Feira em Memória 16 de outubro de 2025

Feira em Memória: Episódio Pareja — Dia 1

Jornal revive a cobertura original do sequestro que mobilizou Feira de Santana e o país em 1995

Atendendo aos inúmeros pedidos de leitores da seção Feira em Memória, o Feira Hoje inicia hoje a republicação integral da cobertura histórica do caso Pareja. Nas últimas semanas, a menção ao episódio nas redes sociais do jornal despertou grande interesse — muitos quiseram relembrar os detalhes, enquanto outros, mais jovens ou que não moravam em Feira de Santana na época, desejaram conhecer o caso que marcou a cidade há três décadas.

Ainda Leonardo Pareja: os enigmas além da foto Quando história pessoal, imprensa e controvérsia se cruzam no sequestro de uma jovem de família influente da capital baiana. Há 30 anos.

Fotografia de Washington Nery recebeu prêmio nacional

Na manhã de 1º de setembro de 1995, Feira de Santana despertou cercada por viaturas, curiosos e câmeras de televisão. Um jovem sequestrador, armado, mantinha uma menina de 13 anos refém dentro do Samburá Hotel.

O Feira Hoje, que na época já circulava há mais de duas décadas, cobriu o caso desde o primeiro instante em que a notícia chegou à redação. A mobilização pela excelente cobertura envolveu praticamente toda a equipe de jornalistas, dentre os quais Valdomiro Silva (editor), Glauco Wanderley (redator), Augusto Ferreira (chefe de reportagem), André Pomponet (editor de polícia), Lineia Fernandes (repórter) e os fotógrafos Washington Nery, Jorge Magalhães e José Alves.

O Feira Hoje pertencia ao Sistema Nordeste de Comunicação, então presidido por Pedro Irujo.

🧭 Por que manter os textos originais

O post pode ser considerado longo para os padrões atuais da rede,  mas, necessário.  O objetivo é oferecer ao leitor e aos pesquisadores um documento autêntico da imprensa impressa antes da internet, quando as redações fechavam suas edições horas antes dos fatos seguintes.

A cobertura do Feira Hoje é uma fonte primária sobre como o jornalismo local viveu e retratou um acontecimento que se tornaria nacional.

📍Este é o primeiro capítulo da série que será publicada semanalmente, reconstituindo a cobertura completa do caso Pareja, de 1995.

O Episódio Pareja – Dia 2, pode ser acessado aqui.

📸 Nesta edição: capa e página 9 do Feira Hoje 2 de setembro de 1995.

Feira em Memória: Episódio Pareja — Dia 1Jornal revive a cobertura original do sequestro que mobilizou Feira de Santana e o país em 1995

Capa do Feira Hoje, sábado, 2 de setembro de 1995 (Foto: Washington Nery)

Capa: Sequestro de menina agita Feira

Um sequestro que começou na noite de quinta-feira (31/08/25) em Salvador, em forma de assalto, agitou ontem Feira de Santana. Dois sequestradores levaram a refém de 13 anos, filha de um publicitário da capital, ao Samburá Hotel, no centro da cidade. Avisada pelo pai da menina, a polícia entrou em ação e conseguiu prender o indivíduo de prenome Sérgio, quando ele saiu do hotel para telefonar.

O outro sequestrador, Leonardo Pareja, percebeu a chegada da polícia e passou a usar a refém como escudo para se proteger. Poi de Salvador e até o secretário de segurança do Estado foram mobilizados na ação.

As negociações começaram pouco depois de 10 horas da manhã e entrou pela noite. Esta edição foi fechada aos vinte e cinco minutos de hoje e o impasse continuava. Ontem, Leonardo saiu por várias vezes da portaria do hotel e chegou a atirar na direção de um policial civil de Feira de Santana e um fotógrafo da Feira Hoje que se aproximaram demais.

Feira em Memória: Episódio Pareja — Dia 1Jornal revive a cobertura original do sequestro que mobilizou Feira de Santana e o país em 1995

Feira Hoje, 02/09/95, pagina 9

Página 9

Sequestro de menor gera tensão e medo em Feira

Por Lineia Fernandes

Até parecia cena de filme policial. Um marginal de arma em punho apontada para a cabeça de um refém. Isso foi o que se verificou durante todo o dia de ontem (01/09/95) em Feira de Santana. Depois de um sequestro realizado em Salvador, dois marginais trouxeram a vítima até Feira, onde a polícia conseguiu prender um dos homens enquanto que o outro ficou cercado durante todo o dia.

A jovem de 13 anos, filha de empresário da capital, foi sequestrada por volta de 23 horas de anteontem, quando saía do restaurante Baby Beef Martinez, do Ondina Apart Hotel, na orla marítima, em Ondina, Salvador. Ela estava com seu pai num carro (dados ignorados pela polícia), trafegando na orla, enquanto sua mãe ia em outro veículo mais à frente.

Ainda nas proximidades do Martinez, o carro do pai foi abordado pelos dois sequestradores. O empresário e sua família foram a uma festa de aniversário na noite de anteonten. Depois da festa, eles foram para o restaurante, onde foram abordados pelos sequestradores.

Leonardo Rodrigues Pareja, 21 anos, o mentor do sequestro e seu comparsa, de pré-nome Sérgio, após abordarem o publicitário e sua filha em Ondina, tomaram de assalto. Alguns instantes depois, os sequestradores libertaram o empresáriopróximo a um motel. A polícia não soube informar o nome desse motel.

Num certo local, a mãe da garota percebeu que o caгто do marido havia desaparecido. Após ser libertado, o empresario manteve contatos com a polícia a fim de avisá-la do sequestro. Inicialmente, o pedido de resgate foi de 20 mil reais. Ao avisar à polícia do sequestro, o empresário pediu às autoridades que tomassem as providências necessárias mas que a integridade física da sua filha fosse preservada.

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Foto: Jorge Magalhães

Samburá Hotel

Os sequestradores vieram para Feira de Santana e se hospedaram no Samburá Hotel, de onde fizeram contatos com a família da vítima. Eles se registraram no hotel como pessoas vindas de Goiás. O carro que usavam foi colocado na garagem do hotel. Num dos telefonemas para a casa do empresário, a polícia conseguiu, através de um rastreamento do telefone, descobrir o número do telefone que estava sendo usado e, consequentemente, o local onde os sequestradores estavam.

Ao ser avisada do sequestro, a Polícia Civil de Feira de Santana começou a colher informações nas proximidades do Samburá Hotel. Após a prisão de um dos homens, Sérgio, a polícia cercou o hotel mas não conseguiu deter o outro seqiestrador.

Sérgio foi obrigado pelos policiais a bater na porta do quarto onde seu comparsa estava. Leonardo, por sua vez, percebeu a presença da polícia e usou a garota como escudo para descer ao saguão do hotel, se prostando à porta do estabelecimento. Ao perceber o cerco da polícia, Leonardo colocou uma pistola na cabeça da garota. A primeira atitude dele foi exigir o afastamento dos policiais.

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Cúmplice preso quando ia telefonar

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Fotos: Jorge Magalhães

Os policiais civis de Feira de Santana prenderam o primeiro sequestrador, de pré-nome Sérgio, por volta das 10h40 [sexta-feira,  01/09/95]. Ele foi abordado pelos policiais nas proximidades da Mesa de Renda, na avenida Senhor dos Passos, distante do hotel a cerca de 500 metros. Sérgio estava armado com um revólver, mas se entregou à polícia.

A polícia desconfiava que Sérgio manteria contato com a família da garota, quando foi abordado. O sequestrador contou que seu comparsa mantinha a refém no Samburá Hotel. Depois da prisão dele, os policiais voltaram para o hotel, quando toda a área foi cercada.

Sérgio, após ser algemado, acompanhava toda a movimentação da polícia, muitas vezes cooperando nas negociações com seu parceiro, Leonardo Rodrigues Pareja.

Página 9

Polícia desvia trânsito na área do sequestro

O trânsito do cruzamento entre a avenida Presidente Dutra e a rua J.J. Seabra, na praça Jackson do Amaury, foi interditado desde que a polícia fechou o cerco ao Samburá Hotel, onde o sequestrador Leonardo Rodrigues Pareja mantinha a jovem como refém. Ninguém pôde atravessar o cruzamento devido o forte policiamento na área.

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Foto: Jorge Magalhães

Quando a polícia manteve os primeiros contatos com o sequestrador, alguns veículos tentaram invadir o local mas foram impedidos por PMs. Na avenida Presidente Dutra, o trânsito ficou difícil, já que o cruzamento não podia ser usado de forma alguma.

Centenas de populares, curiosos, se acotovelavam nas proximidades do Samburá Hotel, acompanhando toda a movimentação na área. Quando a polícia percebeu a periculosidade dos sequestradores, a área mais próxima do hotel foi evacuada. Muitas lojas na praça Jackson do Amaury tiveram que ser fechadas.

Os populares passaram a se aglomerar a cerca de 200 metros do hotel. Mesmo com os pedidos da polícia, os populares dificilmente se afastavam do local. Algumas pessoas chegaram a arriscar suas vidas. Num dos momentos mais perigosos, o seqüestrador apontou a pistola 7.65 que usava para a multidão, levando dezenas de pessoas a correrem, desesperadas. Leonardo Rodrigues chegou a atirar mais de uma vez mas não acertou ninguém.

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Policiais de elite em ação

Um forte policiamento foi armado nas proximidades do Samburá Hotel, desde a prisão do sequestrador Sérgio. Nas primeiras horas, toda a equipe da Polícia Civil de Feira de Santana e dezenas de prepostos da Polícia Militar foram mobilizados para isolar a área e tentar a prisão do sequestrador Leonardo Rodrigues Pareja, que mantinha a jovem como refém.

Pouco tempo depois da aparição do sequestrador com a jovem na porta do hotel, dezenas de policiais do Centro de Operações Especiais (COE), em Salvador, foram deslocados para Feira de Santana. O delegado Geraldo Costa, chefe do COE, também participou da operação.

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Foto: Jorge Magalhães

Durante várias horas, mais de seis delegados da Polícia Civil, tanto de Feira quanto de Salvador, tentaram convencer o sequestrador a se entregar. Mas Leonardo Rodrigues se manteve durante todo o tempo irredutível. O tenente da Polícia Militar Paulo César, com especialização em sequestro nos Estados Unidos, da divisão de sequestro do COE, comandou as negociações com Leonardo Rodrigues. Enviado pelo secretário de Segurança Pública, o tenente Paulo César manteve diversas conversas com o sequestrador na tentativa de que ele libertasse a garota.

Os policiais que participaram da operação estavam fortemente armados. Franco atiradores se posicionaram por diversas vezes tendo como alvo o sequestrador. Eles esperavam apenas um sinal dos delegados a fim de atirar em Leonardo Rodrigues. Fuzis AR-15, metralhadoras, pistolas de 9 milímetro, pistolas 7.65, escopetas de repetição e outras armas foram usadas durante a operação.

Fotografia de Washington Nery recebeu prêmio nacional Jornal revive a cobertura original do sequestro que mobilizou Feira de Santana e o país em 1995

Foto: Jorge Magalhães

Os policiais também usavam coletes a prova de bala. Um dos policiais civis, da 2ª Delegacia de Polícia de Feira de Santana, por pouco não foi atingido por um dos tiros disparados pelo sequestrador Leonardo Rodrigues. O policial se escondeu atrás de um carro e o tiro chegou a atravessar o veículo mas ele saiu ileso.

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Menina sequestrada após uma festa

A garota de 13 anos reside com a família num apartamento na Pituba. A garota é de cor morena, cabelos castanhos escuros e tem aproximadamente 1,50 de altura. Quando foi sequestrada, ela saía de uma festa. A garota vestia uma minissaia de cor preta e uma blusa bege, com sapatos pretos e meia-calça.

Durante algum tempo, ela aparentava certa tranquilidade. Em certos momentos, ela não demonstrava qualquer reação às atitudes agressivas do sequestrador, que mantinha uma arma apontada para sua cabeça. Parecia controlar a emoção. Mas, nos momentos em que o sequestrador ameaçava atirar, a garota ficou nervosa.

Depois de cinco horas em pé na porta do hotel, a jovem já demonstrava cansaço físico. Ela olhava muito para o relógio e suava bastante. Nos momentos de ameaça do sequestrador de ir embora, a jovem gesticulava bastánte, pedindo aos policiais que se afastassem.

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Leonardo Pareja demonstra frieza

Os sequestradores Leonardo Rodrigues Pareja, vulgo Léo da Saveiro, e Sérgio foram considerados de alta periculosidade pela Polícia Civil. Ele avisou que já esteve em mais de uma penitenciária e não tinha a intenção de voltar a ficar preso. Leonardo é foragido de Góias, cometeu vários crimes e, segundo a polícia, já invadiu delegacias, comandou motins em penitenciárias e eliminou policiais em assaltos e outros crimes.

Léo, como é conhecido, disse à polícia que poderia matar a garota a qualquer momento e também não se importava em morrer. Leonardo ameaçou atirar em uma das pernas da garota. Ele é magro, moreno, tem cabelos castanhos claros. Em vários momentos, Leonardo ameaçou sair do Samburá Hotel, mas desistia devido o cerco que foi armado pela polícia.

Em momentos que aparecia na porta do hotel, o sequestrador cobria a si e a garota com um lençol. Num dos instantes em que se sentiu ameaçado, o sequestrador fez disparos. Outras vezes, apontou a arma para a multidão curiosa que se aglomerava próximo ao hotel. Leonardo foi também considerado pela polícia como uma pessoa intransigente, se negando a conversar.

Na próxima quinta-feira (23/10/25), o Feira Hoje volta com a parte 2 do Feira em Memória (Episódio Pareja), transcrevendo os acontecimento do segundo dia do sequestro (sábado, 2 de setembro de 1995)

Everaldo Goes / Feira Hoje

16/10/25

@feirahoje →www.instagram.com/feirahoje

 

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