Feira em Memória 19 de setembro de 2025

Cuca: 30 anos semeando arte e iluminando Feira de Santana

Centro Universitário de Cultura e Arte chega às três décadas como patrimônio vivo da cidade, unindo memória, pesquisa e produção cultural; prédio tem 110 anos, construído originalmente para abrigar centro escolar

Cuca 30 Anos Capa Feira Hoje 1985

 

A ousadia que deu origem ao Cuca

Nesta segunda-feira, 15 de setembro de 2025, completam-se 30 anos de um marco na história cultural da cidade. Em 1995, o Jornal Feira Hoje estampava na capa a manchete “Feira ganha importante centro de cultura”. A reportagem anunciava a inauguração do Centro Universitário de Cultura e Arte (Cuca), instalado na antiga Escola Normal, na Rua Conselheiro Franco, com investimento de R$ 2 milhões do Governo do Estado.

À época, o reitor da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs), Josué da Silva Mello, expressava a expectativa de que o novo espaço desse “uma nova dimensão à vida cultural de Feira de Santana” (assista à entrevista no final desta reportagem).

Três décadas depois, não há dúvida de que a promessa foi cumprida e superada. O Cuca se tornou um farol de arte, formação e memória, irradiando cultura para toda a região.

Acervo Cuca

A trajetória começa com uma dose de ousadia e um impasse improvável. “É muito caro e eu não vou fazer”, disse o governador Antônio Carlos Magalhães. “Então eu leiloo as obras do Museu”, rebateu o reitor Josué Mello. O diálogo terminou com a decisão: “Não é preciso chegar a esse extremo. A obra sairá”.

Visionário, Josué Mello não apenas idealizou o Cuca como lutou por ele. Depois de deixar a reitoria, tornou-se o primeiro diretor do centro, acompanhando de perto o florescimento de sua criação.

Um prédio que guarda a história de Feira

O Cuca está instalado em um prédio que por si só é um monumento. Construída há 110 anos, em 1915, como Grupo Escolar J. J. Seabra e transformada em Escola Normal em 1927, a edificação de estilo eclético reúne traços barrocos, clássicos e art-nouveau.

Praça da Catedral (Matriz) e o prédio da então Escola Normal de Feira de Santana, anos 1930, atual Centro Universitário de Cultura e Arte (Cuca). Imagem: domínio público.

Nesse espaço, formaram-se gerações de professoras que simbolizaram uma mudança social profunda. Em seu doutorado, a professora Ione Celeste de Sousa mostrou como a Escola Normal foi mais do que um centro de formação pedagógica: ela moldava “agentes do progresso da nação”. Entre 1925 e 1945, as chamadas “garotas tricolores, deusas fardadas” desfilavam pelas ruas da cidade exibindo vestidos novos e discutindo livros, sinalizando uma nova condição feminina que extrapolava o espaço doméstico e projetava no magistério a missão de levar “a luz do saber aos sertões”.

O Museu Regional de Arte: um tesouro internacional

Se o casarão é a alma, o Museu Regional de Arte (MRA) é o coração do Cuca. Criado em 1967 com apoio de Assis Chateaubriand, foi o segundo museu regional do país. Sua inauguração contou com a presença de Chateaubriand, Di Cavalcanti e até do embaixador britânico no Brasil.

O MRA abriga uma coleção única na América Latina: a Coleção Inglesa, formada por 30 telas de artistas modernos do Reino Unido adquiridas por Chateaubriand em Londres. O acervo inclui ainda obras de modernistas brasileiros como Di Cavalcanti e Vicente do Rego Monteiro, além de coleções Naïf, Nipo-Brasileira e trabalhos de artistas baianos e feirenses de projeção internacional.

Após períodos de precariedade e até saques, o museu foi incorporado pela Uefs em 1985 e, finalmente, ganhou sede definitiva no Cuca em 1995.

 

Restauração e novos tempos

Entre 2011 e 2015, sob a gestão do reitor José Carlos Barreto de Santana, o prédio do museu foi submetido a uma restauração minuciosa, acompanhada pelo IPAC, enquanto cada obra do acervo recebia cuidados de preservação. Em 2015, as portas se abriram novamente, não apenas para um espaço renovado, mas para um centenário que se reinventava: cem anos após sua inauguração original, o prédio renascia como guardião da memória cultural de Feira de Santana.

O Cuca hoje: cultura em movimento

Atualmente, o Cuca é um complexo cultural múltiplo. Sua programação inclui:

  • Museu Regional de Arte (MRA): guardião do acervo histórico e de exposições temporárias.
  • Galeria Carlo Barbosa: vitrine para artistas locais e regionais.
  • Oficinas de Criação Artística (OCA): estímulo às artes visuais para iniciantes e profissionais.
  • Seminário de Música: formação e preservação da tradição musical feirense.
  • Oficinas de Dança e Teatro: espaço de formação em artes cênicas, sempre com grande procura.
  • Biblioteca Setorial Pierre Klose: referência em artes e pesquisa.

Programas como a Universidade Aberta à Terceira Idade e eventos como o Festival de Sanfoneiros e o Aberto consolidaram o centro como polo de democratização cultural e inserção social.

Trinta anos iluminando Feira de Santana

O legado do Cuca se revela diariamente: no estudante que pega uma viola pela primeira vez, na criança fascinada diante de uma tela de Di Cavalcanti, no grupo de teatro que ensaia em seu palco histórico.

Trinta anos depois, o centro cultural confirma a promessa feita em 1995. Ao iluminar Feira de Santana, o Cuca prova que a arte é o mais poderoso instrumento de transformação que uma universidade pode oferecer à sua comunidade.

Everaldo Goes / Feira Hoje

Assista ao depoimento de Josué Mello, reitor da Uefs (1991-1995)

14/09/25

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@feirahoje

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