Do cartão-postal ao fio-dental — como o turismo moldou a estética de praia e a imagem da mulher brasileira
Por décadas, a sensualidade das jovens brasileiras é explorada como vitrine para atrair turistas e gerar lucro para grupos econômicos que exploram seus corpos sem constrangimento, incentivando até a prostituição e alimentando estereótipos que levaram brasileiras a relatarem, no exterior, serem vistas como “fáceis”, às vezes prostitutas, sem amor próprio — enquanto muitas mulheres comuns passaram a considerar natural exibir o corpo nesse padrão, por se tratar de “moda”
O biquíni brasileiro, famoso no mundo inteiro pelo corte mínimo, é visto por muitos como símbolo de liberdade, clima tropical e descontração. Mas por trás dessa imagem aparentemente espontânea, há uma história marcada por interesses econômicos, estratégias de marketing e estereótipos que ajudaram a consolidar o país como destino turístico ligado à sensualidade feminina.
Chegada e resistência inicial
O traje de banho chegou ao Brasil no final dos anos 1940, importado da França. No início, causou estranhamento e foi alvo de resistência. Só a partir dos anos 1960 começou a ganhar espaço nas praias do Rio de Janeiro, impulsionado por ícones como Leila Diniz, que, grávida, apareceu de biquíni e se tornou símbolo de ousadia.
A década que mudou tudo
A década de 1970 marcou uma virada. O país passou a investir pesado na promoção internacional de seu turismo, e a mulher brasileira — jovem, bronzeada e com poucas peças de roupa — foi transformada em um dos principais atrativos nos cartazes, cartões-postais e filmes de divulgação. Em campanhas da época, bastava mostrar a silhueta de um corpo feminino para “representar” o Brasil. A Embratur, órgãos estaduais e até municípios litorâneos exploraram essa estética, associando-a ao imaginário de sol, praia e “calor humano”.

No passado, a propaganda no exterior feita pelo próprio governo (Embratur) explorou os corpos femininos
Sensualidade como mercadoria
Essa construção não foi apenas estética, mas econômica. A sensualidade das jovens brasileiras — principalmente as de corpos dentro do padrão — foi transformada em mercadoria turística. O corte mínimo do biquíni funcionava como promessa implícita ao visitante estrangeiro e, muitas vezes, como isca para um mercado paralelo: o do turismo sexual. Essa propaganda indireta incentivou a prostituição em destinos litorâneos e ajudou a cristalizar, no exterior, uma visão distorcida e difamatória da mulher brasileira como objeto de consumo. Esse processo, altamente lucrativo, enriquece grupos econômicos que exploram o corpo dessas jovens sem qualquer constrangimento. Muitas brasileiras relatam que, ao viajar para fora, já foram tratadas como “fáceis” ou até confundidas com prostitutas, sendo vistas como pessoas sem amor próprio.
Moda e reforço de estereótipos
Enquanto isso, a moda praia acompanhava — e reforçava — a narrativa. Modelos como a “tanga” e o fio-dental, adaptados no Brasil, ganharam visibilidade na mídia nacional e internacional. Revistas como Vogue e editoriais de moda dos anos 1970 e 1980 exaltavam a ousadia brasileira, sempre sob o olhar estrangeiro, que via nessa estética um exotismo sedutor. Aos poucos, muitas brasileiras passaram a adotar o biquíni mínimo sem perceber que estavam sendo usadas como parte de uma estratégia de mercado que não beneficia a maioria delas.
Naturalização e identidade nacional
A repetição desse padrão fez com que ele fosse naturalizado. Muitas mulheres passaram a enxergar o biquíni mínimo não como imposição externa, mas como parte da identidade nacional. O que não se percebia é que essa identidade estava sendo moldada por interesses turísticos e comerciais, que lucram com a exposição dos corpos femininos.
Estereótipos que persistem
Esse tipo de promoção, embora tenha gerado resultados econômicos, teve um efeito colateral duradouro: alimentou estereótipos sexuais que ainda hoje associam o Brasil ao turismo sexual. Em 2014, por exemplo, a Embratur precisou intervir para que a Adidas retirasse de circulação camisetas que exploravam imagens hipersexualizadas do país durante a Copa do Mundo.
Movimentos de resistência
Nos últimos anos, iniciativas como campanhas da Dove questionaram essa imagem. Durante o Carnaval, painéis instalados em aeroportos convidavam turistas a repensar a ideia de que todas as brasileiras têm o mesmo corpo e o exibem com a mesma naturalidade. Pesquisas mostraram que a maioria das mulheres não se identifica com o padrão vendido internacionalmente.
O desafio de ressignificar
A moda praia no Brasil, portanto, é mais do que um reflexo do clima ou da cultura: é um campo de disputa entre expressões de liberdade individual, imposições mercadológicas e estereótipos persistentes. O desafio agora é ressignificar essa estética, mantendo a criatividade e a diversidade brasileiras, mas rompendo com a lógica de que o corpo feminino é cartão-postal.
Everaldo Goes é jornalista, editor do Feira Hoje e graduado em Licenciatura em História
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@feirahoje
10/08/25




