Educação | Universidade | Homenagens 12 de agosto de 2025

Entrevista: José Lima, 40 anos de docência e um legado que transformou a Uefs

Em entrevista especial, o decano e fundador do curso de Direito da Uefs fala sobre sua trajetória, conquistas e a homenagem que recebe em livro organizado por colegas. “O reconhecimento do aluno, o perceber que hoje o aluno sabe mais que a gente, isso não tem preço. Isso enche o coração de alegria”

Quarenta anos de docência não se medem apenas em datas ou números, mas no impacto que um professor deixa na vida de seus alunos, colegas e na própria história da Instituição que ajudou a construir. José Lima de Menezes, decano da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs), é mais que um nome na lista de fundadores do curso de Direito — é parte viva da identidade da Universidade. Mestre em Direito, auditor fiscal, educador e referência ética, ele acompanhou a Uefs desde os anos 1980, quando ainda lecionava no curso de Ciências Contábeis, até liderar a implantação e a coordenação do curso de Direito, formado sob a premissa de unir excelência acadêmica e compromisso social.

Em 2025, esse legado ganha um tributo especial: o lançamento do livro ‘Julgados Emblemáticos do STF e do STJ’, organizado pelo professor Agenor Sampaio Neto, com a participação de docentes e ex-alunos, em homenagem à sua trajetória. Para marcar o momento, José Lima concedeu uma entrevista inédita ao jornalista Everaldo Goes, do Feira Hoje, e ao próprio Agenor Sampaio Neto. Entre memórias, reflexões e emoções, ele revisita sua história, fala sobre o significado de lecionar por quatro décadas e comenta o sentimento de ver seu trabalho reconhecido em vida.

Primeiros passos na Uefs

Everaldo Goes – O Senhor chegou à Uefs nos anos 1980. Quando olha para trás, qual foi o primeiro sentimento ao pisar pela primeira vez na Universidade?
José Lima – Pisei pela primeira vez na Uefs ainda como aluno do curso de Ciências Contábeis. Naquele tempo, uma graduação era coisa de luxo, disponível para poucos. Eu tinha muita vontade de fazer universidade, mas não tinha condições materiais de morar e estudar na capital. A Uefs abriu horizontes. Então o meu sentimento, na ocasião, foi de muita esperança de realização de sonhos e de transformação de vida. Depois, tive a oportunidade de me tornar professor. Alegria indescritível.

O desafio de lecionar

EG – O que o levou, naquele momento, a aceitar o desafio de lecionar, vindo de uma carreira já consolidada como auditor fiscal?
JL –  O professor, quando cumpre bem seu dever, promove outras vidas. Ajuda a transformar vidas. Tenho grande alegria quando encontro ex-alunos, que hoje são referências na profissão que escolheram, e eles me cumprimentam com gratidão. O salário cai no bolso. Mas o reconhecimento do aluno, o perceber que hoje o aluno sabe mais que a gente, isso não tem preço. Isso enche o coração de alegria.

Da Contabilidade ao Direito

Professor Agenor Sampaio, organizador da obra

EG – Depois de formado em Ciências Contábeis e já atuando profissionalmente, o que o levou a dar um novo passo e cursar Direito?
JL – Eu sempre quis cursar Direito, mas nunca pude, porque não tinha condições financeiras de estudar na capital. Tinha também que trabalhar para ajudar na manutenção da casa. E tinha que ser em Feira de Santana. Deus, que escreve certo em linhas tortas, pôs a Contabilidade no meu caminho, para criar outras possibilidades para a minha vida. Meu primeiro emprego foi num escritório de contabilidade. Alí, comecei como office-boy. Mas tinha muita vontade de progredir. Curioso, bisbilhotava o que os outros faziam, perguntava como e por quê. Aprendi, assim, auto didaticamente, todo o processo de classificação e registro contábil das empresas. Naquele tempo não havia computadores disponíveis como hoje. A máquina mais avançada era uma Audit 1513, produzida pela Olivetti. Na verdade, uma máquina de datilografia acoplada com dois somadores, o que facilitava o registro dos saldos, após os lançamentos a débito e a crédito. Mas era muito cara. Em Feira, havia duas nos bancos e uma na tradicional empresa S//A. João Marinho Falcão. O dono do escritório resolveu importar uma Audit da Argentina. Todos ficaram empolgados. Diziam que a máquina só faltava falar. Mas não havia operadores. Nos intervalos do almoço, eu lera o manual. Numa tarde de sexta-feira, eu disse: Chefe, eu sei operar a máquina. O chefe, então, mandou que eu demonstrasse. Assim o fiz e fui promovido de office-boy a operador de máquina contábil.

Fiz o curso técnico de Contabilidade (depois de já ter concluído muito bem o curso clássico, no qual estudei a história de Roma em latim). Chegou a Uefs com três cursos noturnos: Ciências Contábeis, Administração e Ciências Econômicas. Tornou-se possível para mim fazer um curso universitário. Continuava sonhando em estudar Direito. Trabalhando em escritório de contabilidade, lidava sempre com os auditores de então, os fiscais de rendas do Estado, considerados príncipes. Eu lhes prestava toda assistência com a documentação e informações. Alguns se afeiçoaram a mim e me incutiram a ideia de fazer concurso para a Secretaria da Fazenda. Estava concluindo o curso de Ciências Contábeis, quando fui aprovado nos primeiros lugares no concurso de Fiscal de Rendas. Foi como ganhar um prêmio da loteria. Galguei um patamar de salário que me permitiria cursar Direito, pagando faculdade particular. Deus escreve certo por linhas tortas. A Contabilidade me levou ao Direito.

Implantação do curso de Direito

Agenor Sampaio –  A criação do curso de Direito teve o senhor como um dos líderes. Quais foram os maiores desafios – as maiores vitórias- desse processo?
José Lima Não fui um dos líderes. A grande liderança foi da obstinada reitoria Anaci Bispo Paim. Fui apenas um colaborador. Na ocasião foi formada uma comissão professores para estudar a viabilidade da implantação do curso de Direito, que era de muito reclamado pela comunidade. Fiz parte dessa comissão, presidida pelo brilhante mestre Luís Henrique de Castro Marques. O primeiro desafio foi o de elaborar um relatório que demonstrasse, além da necessidade, a viabilidade de um curso jurídico numa cidade do interior do Nordeste. Enfrentamos oposição de muitos segmentos da comunidade externa, notadamente da parte de advogados. O segundo desafio foi o de construir um projeto de curso coerente e em acordo com as novíssimas diretrizes do ensino jurídico para o País. Aí já foi uma segunda comissão, assessorada pelo ilustre Professor Horário Wanderley, mentor intelectual da Portaria Ministerial que introduziu profundas modificações no ensino jurídico brasileiro. Novamente escrevendo por linhas tortas, Deus fez com que eu fosse designado primeiro coordenador do curso, depois de ter recebido a comissão do MEC para análise do projeto. In illo tempore, mestres e doutores em direito, por aqui, eram coisa raríssima. Precisávamos de ter professores com elevada qualificação. Para vencer esse novo desafio, contamos com parceria da Universidade Federal de Pernambuco, além do apoio e incentivo da incansável reitora Anaci Paim. Conseguimos trazer o mestrado daquela Universidade para dentro da Uefs. Foi formada uma turma com, se não me engano, uns dez mestres. Assim, o curso já começou muito bem qualificado.

Nessa trajetória, a Uefs entregou à sociedade excelentes juízes, promotores, delegados federais e estaduais, procuradores da República, brilhantes advogados.

O curso prossegue, com seus professores e alunos muito atentos à realidade social brasileira. Vem aí, já, o primeiro Mestrado em Direito da Uefs Daí sairá muita produção científica relevante para o aperfeiçoamento da sociedade brasileira.

Primeira coordenação do curso

AS – Como foi ser o primeiro coordenador do curso? O senhor se lembra de alguma decisão ou marcante naquele início?

Atividades com estudantes do curso de Direito da Uefs


JL – Houve um momento em que se discutiu, no Consepe (Conselho Superior de Ensino, Pesquisa e Extensão), se o curso seria oferecido pelo dia, ou pela noite. Defendi, no Consepe, o oferecimento do curso no turno noturno, para que fosse viável aos trabalhadores ganhar o pão de dia e fazer um curso de elite durante a noite. Gastei um pouco de meu juízo para convencer alguns conselheiros, que, em nome da qualidade, entendiam que aprender direito requer dedicação maior e teria que ser no turno matutino, ou vespertino. Gostei muito de ter vencido a minha proposta. Muitos meninos pobres, trabalhadores, puderam estudar Direito na Uefs e se tornarem pessoas importantes hoje no cenário jurídico estadual e até nacional.

O legado do curso

AS – Em 25 anos de curso, a Uefs formou mais de 2 mil bacharéis. Quando vê esse legado, o que sente como professor e como cidadão.
JL – Mais do que formar essa quantidade de bacharéis, a Uefs propiciou a essas pessoas a oportunidade de, pelo saber, qualificarem suas vidas e agigantarem o sentido de suas existências. A Uefs é necessária. A Uefs é imprescindível. Como professor, já em fim de carreira, sinto que meus alunos sabem mais que eu. Como cidadão, sou grato à Uefs, que me abriu as portas para a inclusão social. Tudo que eu tenha feito, por melhor que tenha sido, ainda é pouco. Se me fosse possível, teria dado mais de mim.

O ato mágico de ensinar

EG – O senhor costuma dizer que ensinar é um ato mágico. Como manter essa magia viva diante das dificuldades do ensino público no Brasil?
JL – Essa magia depende mais de ser vocacionado. É o sentir-se vocacionado que faz o indivíduo encarar o trabalho enquanto missão. Assim o trabalho, antes de ser busca pelo dinheiro, é fator de realização humana. Ninguém pode ser professor apenas como profissão.

É preciso encarar o saber como possibilidade de sentido existencial.

Histórias que marcam

EG – Muitos ex-alunos hoje são juízes, promotores, professores. Tem alguma história de ex-aluno ou ex-aluna que o senhor guarda no coração?
JL – Todos os que foram meus orientandos me fizeram sentir muita alegria e orgulho.

Compromisso social do curso

EG – O curso de Direito da Uefs nasceu com um forte compromisso social. O senhor acredita que esse compromisso segue vivo?
JL – Sim. Esse compromisso está mais vivo do que nunca. Os professores do curso estão cada vez mais empenhados em programas de extensão e de pesquisa aplicada, o que traduz um compromisso de produzir para a melhoria da vida, para todos.

Mais que ensinar leis

EG – Para o senhor, ensinar direito exige mais que saber a lei: exige compreender a vida. Como despertar esse olhar nos jovens estudantes?
JL – Acredito numa metodologia que implique em conversar (não ensinar) com os estudantes acerca dos problemas da vida. Depois conversar com eles sobre como resolver os problemas da vida. Depois tentar resolver, com eles, alguns problemas da vida. MENOS ERUDIÇÃO e MAIS COMPREENSÃO.

Mudança no perfil dos alunos

EG – A nova geração chega com outros interesses, outra linguagem. Como foi, para o senhor, acompanhar essa mudança de perfil dos alunos ao longo das décadas?
JL – O professor precisa ter consciência de que ensinar não é fazer a cabeça dos alunos. Não é doutrinar. É, primeiro, amar os alunos. O amor pelos alunos deve levar o professor a lhes apresentar o mundo e promover oportunidade para obterem compreensão do significado de cada fenômeno em relação ao ser humano, à vida e à liberdade. Linguagem deve ser clara, o que não significa ser rasteira.

Uma homenagem especial

EG – Agora, em 2025, seus colegas lançam um livro com julgados emblemáticos do STF e STJ -organizado pelo professor Agenor Sampaio – como homenagem à sua trajetória. Como o senhor recebeu essa notícia? O que representa essa homenagem depois de 40 anos dedicados à docência?
JL – Recebo a homenagem com bastante humildade e imensa gratidão. Humildemente, reconheço que sou ainda um aprendiz de muitas coisas. Gratidão a Deus que me deu muitos amigos na Uefs. Ser amigo fraternal é muito enriquecedor. Está muito além de ser colega. Gratidão ao professor Agenor Sampaio, esse amigo fraternal cujos olhos de generosidade o fazem enxergar, neste modesto companheiro, alguma aptidão para ser destinatário da honraria. Guardarei com carinho, sempre. Sua amizade, saiba, é um dos muitos tesouros que a Uefs me proporcionou.

Mensagem a novos professores

AS – Por fim, o que o senhor diria a um jovem professor ou professora que está iniciando agora sua jornada no ensino superior público?
JL – Busque as virtudes. Dentre elas, capriche na humildade, que é própria dos sábios. Ame o que faz. Mais do que ser professor, seja aprendiz.

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@feirahoje

Feira Hoje, 09/08/25

Atualizada 12/08/25

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