Educação e Saúde 24 de agosto de 2025

Entrevista – Da luta à consolidação: João Batista e a história da Medicina na Uefs

Em entrevista exclusiva ao jornalista Everaldo Goes, editor do Feira Hoje, o médico urologista João Batista de Cerqueira fala sobre sua aposentadoria após 42 anos de docência na Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs), onde começou em 1983 como professor de Anatomia. Primeiro coordenador do Colegiado de Medicina, ele relembra a luta pela implantação do curso, iniciada ainda nos anos 1990, quando apresentou o Requerimento 210/95 na Câmara de Vereadores e publicou artigo no Feira Hoje defendendo a causa. João Batista detalha resistências enfrentadas, o impacto da adoção do modelo pedagógico da Aprendizagem Baseada em Problemas, a concorrência recorde da primeira turma — 106 candidatos por vaga — e os resultados concretos: 468 médicos já formados e 189 acadêmicos em atividade. Atual presidente da Academia Feirense de Letras e fundador do Instituto de Urologia e Nefrologia (Iune), ele também comenta a missão social da literatura, a necessidade de consolidação do SUS, a importância de um Hospital Universitário para a Uefs e o sonho de uma Universidade Federal em Feira de Santana.

Do concurso à sala de Anatomia

Everaldo Goes – Professor, vamos voltar ao início. Como o senhor se tornou docente da Uefs, lá nos anos 1980?

João Batista Cerqueira – Estimulado por uma amiga, professora Maria da Luz Silva, prestei concurso público e fui aprovado em primeiro lugar para ensinar Anatomia Humana, disciplina que era oferecido aos alunos do Curso de Enfermagem. A nomeação foi publicada no dia 22 de agosto de 1983. Portanto, dia 29/08, ao fazer aniversário de 30 anos já era professor da Uefs.

João Batista Cerqueira

O sonho de implantar Medicina em Feira

EG –  O que o motivou, como médico e professor, a lutar pela implantação de um curso de Medicina em Feira de Santana?
JC – Conhecer a realidade social e sonho da juventude por cursar Medicina. Na época, muitos jovens não realizavam o sonho de cursar Medicina pela dificuldade de acesso, e aqueles que possuíam condições
financeiras viajavam para fora do Brasil, para realizar o desejo. No estado, tínhamos apenas duas Escolas de Medicina: a Faculdade de Medicina da Bahia, fundada em 1832, na qual me formei em 1978; e a Escola Baiana de Medicina, uma instituição privada, fundada em 1952. Portanto, a carência de novas escolas era gritante, e o beneficio para a juventude seria grandioso.

EG – No texto que escreveu em 2009, o senhor narra que o sonho é antigo, vindo desde a década de 1960. Em que momento percebeu que era hora de retomar essa utopia?
JC –  Em 1995, professor da Uefs há 12 anos, avaliei que o momento era oportuno. Universidade emergente, pública, a Uefs estava nos preparativos para comemorar 19 anos de fundação e começava um novo ciclo na Administração Superior. Então tornei público ao aprovar em março de 1995, na Câmara de Vereadores, o Requerimento 210/95, e publicar em abril de 2025, no Jornal Feira Hoje o artigo: Medicina na Uefs.

Resistências internas e externas

EG – Como foi a articulação política e institucional para convencer autoridades e entidades sobre a importância do curso?
JBC – As articulações aconteceram em diferentes frentes. Na Uefs, comecei conversando com colegas médicos que também ensinavam no Departamento de Ciências Biológicas da universidade. Dos oito colegas abordados, apenas dois: César Oliveira, que fazia parte do Corpo Clínico do IUNE CLÍNICAS, e Renato Pires, que caminhava comigo desde a fundação da Unimed de Feira de Santana, em 1983, mostraram-se favoráveis ao projeto.

João Batista com turmas de Medicina da Uefs

EG – O senhor foi o primeiro coordenador do Colegiado do Curso de Medicina. Quais foram os principais desafios nesse momento inicial?
JBC – Anteriormente, coordenei a Comissão de Estudos para elaboração do projeto, e a Comissão de Operacionalização para Implantação. Portanto, foi um tanto natural que meu nome fosse indicado pelos docentes para coordenar o primeiro Colegiado do Curso de Medicina. Quanto aos desafios, eram gigantescos, pois éramos apenas seis professores e não tínhamos espaço nem equipamentos para o funcionamento do Curso. O estresse foi tão grande, que na véspera do início das aulas, em 2003, precisei fazer um cateterismo cardíaco para esclarecer a etiologia de uma súbita dor precordial. Felizmente, as coronárias estavam normais, e não foi infarto do miocárdio, apenas preocupação e estresse.

EG – Na época, houve resistência à implantação do Curso. De onde vinham essas resistências e como o senhor e sua equipe lidaram com elas?
JC – As resistências aconteceram nos campos interno e externo. No campo interno, órgãos de representação docente e discente se colocaram contrário à implantação do projeto. Alegavam que o curso de
Medicina iria tomar espaços na Uefs, inclusive, vagas no quadro docente que eram reservadas para outros cursos de graduação. No campo externo, infelizmente, muito mais por questões ideológicas e por
conservadorismo, representantes de algumas entidades se pronunciavam contrário a implantação de novos cursos de Medicina. Nas duas frentes, argumentamos sempre que se a “Saúde era dever do Estado”, conforme dispositivo constitucional seria também da responsabilidade do Estado Brasileiro fomentar politicas públicas e investir na formação de novos médicos para atender à população e as necessidades do Sistema Único de Saúde. Nesse sentido, a implantação de um Curso de Medicina em uma universidade pública era uma obrigação de Estado.

Um modelo pedagógico inovador

EG – O Curso adotou desde o início o modelo pedagógico da Aprendizagem Baseada em Problemas (ABP). O que motivou essa escolha e como avalia seus resultados até hoje?
JC – O projeto inicial entregue à Administração Superior da Uefs, apresentado no Seminário Novas Escolas Médicas, e aprovado pelo Conselho Estadual de Saúde (CES) e Conselho Estadual de Educação
(CEE) não contemplava essa alternativa pedagógica. Entretanto, ao analisar o parecer do professor Maurício Barreto, aprovado no CES, juntamente com a Administração Superior da Uefs, decidiu-se por adotar o PBL por modelo pedagógico. Ademais, já estávamos um pouco cansados do modelo pedagógico tradicional, e precisávamos envolver muito mais o aluno na sua própria formação acadêmica.

A validação pelo entusiasmo dos jovens

EG – A primeira turma teve 106 candidatos por vaga. Que leitura o senhor faz dessa procura tão intensa?
JC – Essa concorrência foi um bálsamo para validar a luta. Nossa juventude desejava e ansiava pelo curso de Medicina na Uefs. Frequentariam uma universidade pública e não precisariam se ausentar das suas famílias e do Brasil para cursar medicina. Estávamos certos.

O impacto regional da formação médica

EG – Olhando para os números atuais — 468 médicos formados e 189 acadêmicos em formação — qual impacto o senhor vê na saúde e no desenvolvimento regional?
JC – A Educação transforma. Nos seus quase cinquenta anos de atividades a Uefs transformou a realidade loco-regional. Claro, não seria diferente com a implantação do Curso de Medicina, senão vejamos:

-Na época da implantação do Curso de Medicina, tínhamos apenas dois ou três médicos com cursos de mestrado e doutorado. Por conseguinte, a implantação do curso estimulou a especialização e a melhoria da classe médica feirense que passaram a ver na docência universitária um novo campo de atuação profissional. Atualmente, dos 69 professores do curso de medicina: 23 são especialistas, ou seja 33,3%; 21 possuem curso de mestrado, ou seja 30,4%; e 25 professores possuem curso de doutorado, ou seja 36,3%.

-No campo assistencial o impacto foi também grandioso. Muitos MÉDICOS egressos da Uefs atuam nas Unidades de Saúde da Família, Unidades de Pronto Atendimento, Clínicas e Hospitais, tanto em Feira de Santana, quanto em outras cidades, especialmente em unidades do Sistema Único de Saúde.
Com alegria, frequentemente, recebo mensagens de ex-alunos que fazem contato para agradecer e informar a cidade na qual estão trabalhando.

Projetos que ficaram pelo caminho

EG – No seu texto de 2009, o senhor fala de projetos que precisavam avançar, como o Hospital Universitário e a pós-graduação em Medicina. O que já foi conquistado e o que ainda falta?
JC – Nem tudo que constava no projeto inicial foi alcançado e três projetos ainda aguardam o seu momento. O primeiro foi o Departamento de Medicina: nos momentos decisivos para aprovação do projeto no
Consepe (Conselho Superior de Ensino, Pesquisa e Extensão), a reitora Anaci Paim me disse das dificuldades que enfrentava para juntamente com o curso, implantar o Departamento de Medicina. Na oportunidade, disse-lhe: professora siga em frente, pois implantar o curso é muito mais importante. Aprovado o curso, o Departamento de Medicina será apenas uma questão de tempo. O segundo foi implantar um Curso de Mestrado em convênio com Faculdade de Medicina da UFBA, que tinha por objetivo preparar o Quadro Docente da Uefs. A professora Anaci Paim, reitora da Uefs, e o professor Naumar Filho, reitor da UFBA, chegaram a assinar um convenio para implantar o Curso de Mestrado. Entretanto, o projeto foi boicotado por alguns professores do Curso de Pós-Graduação da Faculdade de Medicina, diga-se: professora Eliane Azevedo e José Tavares, contrariados em seus interesses pecuniários.

Por fim, o terceiro projeto não foi concretizado foi o do Hospital Universitário. Infelizmente, faltou coragem ao professor Onofre, que em audiência com o Secretário Estadual de Suade, José Antônio Rodrigues, ouviu a concordância do secretario com o projeto elaborado sob nossa coordenação. Faltou coragem e visão estratégica de longo prazo ao então reitor José Onofre Boavista Gurjão de assumir o desafio. Lembro que na audiência na Secretaria de Saúde, a Sesab, em Salvador, na qual além da minha pessoa e do reitor Onofre, encontravam-se presentes o prefeito José Ronaldo de Carvalho e o professor Florentino Carvalho Pinto. Na oportunidade, o secretário José Antônio Rodrigues, além de concordar em repassar mediante contrato em comodato, o HGCA para a Uefs, também ofereceu repassar a Bahia Farma, uma indústria de fármacos controlada pelo Governo do Estado.

Literatura, docência e missão social

EG – O senhor é também presidente da Academia Feirense de Letras. Como concilia a Medicina, a docência e a literatura?
JC – Literatura, Medicina e Docência sempre dialogaram. É essencial que o médico tenha uma formação abrangente e holística para o bom exercício da medicina. Nunca se limitar a saber apenas o meramente
técnico. Por sua vez, nada mais fácil do que ensinar o que você sabe, conhece, domina. Portanto, são campos do conhecimento que dialogam e se complementam.

EG – O trabalho de resgate da literatura local e incentivo a novos talentos é algo que o senhor também enxerga como missão social, assim como foi a criação do curso?
JC – Sim. Vivemos um grande desafio. Estudos apontam que entre o período de 70 e 30 mil anos passados os humanos realizaram uma longa Revolução cognitiva. Nesse longo período aprimoramos a forma de
comunicação, ampliamos o encéfalo e a capacidade de raciocinar. Isso foi vital para a sobrevivência dos sapiens. Atualmente, estamos no caminho inverso, reduzindo nossa capacidade cognitiva. Não raro, em mensagem via WhatsApp, utilizamos esse modelo reducionista ao passar ou receber apenas MEME ou respostas do tipo: KKKKKKKK; AI, AI, AI. O que  não é utilizado, evolui para se atrofiar. Se não estimulamos as conexões neurais estamos caminhado para torná-las desnecessárias.

Universidade pública e experiência privada

EG – O senhor fundou o Instituto de Urologia e Nefrologia (IUNE CLÍNICAS). Como essa experiência na iniciativa privada dialoga com sua trajetória na universidade pública?
JC – Novamente, entendo que esse é um diálogo muito fácil e necessário. Ao longo dos séculos, o médico se tornou um empreendedor. O exercício da Medicina pública como conhecemos hoje é um modelo
recente, dos meados do século XIX. Defendo e sempre defendi que o professor de medicina precisa está no campo assistencial, portanto, desempenhado o papel de ator social no contexto do binômio docente-
assistencial.

Conselhos aos novos médicos

EG – Se pudesse dar um conselho aos jovens médicos formados pela Uefs, qual seria?
JBC – Continuem estudando e aprimorando a formação profissional. Exerçam a arte médica com amor. Lembrem-se que cada paciente é um ser especial, carente de apoio e orientações para minorar sofrimentos ou prevenir agravos. Servir, sempre servir, essa é a razão maior para o exercício da medicina, cuja origem etimológica é do latim ‘mederi’, que significa cuidar, tratar.

Sonhos futuros

EG – E, por fim, qual é o próximo sonho que o senhor ainda quer ver realizado na área da educação ou da saúde?
JC – Na segunda metade da década de 80, tive a oportunidade de começar a trabalhar na implantação do Sistema Único de Saúde (SUS), inicialmente denominado Sistema Único Descentralizado de Saúde
(SUDS). Portanto, no campo da saúde é testemunhar a consolidação do SUS, e ver a UEFS com o seu Hospital Universitário. Na educação, sempre estar ao lado das iniciativas que ofereçam oportunidades educacionais, além de ver os egressos do curso de Medicina da UEFS no exercício da docência, e, paulatinamente, substituindo os pioneiros, além de ver implantada a Universidade Federal de Feira de Santana, que poderá funcionar no atual campus da Universidade Federal do Recôncavo, situado no bairro do SIM, em Feira de Santana. Nesse sentido a Academia Feirense de Letras manifestou seu apoio à proposta de uma universidade federal em nossa cidade.

EG – Parabéns, doutor João Batista, pelo empenho e trajetória. Feira de Santana e a Bahia agradecem.

24/08/25

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