Entrevista 4 de novembro de 2025

O ser humano precisa ver a causa animal com um olhar humano

Empresário, publicitário e produtor rural, Júnior Falcão, 64 anos, fala sobre a urgência de políticas públicas, respeito e empatia na causa animal em Feira de Santana

Amar os animais é, acima de tudo, reconhecer a vida que pulsa em cada olhar silencioso e em cada gesto de afeto gratuito. É compreender que, no mundo que construímos, os mais indefesos continuam sendo os que mais precisam de proteção. Feira de Santana é uma cidade de movimento intenso, de gente trabalhadora e ruas cheias — e, entre esse vai e vem, milhares de cães, gatos, cavalos e jegues buscam abrigo, alimento e um pouco de cuidado.

É nesse cenário que o empresário, publicitário e produtor rural Júnior Falcão, de 64 anos, tem dedicado boa parte de sua vida à defesa da causa animal. Conhecido por sua sensibilidade e firmeza, ele fala com emoção e lucidez sobre um tema que costuma comover corações, mas ainda carece de ações concretas. Nesta entrevista ao Feira Hoje, Júnior fala de suas experiências, do abandono, dos desafios enfrentados pelos protetores e das políticas públicas que a cidade precisa implantar com urgência.

O ser humano precisa ver a causa animal com um olhar humano Empresário, publicitário e produtor rural, Júnior Falcão, 64 anos, fala sobre a urgência de políticas públicas, respeito e empatia na causa animal em Feira de SantanaUm diálogo sincero e inspirador para quem acredita que a forma como tratamos os animais diz muito sobre quem somos como sociedade.

O início da paixão pelos animais

Everaldo Goes (Feira Hoje) – Júnior, como começou o seu envolvimento com a causa animal?

Júnior Falcão – Meu envolvimento vem de muito tempo, cerca de 50 anos. Sempre fui apaixonado por cães, inicialmente por animais de raça, mas com o tempo percebi que todos, sem distinção, têm o mesmo valor. Os animais despertam bondade na gente. Passei a cuidar também de gatos, sariguês e outros bichos que muitos consideram sem importância. Crio animais tanto na cidade quanto na zona rural. Alguns ficam em casas de terceiros, onde pago para que sejam alimentados, vacinados, tratados e castrados até encontrarem um lar definitivo.

O que o motivou a agir

EG – Teve algum episódio marcante que te fez decidir agir em defesa dos animais?

JF – O que me fez agir foi presenciar tantos casos de maus-tratos. Em Feira, cães e gatos estão abandonados e se reproduzindo sem controle. O Centro de Controle de Zoonoses tem bons profissionais, mas falta estrutura. Precisamos de castrações em massa, UTI móvel, transporte adequado e políticas públicas sérias. Também é preciso pensar nos animais de tração, que são explorados e sofrem muito. Já procurei o Ministério Público, mas confesso que não fui ouvido como esperava. Falta sensibilidade e vontade de agir.

A primeira experiência

EG – Você se lembra do primeiro animal que ajudou?

JF – Lembro sim. Foi há mais de cinquenta anos, um cachorro com sarna. Cuidei dele com o que tinha em casa. Coincidentemente, uma família estrangeira que estava em Feira soube da história e o levou para cuidar fora do país. Esse episódio me marcou. Não foi o início da minha militância, mas despertou em mim um amor permanente pelos animais.

Situação dos animais de rua

EG – Como você enxerga hoje a situação dos animais de rua em Feira de Santana?

JF – É trágica. Há cães e gatos vagando, atropelados, feridos, parindo nas ruas. Casos de crueldade são frequentes, e quase sempre ficam impunes. Lembro de um cachorro morto a pauladas em Humildes; nada foi feito, apesar de eu mesmo ter prestado queixa. Existem protetores dedicados, mas são poucos. A solução passa pela castração sistemática e pelo envolvimento da prefeitura. Só assim diminuiremos o sofrimento desses animais e o risco à saúde pública.

Principais problemas

EG – Quais são os principais problemas enfrentados — abandono, maus-tratos, falta de políticas públicas?

O ser humano precisa ver a causa animal com um olhar humano Empresário, publicitário e produtor rural, Júnior Falcão, 64 anos, fala sobre a urgência de políticas públicas, respeito e empatia na causa animal em Feira de SantanaJF – Todos esses. O abandono é enorme. Falta vacinação, e doenças como cinomose, raiva, leishmaniose e esporotricose continuam se espalhando. Muitas delas também afetam o ser humano. A ausência de políticas públicas agrava tudo. Castrar e vacinar é saúde, não apenas para os animais, mas para a população.

Consciência ou descaso?

EG – Você acredita que há mais consciência ou mais descaso por parte da população?

JF – Existe uma minoria consciente, formada por pessoas e grupos que se dedicam de verdade. Mas, infelizmente, a maioria ainda é indiferente. Muita gente não cuida nem das próprias crianças ou idosos, imagine dos animais. Falta educação, campanhas e empatia. Ainda assim, há heróis anônimos que se sacrificam para dar dignidade a esses seres invisíveis.

A importância da castração

EG – Você sempre fala na necessidade de castração em massa. Por que isso é tão importante?

JF – Porque é a única forma de controlar a superpopulação. Animais sem castração se reproduzem rapidamente e passam a vagar em busca de parceiros, aumentando o abandono e os acidentes. Castrar é uma questão de humanidade e de gestão pública responsável.

Estrutura ideal e promessa do hospital veterinário

EG – Que tipo de estrutura seria ideal — uma clínica fixa, um castramóvel, mutirões?

JF – O ideal é ter tudo isso funcionando em conjunto. Um castramóvel, por exemplo, pode atender bairros e distritos. É preciso também garantir um período de recuperação aos animais e manter uma O ser humano precisa ver a causa animal com um olhar humano Empresário, publicitário e produtor rural, Júnior Falcão, 64 anos, fala sobre a urgência de políticas públicas, respeito e empatia na causa animal em Feira de Santanaclínica municipal. O prefeito José Ronaldo, em campanha, prometeu um hospital veterinário público e gratuito. Essa promessa precisa ser cumprida. É uma das ações mais importantes que o governo poderia realizar.

Condições da prefeitura e parcerias possíveis

EG – A prefeitura tem condições de implantar esse serviço de forma ampla?

JF – Tem sim. Pode buscar recursos federais, estaduais e até internacionais, além de parcerias com a iniciativa privada e universidades. O que falta é vontade política e profissionalismo. Outras cidades conseguiram, Feira também pode. Pretendo cobrar isso publicamente — no Feira Hoje, nas rádios e nas redes sociais.

Ambulância pet e resgate

O ser humano precisa ver a causa animal com um olhar humano Empresário, publicitário e produtor rural, Júnior Falcão, 64 anos, fala sobre a urgência de políticas públicas, respeito e empatia na causa animal em Feira de SantanaEG – Como funcionaria uma ambulância pet e por que ela seria importante para Feira?

JF – A ambulância pet é fundamental. Deve existir uma para pequenos animais, como cães e gatos, e outra para animais de grande porte, como cavalos. Esses veículos resgatariam animais atropelados, feridos ou abandonados, evitando acidentes e sofrimento. E é preciso fiscalização para que donos de animais de tração sejam responsabilizados por maus-tratos.

Animais de tração e políticas de cuidado

EG – Além dos domésticos, que cuidados deveriam ser dados aos animais de tração — cavalos e jegues, por exemplo?

JF – Feira precisa de uma baia pública, um espaço adequado para tratamento e vacinação desses animais. Todos deveriam ser identificados, com registro de seus responsáveis. É comum ver animais explorados até a exaustão. A prefeitura deve agir com firmeza, não com medo de perder votos. Respeitar o animal é respeitar a vida.

Cães agressivos e responsabilidade dos donos

EG – Você comentou sobre o aumento de cães com traços de pitbull nas ruas. O que está acontecendo?

JF – Muitos cães com genética de combate estão sendo criados por pessoas sem preparo. O problema não é o pitbull, é o dono irresponsável. Quando bem tratados, são animais dóceis e leais; mas, mal criados, tornam-se perigosos. Já vi moradores de rua com cães fortes e sem controle, o que representa risco para todos. É preciso fiscalização e conscientização.

Riscos para a população

EG – Há riscos para a população?

JF – Há, e grandes. Animais de médio e grande porte, especialmente de raças fortes, devem sair às ruas com focinheira e guia. Isso é lei. Falta fiscalização e punição. Um cachorro pode atacar uma criança em segundos. A prevenção é o caminho.

Controle de criação irresponsável

EG – O que poderia ser feito para evitar que pessoas sem estrutura criem raças consideradas perigosas?

JF – É uma questão delicada. Pessoas sem condições financeiras ou psicológicas não deveriam manter esses animais. O município precisa ter um canil público e recolher cães em situação de risco. Parcerias com fábricas de ração e clínicas podem ajudar a manter o serviço. É uma questão de responsabilidade coletiva.

O que cada pessoa pode fazer

EG – O que cada pessoa pode fazer, mesmo sem dinheiro, para ajudar os animais?

JF – Cada um pode ajudar um pouco. Doar R$ 5, R$ 10, qualquer quantia, já faz diferença. Também é possível apoiar campanhas, compartilhar informações e oferecer abrigo temporário. O que não dá é ficar só reclamando nas redes sociais. A causa animal precisa de atitude, não apenas de discursos.

Respeito e empatia

EG – Que mensagem você deixaria para quem maltrata ou ignora os animais de rua?

JF – Ignorar é uma fraqueza, mas maltratar é crime. Quem faz isso um dia vai responder. O ser humano precisa reencontrar a compaixão. Até os animais criados para o consumo merecem respeito. Nenhum ser vivo deve sofrer desnecessariamente. O homem precisa voltar a ser humano, a sentir empatia. Quando perdemos isso, nos tornamos feras.

Sonho e esperança

EG – Qual é o seu sonho em relação à causa animal em Feira de Santana?

JF – Meu sonho é ver o ser humano mais humano. Que as pessoas olhem para os animais com respeito e ternura, entendendo que todos têm direito à vida e ao cuidado. Quando a sociedade aprender isso, viveremos em um mundo muito melhor.

Feira Hoje, 04/11/25

@feirahoje→www.instagram.com/feirahoje

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