Feira em Memória 31 de outubro de 2025

Episódio Pareja — Dia 2

Jornal revive a sequência da cobertura que marcou Feira de Santana em 1995

O Feira Hoje dá continuidade à republicação integral da cobertura histórica do Episódio Pareja, caso que comoveu Feira de Santana e ganhou repercussão nacional há três décadas. A edição de 3 de setembro de 1995, um domingo, trouxe novos detalhes, depoimentos e registros do segundo dia do sequestro que manteve o país em suspense.

O trabalho jornalístico do Feira Hoje, então com mais de vinte anos de circulação, mobilizou toda a redação em torno de um dos acontecimentos mais intensos já vividos pela cidade. A equipe — formada, dentre outros, por Valdomiro Silva (editor), Glauco Wanderley (redator), Augusto Ferreira (chefe de reportagem), André Pomponet (editor de polícia), Lineia Fernandes (repórter) e os fotógrafos Washington Nery, Jorge Magalhães e José Alves — acompanhou os fatos minuto a minuto, levando aos leitores uma cobertura precisa e de grande impacto.

O jornal integrava o Sistema Nordeste de Comunicação, presidido à época por Pedro Irujo.

🧭 Por que manter os textos originais

Assim como na primeira publicação, os textos são apresentados sem alterações, preservando o estilo e o contexto da época. O objetivo é oferecer ao leitor e aos pesquisadores um documento autêntico da imprensa local antes da internet, revelando como as redações trabalhavam com prazos curtos, sob forte pressão e com recursos técnicos limitados.

A série Feira em Memória busca, assim, reconstituir passo a passo o modo como o jornalismo feirense retratou um dos episódios mais marcantes da década de 1990 — uma narrativa que une história, memória e o testemunho vivo de uma cidade em comoção.

📍 Nota da redação

Este é o segundo capítulo da série ‘Feira em Memória: Episódio Pareja’, publicada semanalmente, reconstituindo a cobertura completa do caso de 1995. As reportagens originais compõem um acervo histórico do jornal Feira Hoje, referência da imprensa feirense desde a década de 1970.

O Episódio Pareja – Dia 1 pode ser acessado aqui.

Episódio Pareja – Dia 2

📸 Nesta edição: capa e página 9 do Feira Hoje, 3 de setembro de 1995.

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Capa do Feira Hoje, domingo, 3 de setembro de 1995 (Foto: Washington Nery)

Capa: Os momentos mais tensos do sequestro

Quando o leitor do Feira Hoje estiver de posse desta edição, neste domingo, é possível que o sequestro da estudante

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Foto: Washington Nery

Fernanda Viana até tenha sido encerrado.

Até o fechamento dos trabalhos da redação, o assaltante Leonardo Rodrigues Pareja se mantinha no Samburá Hotel, com o domínio da filha do publicitário Paulo Viana, em negociações com a polícia.

Na cobertura feita pelos nossos repórteres, o leitor vai saber como uma funcionária do hotel conseguiu sair de lá de dentro. Os detalhes de entrevistas dadas por Leonardo à rádio Subaé, os momentos mais tensos da madrugada de ontem e várias outras notícias importantes acerca do sequestro.

Página 9

Sequestrador e vítima dão entrevista exclusiva

Clima de tensão na madrugada

Por volta das 3 horas da madrugada de ontem, o clima ficou mais tenso na praça Jackson do Amaury. Um blecaute na energia elétrica em todo o quarteirão onde está situado o Samburá Hotel aumentou a apreensão no local. Criou-se uma grande expectativa quanto às ações do sequestrador e da polícia. Nesse instante, o tenente Paulo César manteve novo contato com Leonardo.

O PM explicou a queda de energia elétrica (que, segundo ele, não teve nada a ver com a polícia) e garantiu segurança para o sequestrador, deixando-o tranquilizado.

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Foto: Jorge Magalhães

Depois de meia hora, a energia voltou sem qualquer ação aparente de nenhuma das partes. Às 4h35min, houve novo blecaute no sistema de energia elétrica do quarteirão. Mas a tensão diminuiu. Esse blecaute se prolongou por mais de quatro horas. Nenhum fato novo decorrente da queda de energia foi registrado.

Ameaça de disparos

Outro momento tenso foi quando o sequestrador resolveu assustar alguns policiais e jornalistas, que se aglomeravam próximo onde ele segurava a menor, Fernanda. Léo apontou a pistola automática para a aglomeração e ameaçou atirar. Houve correria e muita agitação.

Durante o tempo em que apareceu na janela, Fernanda escreveu um bilhete. O bilhete foi entregue ao tenente Paulo César. A garota pediu que a polícia mantivesse um contato com um familiar a fim de dar noticias. No bilhete, constava o número do telefone.

A multidão que voltou a se aglomerar na rua J.J. Seabra no início da manhã, também levou alguns sustos com a suspeita de que Léo iria atirar naquela direção.

A polícia afastou os carros da imprensa e procurou deixar policiais a postos para a necessidade de perseguir o sequestrador. Mesmo assim, as autoridades insistiam em afirmar que não seguiriam o carro de Leonardo Rodrigues Pareja.

Em entrevista exclusiva a rádio Subaé, o sequestrador da menina Fernanda Viana, Leonardo Pareja, ameaçou incediar o hotel. Afirmando ter preparado um coquetel molotov, estar com botijões de gás prontos para explodir e litros de álcool, estar disposto, além de assassinar a garota Fernanda, a incendiar o hotel, o sequestrador Leonardo Rodrigues Pareja disse que se a garota morresse a culpa é da polícia.

“Ou saem da frente e permitem minha fuga, levando a garota, ou arquem com a consequência da tragédia. Fiquem conscientes de que quem vai puxar o gatilho e matar a menina são vocês”, disse.

Mostrando-se seguro ele ameaçou mais de uma vez matar a garota. “Minha vida não vale a bala que tenho na agulha da minha pistola. A vida dela, todos sabem, vale muito”.

Leonardo disse que não acredita nas promessas do mediador, tenente Paulo César. Ele disse que sabe o que lhe reserva. “Se não me matarem serei preso, processado e condenado. Já tenho muita cadeia pela frente e isto não importa. O que importa é a situação atual. Estou com a garota como refém e não pretendo matá-la. Agora, se a polícia tentar uma vez só atirar em mim, não terá a segunda oportunidade e será uma verdadeira tragédia”.

Fuga

O sequestrador disse que já está acostumado a situações como esta e que sempre aparece um herói querendo salvar a pátria. “Se aparecer algum que assuma também a responsabilidade pela morte da garota Fernanda, tudo bem, pode vir”.

Leonardo disse que quer um carro, o piloto e vai levar Fernanda na fuga. “Quero o piloto porque necessito ter minhas atenções e reflexos voltados para ela – Fernanda -, que é a minha proteção. Depois de entrar no carro e me sentir seguro, liberto a menina e o motorista”, assegurou.

Fernanda Viana também concedeu entrevista à rádio Subaé. Ela pediu que deixassem o sequestrador sair. “Deixem Leonardo me levar com ele porque tenho certeza que ele vai me libertar”.

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Também ontem o bispo de Feira de Santana, dom Itamar Vian, apareceu para levar solidariedade a Fernanda Viana “Num momento difícil como este não poderia deixar de comparecer e emprestar apoio a esta menina. Deus que lhe dê forças para suportar a pressão. Tenho esperança que tudo termine bem”, salientou dom Itamar.

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Arrumadeira foge do hotel

Surpreendendo a todos que estavam próximos à praça Jackson do Amaury, a arrumadeira Gildete Maria da Silva, 32 anos, que trabalha no Samburá Hotel, saiu correndo desesperada, por volta das 11 horas de ontem. Gildete estava no interior do hotel desde anteontem, primeiro dia em que a polícia montou o cerco ao sequestrador Leonardo Pareja.

Gildete contou à equipe de reportagem do Feira Hoje que estava escondida dentro do hotel desde sexta-feira de manhã. Segundo o relato, ela estava limpando um dos banheiros do prédio, que fica dentro da copa, quando percebeu um movimento estranho.

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Foto: Washington Nery

Gildete abriu a porta devagar e viu um rapaz com a arma apontada sobre a cabeça de uma adolescente. Ela se trancou e ficou quieta para não despertar a atenção. Depois de ficar trancada por mais de 24 horas no banheiro, Gildete abriu um pouco a porta para observar o que acontecia.

Quando percebeu que Leonardo subiu as escadas e viu o corredor vazio e a porta da frente do prédio completamente aberta, Gildete não pensou duas vezes. “Eu disse a mim mesma, é agora ou nunca”.

A arrumadeira fugiu em direção a um dos policiais que estava posi-cionado em frente ao hotel, gritando por socorro.

Imediatamente, os policiais providenciaram um veículo para levar Gildete até a Casa de Saúde Santana.

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Pesquisa aponta que polícia deveria ceder

O Sistema Nordeste de Comunicação realizou ontem à tarde uma pesquisa interativa para saber se o feirense acha que a polícia deveria ceder às exigências do sequestrador. De 13h30min às 14 horas, 327 pessoas ligaram para o SNC e opinaram. 51,2 por cento acham que a polícia deveria ceder, enquanto que 48,8 por cento disseram que não.

Dois telefones foram colocados à disposição dos ouvintes das rádios Subaé e Nordeste FM. Ao final, 169 pessoas disseram que a polícia tinha que ceder às exigências e liberar a fuga de Leonardo. Enquanto isto, 158 pessoas responderam que não, a polícia deveria man-ter-se firme e não ceder em nada.

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As negociações não evoluíram

O primeiro contato do sequestrador Leonardo Rodrigues Pareja com a polícia na manhã de ontem se deu por volta das 6h30min. Léo, como é mais conhecido, apareceu na janela do andar térreo do Samburá Hotel, ao lado da refém, Fernanda Viana. Ele só mostrou uma parte do rosto. Tanto ele quanto a garota demonstraram uma aparência mais descansada. Léo apareceu de cabelos molhados.

O tenente Paulo César conversou com Leonardo e foi iniciada mais uma negociação com o indivíduo. Várias vezes os acertos foram interrompidos, devido a desistência de Léo ou algum descuido por parte da polícia.

Após o primeiro contato, Leonardo subiu para o segundo andar e abriu uma das janelas. Ele deixou Fernanda Viana alguns minutos à mostra. Mas não desgrudou o braço da cintura da garota. Fernanda segurava, um pouco trêmula, o telefone celular que era usado pelo sequestrador.

Em conversa com o tenente da PM, Leonardo voltou a fazer exigências, gritando e gesticulando muito da janela. Queria um carro quatro portas, um homem com uma algema na mão esquerda para dirigir o veículo (que não fosse policial) e uma quantia em dinheiro. A polícia manteve segredo sobre o valor exigido por Léo.

Um dos delegados à frente da negociação informou que a polícia só aceitou dar a Léo uma parte do dinheiro e tentava convencer o sequestrador a aceitar a quantia. Também nas negociações, o sequestrador aceitou o motorista sem o uso de algemas.

Motorista voluntário 

Por volta de 7 horas, a polícia colocou um carro quatro portas, conforme exigência de Léo, na porta do hotel. O escolhido foi um Gol, branco, placa policial JKX-4261.

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Foto: Jorge Magalhães

Um ex-policial militar, de prenome William, se apresentou como voluntário para dirigir o veículo. O motorista também foi colocado alguns minutos depois a postos. O homem precisou tirar a camisa e calça e mostrar que não escondia nenhuma arma na perna, outra exigência de Léo.

Depois de ser atendido nessas reivindicações, Léo voltou a dificultar as negociações. Exigia ainda levar consigo a garota Fernanda Viana junto com o motorista. A polícia não aceitou e exi-giu a troca da menina pela vida do motorista.

Enquanto isso, o voluntário esperava nervoso a decisão das negociações. William foi levado pelo tenente Paulo César à porta do hotel. Depois ficou esperando próximo ao carro, na calçada.

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Leonardo não aparece de madrugada

As negociações entre o sequestrador Leonardo Rodrigues Pareja e o tenente da Polícia Militar, Paulo César Cabral, especialista em seqüestro, não avançaram em nada durante a madrugada de ontem. Vários contatos foram mantidos por Léo com a polícia, através de telefone celu-lar. Tanto ele quanto a polícia se mostraram irredutíveis.

Leonardo Pareja combinou alguns horários para reiniciar a negociação com o tenente Paulo César. O PM disse que ele estava sendo, de certa forma, “cavalheiro” com Fernanda Viana, chegando a emprestar-lhe seu casaco, devido ao frio que fazia no local.

Exatamente à meia-noite, o tenente da PM se aproximou do hotel e chamou o sequestrador a fim de manter uma nova convversa com ele. Léo não apareceu.

Por volta de duas horas da madrugada, o sequestrador conversou com o tenente Paulo César por telefone. Nesse contato, ele voltou a insistir na fuga, levando a menina como escudo. O policial militar tornou a discordar da exigência, insistindo par⁹a que ele libertasse a jovem.

Léo passou grande parte da noite acordado, conforme o tenente Paulo César. Em alguns momentos, assistiu televisão e em outros desligava o aparelho como para despistar. Ele garantiu ao tenente que Fernanda Viana estava bem e dormiu algumas horas. Leonardo não apareceu durante toda a madrugada.

Na próxima semana, o Dia 3 do Episódio Pareja: a fuga com um empresário refém, que se ofereceu em troca da garota. 

@feirahoje→www.instagram.com/feirahoje

FH, 30/10/25

 

 

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