Artigo / Por Everaldo Goes 5 de julho de 2025

Por que evitar o termo ‘civilizatório’?

Durante seminário na Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs), presenciamos um estudante ser discretamente alertado por um professor: “Evite usar o termo ‘civilizatório’ em sua fala”. A recomendação, feita com gentileza, soava a princípio estranha. Afinal, o termo não é ofensivo, tampouco técnico demais. Mas o pedido revelava algo mais profundo: a carga histórica, política e ideológica contida em certas palavras, especialmente quando empregadas em espaços de debate crítico como o ambiente acadêmico.

Civilizatório: uma palavra carregada de história

A ideia de “civilizar” tem raízes antigas, mas ganhou destaque na era das grandes navegações e do colonialismo europeu. Colonizadores justificaram suas invasões com a alegação de estarem levando a “civilização” a povos considerados primitivos. O “projeto civilizatório”, nesse contexto, foi muitas vezes sinônimo de dominação, violência, apagamento cultural e imposição de valores europeus.

Etnocentrismo disfarçado de progresso

Usar o termo “civilizatório” pode sugerir, ainda hoje, que há culturas superiores e inferiores, e que o avanço de uma sociedade se mede pela aproximação a certos padrões — quase sempre ocidentais, brancos e urbanos. Esse raciocínio, chamado de etnocentrismo, contraria as bases contemporâneas das Ciências Humanas, que valorizam a diversidade cultural, a oralidade, os saberes ancestrais e os modos de vida alternativos ao modelo capitalista-industrial.

Quando civilizar é excluir

Em tempos recentes, o termo voltou à cena em discursos políticos que pedem a “recuperação de valores civilizatórios”, muitas vezes como códigos moralistas que justificam repressões, censura ou exclusão de grupos considerados “fora da ordem” — como artistas, indígenas, mulheres, LGBTQIA+, periferias ou religiões de matriz africana. Não é à toa que professores universitários, atentos ao peso simbólico das palavras, recomendam cuidado.

Como falar sobre avanços sem cair nessa armadilha

Isso não significa que não se possa discutir progresso, direitos ou conquistas sociais. Mas muitos preferem termos como:

  • processos de modernização,
  • expansão de direitos humanos,
  • transformações sociais e culturais,
  • história das lutas emancipatórias.
    Essas expressões não carregam a mesma herança colonial do termo “civilizatório” e permitem uma abordagem mais crítica e plural.

O vocabulário importa – e diz muito sobre nós

As palavras que escolhemos revelam o modo como enxergamos o mundo. Em tempos de polarização, superficialidade e revisionismos perigosos, prestar atenção à linguagem não é preciosismo — é responsabilidade política e intelectual. O pedido do professor ao estudante talvez tenha parecido pequeno. Mas continha, ali, uma grande lição.

*Everaldo Goes é graduado em Licenciatura em História, jornalista e editor do Feira Hoje. 

05/07/25

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