Especial / História e Memória 11 de setembro de 2025

O drama de dois feirenses em Nova Iorque no 11 de Setembro

Memórias do ataque ao World Trade Center que seguem vivas

Na ocasião dos 20 anos do atentado às Torres Gêmeas, em 2021, o jornalista Everaldo Goes, do Feira Hoje, e o radialista Elsimar Pondé, do programa Transnotícias, da Rádio TransBrasil, produziram uma entrevista com dois feirenses que testemunharam de perto aquele dia sombrio em Nova Iorque.
Davi Estrela Coutinho e José Petilo Mota estavam nos Estados Unidos quando o mundo assistiu, ao vivo, ao maior ataque terrorista da história. O material, transmitido no rádio, retorna agora em forma de reportagem especial, às vésperas dos 24 anos da tragédia.

Um cliente que salvou uma vida

Davi Estrela Coutinho trabalhava como motorista de limusine em Manhattan. Na noite de 10 de setembro de 2001, um cliente o contratou para uma corrida longa até a Pensilvânia. A viagem se estendeu pela madrugada e Davi só voltou para casa por volta das quatro da manhã. O cansaço o impediu de sair cedo para o trabalho no dia seguinte, quando deveria estar nas proximidades das torres gêmeas.

José Petilo e Davi Coutinho

“Por volta das nove horas, meu celular tocou. Era um colega brasileiro, o Rey, que também era motorista. Ele disse: ‘Baiano, liga a televisão’. Foi quando vi o replay do primeiro avião se chocando contra a torre. Ainda pensei: o piloto vacilou. Mas, logo depois, ao vivo, vi a segunda aeronave bater. Foi um choque”, contou.

Pouco depois, caiu o sinal tanto do celular,  quanto do telefone fixo. A empresa de transporte para a qual trabalhava o orientou a não sair de casa e se abastecer de alimentos. “Quando ouvi caças voando baixo, pensei que estava começando uma terceira guerra mundial. Lembrei da minha filha, que estava no Brasil, e chorei achando que nunca mais iria vê-la.”

O pânico nas ruas e o silêncio em casa

Enquanto isso, José Petilo Mota iniciava mais um dia de trabalho em Nova Iorque. Ele fazia manutenção em prédios,  apartamentos e residências;  só soube da colisão ao chegar na casa de um cliente. “Achei que fosse um acidente com avião pequeno. Quando vimos o segundo choque pela televisão, parecia replay. Logo o patrão mandou parar tudo, guardar as máquinas e ir para casa.”

Petilo recorda a angústia: “As ruas estavam cheias de rostos perplexos, ninguém acreditava. Cheguei em casa e encontrei minha esposa chorando, com medo de sermos deportados, mesmo estando legalizados. Ficamos quatro dias sem sair de casa. Só depois consegui avisar minha família em Feira de Santana de que estava vivo.”

O pesadelo continua

Passados os dias de choque, veio a dura rotina do medo e da incerteza. O trabalho escasseou, a cidade perdeu o ritmo. Davi descreveu: “Antes, eu ligava o computador às cinco da manhã e já tinha corrida. Depois do ataque, só aparecia pedido às duas da tarde. Nova Iorque perdera o brilho. Bin Laden parecia ter atingido o objetivo: mexer com a cabeça das pessoas. Muitos não queriam mais trabalhar em prédios altos.”

A hostilidade contra muçulmanos também foi marcante. “Os motoristas de táxi cortaram barba e tiraram turbante, com medo de represálias. Os carros eram parados e revistados pelas forças armadas. Foi muito duro para eles”, relatou Davi.
Já para latinos, segundo os dois, o impacto foi menor. “No nosso caso, quatro semanas depois voltamos a trabalhar normalmente, sem discriminação”, lembrou Petilo.

Velório só com o capacete

Entre as memórias mais dolorosas, Petilo recorda a cena de um funeral vizinho: “O marido era bombeiro. O velório foi só com o capacete dele, porque não encontraram o corpo. Imagine isso. Um velório só com o capacete. São coisas que não dá para esquecer.”

O comerciante resume em uma frase o sentimento que ainda o acompanha: “É um pesadelo que não acabou.”

Duas décadas depois

Vinte anos após o atentado, quando concederam a entrevista à Rádio TransBrasil, o trauma ainda era evidente. “Procuro não pensar, mas sempre algo me faz lembrar”, disse Davi. “Se aquele avião tivesse batido mais tarde, em horário de maior  movimento, seriam 30 mil mortes.” Ele também não esquece os clientes que perdera: “Tinha um passageiro, Mister William, que eu levava sempre às torres. Infelizmente não conseguiu sair.” E relembra, sobre o passageiro: “uma figura; entrava no carro, pedia música clássica, tirava os sapatos e deitava no banco”.

Zé Petilo também não consegue apagar da memória o que viu: “Até hoje sinto tristeza por pessoas que morreram sem culpa de nada. Parece que foi ontem. O terrorismo tira de você a liberdade. Mas também aprendi com o povo americano o sentido de união e patriotismo.”

O pesadelo que não terminou

Davi e Petilo sobreviveram ao 11 de Setembro, mas carregam até hoje as cicatrizes emocionais daquele dia. Para eles, a lembrança permanece viva e dolorosa.
Como resume Davi: “Eu poderia estar lá, perto das torres. Deus sabe o que faz.”
E, nas palavras de Petilo: “O velório só com o capacete… É um pesadelo que não acabou.”

Hoje vivem com as famílias na Bahia, onde constroem novas histórias — mas guardam no coração a memória de um dia que o mundo inteiro gostaria de esquecer.

Everaldo Goes / Feira Hoje 

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@feirahoje

07/09/25

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