O futebol e as aberrações da arbitragem: os reflexos para a sociedade
Quando o erro deixa de ser erro
Por Adalberto Nunes*
O futebol brasileiro vive um dos seus momentos mais tristes. Não é apenas a queda da qualidade técnica, nem a falta de craques capazes de encantar multidões. O que causa repulsa é a sensação de que a injustiça está sendo institucionalizada. A cada rodada, erros absurdos de arbitragem — quase sempre em favor dos grandes clubes — deixam o torcedor comum com a amarga impressão de que o jogo já começa decidido. E o pior: o que deveria ser o antídoto da dúvida, o VAR, tornou-se cúmplice da distorção.

O espelho de uma sociedade
Quando um juiz de futebol, diante das câmeras, ignora o óbvio, não é apenas o resultado de uma partida que se mancha. É o valor simbólico da justiça que se degrada diante de milhões de olhos. As crianças assistem, os jovens comentam, e todos aprendem — consciente ou inconscientemente — que o poder pode mais do que a verdade. Que há regras, sim, mas também há quem esteja acima delas. O campo, que antes era metáfora de mérito e superação, transforma-se num palco de cinismo e deseducação.
A pedagogia da injustiça
O futebol ensina. Ensina trabalho em equipe, disciplina, solidariedade e respeito. Mas, quando a injustiça se repete, ele também ensina algo perverso: a naturalização da trapaça. O garoto que vê seu time ser derrotado por uma decisão escandalosa pode crescer acreditando que o mundo é assim mesmo — que o certo é ser esperto, não justo. E o adulto que já perdeu a esperança confirma, diante da televisão, que o país inteiro funciona como aquele jogo viciado.
O silêncio que nos condena
Não é apenas uma questão de esporte. É uma questão de moral coletiva. Quando a sociedade se acostuma a ver a injustiça e apenas comenta no intervalo, está, sem perceber, aceitando a própria derrota. A parcialidade da arbitragem é a metáfora perfeita de um país que ainda não aprendeu a valorizar a honestidade — nem a reagir quando ela é ferida.
O futebol, como a vida, precisa de regras, mas, acima de tudo, precisa de ética. E talvez esteja aí o verdadeiro papel do torcedor consciente: não apenas torcer, mas exigir. Exigir que o jogo, seja no campo ou fora dele, volte a ter juízes de verdade.
*Adalberto Nunes é professor aposentado, colunista eventual e colaborador do Feira Hoje. Escreve sobre comportamento, sociedade e memória.
Feira Hoje, 07/11/25
@feirahoje→www.instagram.com/feirahoje




