Artigo / Por Humberto de Oliveira 24 de abril de 2025

O Livro: de inimigo público a amigo inseparável

Se, nos primórdios da sua existência, era não apenas singular, mas único, o Livro logo iria se popularizar, graças à alfabetização implementada tanto pelo Protestantismo quanto pela própria modernização das sociedades com a escolarização das massas, o que possibilitaria o surgimento de um mercado editorial, como nos mostram os folhetins (escritos e publicados por Eugène Sue e Balzac, na França, e Bernardo de Guimarães e José de Alencar, no Brasil, dentre outros e em outras localidades); e, depois pela impressão em série do Livro que, hoje, é comemorado com dia oficial no calendário e celebrado em feiras, festas e bienais.

Dado como moribundo nos fins do século XX, quando lhe apregoaram a morte diante do surgimento da Internet, o livro provou ser capaz de, não apenas restabelecer-se, mas adaptar-se com elevada perspicácia ao mundo das novas tecnologias e provou que continua fiel aos seus princípios básicos, mesmo que lhe mudem as formas de apresentação ao público leitor: volume impresso, ou digital, em e-books, podendo ser lido de uma forma ou de outra, sem que seu conteúdo seja prejudicado. Ou seja, o livro continua vencendo barreiras e se aproximando ainda mais de leitores e leitoras que não passam sem sua existência por ser fonte de conhecimento, de saber e de entretenimento. Em suma, lê-se cada vez mais, sobretudo depois da pandemia, mesmo que se possa (e até mesmo seja necessário) questionar a qualidade do que é oferecido ao público leitor.

A eficácia da leitura tem levado governantes de vários matizes ideológicos, ora a combatê-lo, como inimigo público a ser perseguido e até mesmo dizimado, ora, por simpatia, a colocá-lo na lista preferencial das compras oficiais e oferecê-lo às bibliotecas públicas para melhor assegurar que as propostas nele contidas sejam mais rapidamente assimiladas pelo maior número de leitores. Assim, pode ocorrer que, o mesmo livro, num mesmo país, possa ser considerado nocivo, pelo Governo, e elogiado por aqueles que lhe façam oposição.

O certo é que, sejam os bem intencionados autoritários de direita quanto aqueles da esquerda, todos concordam que o livro pode “fazer a cabeça” das pessoas e é preciso acompanhar seu percurso, tentando, ou afastá-lo do público, para evitar a contaminação das ideias que ele comporta, ou levá-lo às massas, para maior adesão aos valores nele contidos.

É que, pela carga de afetividade que se desprende da leitura, quem lê é convocado a sair da sua zona de conforto e comove-se com o drama do Outro, acabando por descobrir que, sob a aparência da diversidade, o que existe é uma só e mesma humanidade com sonhos, dores, frustrações e afetos que são bem parecidos com a sua própria vida. E talvez possa, ao fim da leitura, acreditar que sua própria existência possa ser mudada, ao tomar conhecimento dos outros modos de ser e viver sugeridos.

É por saber desta potência de um Livro que lhe são dedicados seminários e colóquios, tertúlias e saraus nas Universidades e Academias, festejos em Bienais e feiras literárias – que o mercado, sabiamente, prefere que sejam nomeadas como festas literárias, contanto que seja popularizado o Livro e que se possa fazer bons negócios, pois o Mercado editorial “precisa vender”. O certo é que, apesar dos agouros em que se viu envolvido, o Livro resiste e avança, cada vez mais, num mundo em que as massas se escolarizam e que, cada vez mais, leem, até mesmo com avidez, os mais diferentes conteúdos disponibilizados, não importa em qual formato. Enfim, o Livro, impávido, apesar dos tumultos, é este senhor que, mais do que nunca, tem sido o amigo inseparável de milhões de pessoas, não importa a idade, o sexo, a religião, a língua, a cor da pele…

*Humberto de Oliveira, escritor e tradutor.

Editor da Revista Cadernos do Sertão 

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FH, 24/04/25

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