a mais aterradora máquina de destruição. Raças, sociedades, indivíduos, espaços, naturezas, mares, florestas, subsolos: tudo é útil, tudo deve ser produtivo, de uma produtividade levada a seu regime máximo de intensidade ...]” (CLASTRES: 1979:61).

Que sejam fortes os sertanejos, isto não os diferenciariam de nenhum outro povo vivendo em condições semelhantes ou ainda mais difíceis: pensemos nos europeus, nos italianos e franceses, mais especialmente, vivendo sob a ocupação nazista. Pensemos nos homens e mulheres que se tornaram combatentes ou maquisards, que tiveram de enfrentar as condições de vida mais terríveis, entre a fome, o frio, o medo e o ódio ao invasor, sofrendo traições e mortes.   Ou os espanhóis opositores ao fascismo de Franco, ou os trabalhadores nas minas e fábricas mostradas exemplarmente pela literatura seja Zola, Aluísio de Azevedo…

Ou pensemos na maioria da população das Américas onde a escravidão se implantou e prosperou: os africanos escravizados submetidos à dieta da miséria e à crueldade moral, sem o direito de amar, sem poder constituir família, e ao castigo físico. Antes de tudo, fortes, era condição sine qua non para continuar vivendo. Abaixo, a foto de Gordon, chicoteado. https://pt.wikipedia.org/wiki/Gordon_(escravo)

Mas, voltemos ao Sertão. Graças, principalmente a Euclides e aos que se maravilharam com sua narrativa (não há como negar o encantamento com que esta narrativa é ainda hoje recepcionada nos círculos universitários nordestinos!), ficamos, nós mesmos, os Nordestinos, deslumbrados, siderados, com este imaginário por ele criado, vendo-nos como uma espécie de heróis resistindo às adversidades, sem perceber que estávamos chorando nossa comiseração, lambendo nossas supostas feridas, sentados sobre tesouros e que, assim representados, nos tornávamos ex-óticos, isto é, tão especiais que não éramos quase “normais”, quasemente não humanos!

3. Libertar-se do passado como chave para inserir-se no mundo com autoestima elevada

Na realidade, se ficou conhecido pela seca, pela distopia, pelas carências e misérias, quem disse que o Sertão continuou sendo apenas isso? Ou que somente no Sertão temos distopias? Este é um exemplo também emblemático : o dos pobres deste mundo resistindo ao desemprego, ao subemprego, à precariedade do serviços de saúde e previdência, à falta de políticas públicas de combate à pobreza, se deparando com a interrupção dos programas de cisternas nas regiões do semiárido…para não falarmos da favelização das cidades do mundo todo, de São Paulo, ou de Feira de Santana, no Brasil, de Bagdá, no Iraque, de Douala, em Camarões, até  Nova Delhi, Porto Príncipe e, para meu espanto, até mesmo em Paris! (Basta procurar no Google!)

Então, vejamos que, fortes, precisam ser os que são pobres, e isto para desgosto dos ricos, pois como são inúmeros e teimosos esses pobres do mundo! Parecem mesmo merecer as graças de Deus, pois que sobrevivem, miraculosamente, sobrevivem ao pandemônio e às pandemias, escapam das endemias, nascem na pobreza e crescem sem riqueza, mas sobrevivem, e muitos, ainda, como querendo rir na cara das elites econômicas e políticas, chegam à velhice, os atrevidos pobres deste mundo! Resistem a tudo que os maus governos colocam em seus caminhos: falta de vacinas e remédios para combater doenças, e escapam até mesmo da crueldade da necropolítica, do austericídio do neoliberalismo. E como conseguem se manter esperançosos! Ainda riem! Riem de si mesmos e da sua pobreza material, mas se consideram “ricos das graças de Deus”, estes povo pobre detestado pelos ricos e poderosos do mundo!

Talvez seja uma característica marcante esta capacidade de os pobres do mundo fazerem a resiliência de modo quase instintivo, com uma naturalidade que assusta o estrangeiro formatado no molde logocêntrico. E, como bom sertanejo que sou, posso lhes dizer que talvez – pois certeza quem é que pode garantir, totalmente? isso nos marque positivamente, pois não nos deixamos ficar prisioneiros de uma única ideia ou sentimento, sabemos ver a diversidade da realidade mesmo diante da dor inevitável que possa nos acometer. E, por “qualquer coisinha” como festejamos! Qualquer coisinha? Uma vitória pequena, mas ainda assim uma prova de sobrevivência e uma manifestação da gratidão à Vida (Outro dia, viajando de Feira de Santana para Cansanção, da janela do ônibus vi uma cena emblemática: uma mulher, empurrando o carrinho de mão, já vazio das verduras que havia vendido, entoava cânticos de gratidão a Deus pelo êxito alcançado: acabara de vender o último molhe de coentros!). Por tudo isso, por coisas assim, rimos, sim. Por quase tudo, e por nada. Festejamos, celebramos. Para horror das elites e dos endinheirados que olham o povo pobre como se fosse uma anomalia.

Eu me lembro que a Literatura nos mostra essa capacidade humana de se refazer, esta capacidade do ser humano se retomar, de se levantar depois da queda. Não é coisa do sertanejo, é da natureza do vivente. Cresce a planta podada, aprende a levantar aquele que caiu, e, o humano, reencontra o prazer depois da dor, vislumbra a luz, na escuridão. E, também, como nos mostra a melhor filosofia. Observe-se que Jean-Paul Sartre, que já esteve em Feira de Santana, com Simone de Beauvoir e ambos foram ciceroneados por nossos escritores Jorge Amado, Zélia Gattai, e pelo escritor feirense Dival Pitombo, Sartre já apontava a necessidade de, ao invés de fixarmos nosso pensamento sobre o que nos acontece, melhor começar a pensar no que faremos com o acontecido. https://oliveiradimas.blogspot.com/2013/07/feira-de-santana-foi-existencialista.html Então, a resiliência não é uma dádiva do sertanejo ou do nordestino, mas uma potencialidade humana ( cf. Boris CYRULNIK).

Como também não é a hospitalidade que, reconhecidamente, nos distinguia, a nós, os sertanejos. Claro que quando vivíamos como pré-capitalistas, ou ainda hoje os que se consideram anticapitalistas. Ou, melhor ainda, quando éramos mais rurais que urbanos, quando a vida no campo oferecia uma fartura sem riquezas e dispondo dos alimentos ao alcance da mão, podíamos, sem receio do amanhã, partilhar nossa mesa com o hóspede inesperado. Como os chefes indígenas que ofereciam suas filhas aos estrangeiros e aqui não posso deixar de lembrar talvez a mais famosa e emblemática destas oferendas, Catarina Paraguaçu que foi dada ao náufrago português Diogo Álvares Cabral e que se tornaria um ícone da mestiçagem de raças e culturas, chegando a ser considerada como “a mãe do Brasil”, e que pode ser melhor conhecida nesta e em várias outras fontes disponíveis na internet( além da fonte primária o poema épico doFrei Santa Rita Durão O Caramuru) file:///home/humberto/3598665_files/6502-Texto%20do%20artigo-36996-1-10-20170324.pdf

Mas, a hospitalidade sempre foi uma lei severa e rigorosa que não seria descumprida ou negligenciada por vários povos: sejam eles os Povos originários das Primeiras Nações, os Africanos antes da colonização e mesmo depois dela, como resistência cultural, e mesmo europeus, como fica bem exemplificado tanto na obra Abril despedaçado, do albanês Ismail Kadaré, ou do escritor turco Yashar Kemal, em seu ciclo Ince Memed (no Brasil, um dos volumes foi traduzido para o português com o título de Memed, meu falcão). Mas, não foi apenas pela hospitalidade que o sertanejo ficou conhecido mundo afora. Foi, por ser forte na resistência ao enfrentamento das adversidades, por não ceder à seca e suas consequências nefastas: fome, sede, empobrecimento, miséria, distopias.

4. Reconfigurações do Sertão: a prosperidade do presente

Pobreza extrema, “indolência do povo”, tristeza, mortalidade infantil, miséria social… estas imagens foram sendo consolidadas pela literatura e aceitas como verdades absolutas, imutáveis realidades bem representadas pela casinha de taipa (que até hoje figura nas chamadas para os congressos e colóquios universitários,e também de algumas Prefeituras municipais!), e que marcariam, de modo quase indelével, a identidade sertaneja e, por extensão, nordestina.

De fato, o Sertão conheceu muitas secas com seus inevitáveis êxodos rurais. Milhões de sertanejos fugiram para as cidades grandes, como outros ainda deixam, forçosamente, suas terras, para viverem em cidades onde vão inflar o número dos miseráveis, sem terra, sem trabalho, sem emprego…vão ser moradores das favelas… mas muitos outros milhões começam a se fixar na terra que os viu nascer graças às políticas afirmativas que, desde 2003 começaram a se implantar (e mesmo se interrompidas por seis anos, voltam agora, com força, a se afirmarem na vida política, econômica e social do Brasil). São programas que levam a modernização ao campo, inserindo o homem e a mulher do campo no mercado consumidor: programa de luz para todos, água para todos, bolsa família, sem falar na própria reforma agrária. E, para combater a falta de água potável e também para a produção agrícola, a irrigação das terras pela transposição das águas do rio São Francisco que corta praticamente toda a região Nordeste. O sertão, antes seco e improdutivo, agora tem água com fartura para irrigar culturas permanentes e lucrativas. E, onde antes existia apenas seca, pobreza e falta de chuvas, hoje cultivos de frutas e hortaliças são comuns nas terras do Sertão. Graças à irrigação, terras antes consideradas improdutivas hoje geram riquezas. Vejamos alguns exemplos:

1) Transposição de águas do Rio São Francisco https://www.gov.br/secom/pt-br/fatos/brasil-contra-fake/noticias/2023/11/soterramentos-bloqueios-e-fechamentos-as-mentiras-que-contam-sobre-a-transposicao-do-sao-francisco

2. Produção de frutas no semiárido baiano http://www.seagri.ba.gov.br/sites/default/files/Commodities%20Agr%C3%ADcolas%20da%20Bahia%20-%20Fruticultura.pdf

3) Produção de leite no sertão nordestino https://observatorio.se.gov.br/bacia-leiteira-de-sergipe-se-consolida-como-uma-das-maiores-regioes-de-producao-de-leite-do-nordeste/

4) Produção de carne bovina no Nordeste http://www.adab.ba.gov.br/noticias/bahia-ultrapassa-131-milhoes-de-cabecas-de-gado-e-lidera-producao-no-nordeste/

5) Assentamentos produtivos da reforma agrária no Nordeste brasileiro. https://mst.org.br/2020/11/04/conheca-as-principais-cadeias-produtivas-dos-frutos-da-reforma-agraria-no-nordeste/#:~:text=No%20Nordeste%2C%20regi%C3%A3o%20que%20acumula%20a%20maior,carnes%20e%20leite%20bovino%20e%20da %20caprinovinocultura

Definido como lugar atrasado, ermo, ou como terra inóspita, deserta e desértica, o Sertão sempre foi visto negativamente, marcado pela violência e pela opressão social, terra onde prevalecia a lei do mais forte e onde o desamparo dos humanos encontrava no sofrimento dos animais sob as secas, sua equivalência. Neste universo marcado fortemente pelas condições econômicas, definido pela classe social de maneira indelével, todo um comportamento (de classe alta, de brancos e ricos) iria se espraiar, tornando-se uma regra social de grande parte de toda uma sociedade que, mesmo querendo se ver como imagem especular, não dispunha das mesmas condições. Este Sertão é marcado pelo ostensivo cruzamento de classe social, raça e cor, como bem mostra a maioria da produção do Cordel e da literatura canonizada pelas instituições. De fato, enquanto ricos, brancos (e no Sertão ser rico e ser branco são sinônimos!- Basta ver que “meu Branco”, é um cumprimento que os pobres e pretos em geral fazem aos mais abastados!-) estes fazendeiros seriam um verdadeiro obstáculo para o progresso social e humano, como nos mostra toda a literatura modernista brasileira, de José Lins do Rego, Fogo Morto, Graciliano Ramos, Vidas Secas, Raquel de Queiroz, O Quinze, e de nosso Jorge Amado, que eu focaria em duas obras ilustrativas: Gabriela, Cravo e Canela e Seara Vermelha.

Terras improdutivas e grande contingente de mão de obra rural sem ocupação e sem terra para plantar. Desassistidos pelos poderes públicos, ao Deus dará, homens e mulheres vivenciavam a mesma sorte dos animais ante as adversidades das intempéries, como Graciliano Ramos nos mostra em Vidas Secas: os humanos são despojados da humanidade e nivelados ao drama da cadela Baleia. Em Seara Vermelha, os camponeses são empurrados para o desenraizamento, para a desterritorialização e levados ao exílio, ao êxodo rural, e, como os próprios animais sob a seca, vão sofrer as agruras deste deslocamento no espaço, na tentativa de encontrar água, alimento, pouso, refúgio, proteção e hospitalidade, um lugar onde recomeçar.

À guisa de conclusão

Quando intitulo esta minha fala de Exorcizando o feitiço da estereotipia negativa: por uma nova gramática para o Sertão, faço-o na tentativa de mostrar que temos de abandonar o essencialismo identitário que nos condena a seguir cegamente uma tradição, pois é preciso lembrar que a tradição implica em imobilidade, negação do movimento natural da vida, pois

[…]  implica uma certa imobilidade, a identificação de um centro no qual investir, proteger, constituir como espaço pleno e estável […] É procurar a segurança da identidade confirmada.[…] logo […] isso implica um olhar voltado para si mesmo, para o centro, e que e reafirma os princípios de uma identidade coletiva. A tradição diz quem nós somos, de onde viemos, aonde devemos ir, o que temos em comum […]” (segundo Bertrand GERVAIS, “Leituras divergentes:as novas experiências da textualidade” o texto integral encontra-se in FORGET, Danielle e Lima de Oliveira, Humberto Luiz. Imagens do Outro: leituras divergentes da alteridade. Feira de Santana:ABECAN-UEFS, 2001, p.220-221).

No entanto, penso que seria uma grosseria de minha parte se deixasse de incluir no meu repertório para tratar de um tema da cultura brasileira e sertaneja, em particular, se não acrescentasse ao vocabulário o conceito de tradução, como sendo esta capacidade humana de se apropriar e reelaborar uma tradição que, não mais precisando ser representada como imagem fixa, mesmo em uma nova forma pode ser reconhecida ou constatada, pois apenas se reconfigurou.

Assim, para falar de Sertão, não o faço mais tão somente com minha presença física, oralmente, em versos bem ritmados, nas feiras livres que ainda existem no mundo todo, pois que outras formas de narrar uma tradição estão sendo operadas, com sucesso, contribuindo para renovar e difundir a cultura popular, como podemos ver nesta performance sobre a Feira da Estação Nova, em Feira de Santana. https://www.youtube.com/watch?v=RttwVO4iYyE E, também em duas outras obras literárias.

1. 1. Cadernos do Sertão: uma revista digital, bilíngue, pensada em francês e português, é o veículo que usamos para divulgar, em duas línguas, a produção literária e cultural de artistas do mundo, inclusive do Sertão nordestino. Por isso, a escolha da língua francesa por sua condição de ampla difusão. E para divulgarmos, também, a produção em língua francesa que traduzimos para o português. Assim, publicamos, em dois volumes, o último número, intitulado POESIA DO MUNDO/ POÉSIE DU MONDE como uma coletânea de poemas de autores sertanejos, nordestinos, e também de outros poetas da Bulgária, da Argélia, do Marrocos, do Québec, da França e da Romênia. Confira https://revistacadernosdosertao.wordpress.com/brasileira/

Também não utilizarei do Cordel em sua versão impressa e bem ilustrada com a xilogravura. Faço-o, porém, utilizando de outro veículo: de uma revista digital, com uma produção de cordéis originada de uma Oficina de Cordel, na qual um grupo de jovens, tendo aprendido a métrica e a musicalidade do Cordel, sob a orientação do poeta Romildo Alves, produziriam poemas que seriam publicados em um número especial da revista Cadernos do Sertão. https://revistacadernosdosertao.wordpress.com/wp-content/uploads/2020/09/oficina-de-criacao-literaria-cadernos-do-sertao-3.pdf

Gostaria de chamar a atenção para a necessidade de se fazer uma leitura semiótica da capa desta revista www.revistacadernosdosertao.wordpress.com. Sob a copa da árvore chamada umbuzeiro e que é considerada uma árvore símbolo do sertão nordestino – é no verão, sob a inclemência do sol e do calor que ela dá frutos em abundância e que sua copa oferece sombra para o descanso de homens e animais e suas raízes conservam água que podem saciar a sede dos viajantes –, está sentado um homem que tem no colo um notebook. Talvez seja esta uma imagem que dá conta da necessidade de se reconfigurar o imaginário do homem do Sertão: embora possa estar longe do urbano, na solidão do “mato”, ele não mais está isolado. Pode estar conectado com o alhures, com inúmeras outras pessoas, de vários continentes, de línguas diferentes da sua. Não mais precisa estar com o antigo fifó como única forma de iluminar a noite. Já tem luz elétrica ou energia solar, tem computadores e telefone celular, não é analfabeto, pode até ser doutor. E pode ser, também, que tenha uma pequena propriedade rural onde ele próprio trabalhe a terra com sua família, ou pode ter empregados e manter sua família na cidade onde decerto os filhos ou filhas estudam em faculdades ou universidades.

1 .2. O romance Crônicas de uma infância no Sertão: memórias de uma família brasileira, publicado em 2022, embora siga a tradição do livro impresso, sua estrutura já sinaliza para a opção em e-book, podendo ser lido em telas de computadores e celulares.

A narrativa,- catalogada originalmente como romance, embora saibamos que num futuro não muito distante, críticos universitários, entediados, poderão, em seminários, apresentar seus questionamentos – tem início quando, num dia chuvoso, para evitar que os netos se entediem, ou corram o risco de gripes e resfriados,  um avô lhes propõe contar um caso: O dia em que o cavalo empacou, quando, misteriosamente, um cavalo marchador subitamente empaca, bem perto do anoitecer, ao lado das árvores onde apareciam velas acesas, amedrontando o menino que ele era. Enquanto tentava se lembrar da receita para quebrar o feitiço do encantamento do cavalo tornado estátua, o garoto relembra uma sucessão de acontecimentos transcorridos com os habitantes de uma fazenda e assim vai tecendo, reconstruídas pela memória, estas Crônicas de uma infância no Sertão: memórias de uma família brasileira, onde se alternam o drama dos que “têm eira, mas não têm beira”; da triste sina das mulheres impedidas de amar, do racismo no próprio seio de uma família que não era tão preta, nem tão branca, nem tão pobre, nem rica; do sofrimento dos pobres camponeses  desenraizados obrigados ao êxodo rural, e dos receios de assombrações e feitiços, e dos medos e esperanças de uma família que luta tanto pela sobrevivência quanto para garantir  a posse da terra bem amada. E da acertada decisão de um avô que mostra a todos que a salvação poderia advir do progresso nos estudos do neto que gostava de ler.

Para concluir, observe-se que, se a revista Cadernos do Sertão, bilíngue, literária e cultural, on line, coloca o Sertão em duas línguas e em cinco continentes, contribui para divulgar a produção literária de autores sertanejos e brasileiros em língua francesa e coloca à disposição dos brasileiros narrativas francófonas traduzidas. E assim, rompe o estereótipo do Sertão como símbolo de pobreza, analfabetismo, atraso e isolamento.

Quanto ao romance Crônicas de uma infância no Sertão: memórias de uma família brasileira, acredito que esta narrativa tenha um mérito que me agrada em destacar: desconstrói também a imagem de analfabetismo e ignorância, ao evidenciar, como personagem principal, uma família sertaneja letrada, uma casa de roça onde tem livros e jornais, onde as pessoas ouvem rádio e se informam do que se passa no mundo. Além do que, ao evidenciar a situação socioeconômica da família, lembra ao leitor a luta para manter a propriedade rural quando a economia do país começa a mudar radicalmente, e cresce a concentração de riquezas, empurrando para o exílio os camponeses sem terra, atraídos pelas luzes da cidade grande em seu espetáculo feérico de prazeres anunciados. Aqui me lembro de uma canção de Lupicínio Rodrigues, Pobres moços, onde os versos dizem “ […] deixam o céu, por ser escuro, e vão ao inferno, à procura de luz […]”, pois é assim o exílio dos pobres, dos sertanejos e de todos condenados da terra, que foram e são obrigados a se desenraizarem, ainda hoje, no mundo todo.

Considerando a potência da Literatura na formação de imaginários e, acreditando que « se tudo o que mundo social fez, o mundo social mesmo (armado do saber) pode desfazeri» ) é que nos utilizamos da Literatura, seja através da Revista Cadernos do Sertão, seja pelo romance Crônicas de uma infância no Sertão: memórias de uma família brasileira, para, ao tempo em que, se desconstruímos a estereotipia negativa do Sertão, mostramos a validade da reconfiguração das identidades, fugindo das armadilhas dos essencialismos, e evidenciamos que, seja no Sertão ou alhures, a única possibilidade de escapar do círculo de ferro da pobreza é através de uma educação emancipadora (ADORNO), único remédio para quebrar o feitiço de qualquer estereotipia negativa.

1 https://pixabay.com/pt/photos/azul-iceberg-pessoas-homem-sozinho-2599993/

2 https://pt.wikipedia.org/wiki/Machu_Picchu#/media/Ficheiro:Sunset_across_Machu_Picchu.jpg

i Praga da palma forrageira, a cochonilha do carmim é um corante natural utilizado de maneira inaugural pelo industrial Delmiro Gouveia, que deu o nome à cidade onde implantou uma indústria, e  que conseguiu produzir linhas brasileiras  de marca Estrella que fizeram a Corrente laranja, de uma indústria britânica, perder a concorrência no mercado brasileiro!

ii Quatro confissões , no original em inglês The Outrage. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=Ta9fvLg-dQM

REFERÊNCIAS

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AMADO, Jorge. Gabriela, cravo e canela. In https://lereumvicio.wordpress.com/wp-content/uploads/2016/06/gabriela-cravo-e-canela-jorge-amado.pdf (acesso em 21.05.2025)

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LIMA DE OLIVEIRA, Humberto Luiz. Crônicas de uma infância no Sertão: memórias de uma família brasileira. Salvador: Quarteto editora, 2022.

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ZOLA, Émile. Germinal. In http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/ga000068.pdf (acesso em 20.05.2025)

i Pierre BOURDIEU, A Miséria do Mundo in Entretiens http://www.homme-moderne.org/societe/socio/bourdieu/misere/libe0293.html

 

*Humberto de Oliveira, escritor e tradutor.

Editor da Revista Cadernos do Sertão 

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