Cometa Halley e memória feirense – Há 40 anos, o fenômeno mobilizou Antares, imprensa e público
Artigo acadêmico reconstitui a cobertura da passagem do Halley em 1986 e revela como ciência, mídia e público se cruzaram em Feira de Santana
Em 2026, completam-se 40 anos da última passagem do cometa Halley pelo Sistema Solar interno, momento em que Feira de Santana viveu um raro ambiente de curiosidade científica e mobilização popular. Esse cenário acaba de ser revisitado no artigo O Cometa Halley nas
páginas do Jornal Feira Hoje, publicado na Revista Espaço Pedagógico da Universidade de Passo Fundo (UPF).
A pesquisa é assinada por Willivan do Carmo Santos, doutorando em Ensino de História pelo ProfHistória da Uneb e professor da Rede Pública Municipal de Feira de Santan, atuando na Escola Municipal João Marinho Falcão, no bairro Olhos D’Água; e por Rodrigo Osório Pereira, doutor em História e professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs).

O estudo recupera, a partir de matérias do arquivo do Jornal Feira Hoje, como jornalistas, cientistas e autoridades conduziram o olhar da população para o céu.

Willivan Santos
Um dos pontos centrais da pesquisa é a atuação do Observatório Astronômico Antares, então sob direção do astrônomo Augusto César Pereira Orrico, o César Orrico, que articulou o chamado Projeto Halley em diálogo direto com a imprensa. Reportagens, notas e colunas documentaram a preparação de uma ampla programação de observação, além de parcerias com órgãos públicos, empresas e instituições científicas nacionais e estrangeiras. O Jornal Feira Hoje funcionou como o grande mediador entre o observatório e a população, ajudando a transformar um fenômeno astronômico em acontecimento urbano.
Halley entre o mito e a ciência
Os autores lembram que o interesse pelo cometa não nasce apenas do noticiário de 1986. Por séculos, cometas foram vistos como presságios de medo e desgraça, até que o astrônomo inglês Edmond Halley ldemonstrou que certos cometas seguiam órbitas periódicas, retornando aproximadamente a cada 76 anos.

Rodrigo Osório
Essa descoberta deslocou o fenômeno do campo do sobrenatural para o campo científico, mas o imaginário não desapareceu. A passagem excepcionalmente brilhante de 1910 alimentou expectativas para 1986, o que ajuda a explicar por que Feira de Santana viveu o evento muito além do telescópio, entre escolas, rádios, estandes, turistas e ampla cobertura jornalística.
No plano prático, o artigo mostra que o Antares preparou sua área externa para abrigar estruturas temporárias voltadas à observação e à divulgação científica. Foram anunciados serviços de informação por telefone, exibição de filmes, presença de instituições científicas, estandes de empresas e oferta de atendimento ao público, estudantes e curiosos.

A imprensa local acompanhou cada etapa com um tom entusiasmado, projetando Feira de Santana como um dos principais pontos de observação do Nordeste, inclusive com expectativa de visitantes estrangeiros. Ao mesmo tempo, o estudo registra promessas não cumpridas por órgãos públicos e críticas à falta de apoio institucional.
Antares, Uefs e a cultura científica feirense
Os autores situam também o desfecho do episódio. A baixa visibilidade do cometa em 1986 — praticamente invisível a olho nu — frustrou parte da população e levou o Antares e o próprio Jornal Feira Hoje a explicarem as razões astronômicas do fenômeno. O estudo mostra que a experiência contribuiu para a consolidação de uma cultura científica local, ainda que marcada pelo contraste entre promessa e decepção. Anos depois, o Observatório Astronômico Antares seria incorporado à Universidade Estadual de Feira de Santana,
onde permanece como órgão suplementar dedicado à pesquisa, ao ensino e à popularização da astronomia.
Quarenta anos depois, a reconstituição do Projeto Halley ajuda a compreender os desafios permanentes da comunicação pública da ciência, especialmente quando envolve expectativas emocionais, projeções turísticas e disputas simbólicas. Ao cruzar o papel do Antares, o protagonismo de César Orrico e a cobertura do Jornal Feira Hoje, o trabalho de Willivan do Carmo Santos e Rodrigo Osório Pereira devolve ao leitor de hoje um registro precioso da memória científica feirense e prepara o caminho para 2061, quando o Halley deverá reaparecer e novas gerações voltarão a olhar para o céu.
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Everaldo Goes / Feira Hoje
16/01/26




