Feminicídio: o corpo como território de poder
Após o feminicídio brutal de uma mulher em Serrinha, o professor Adalberto Nunes reflete sobre o perfil psicológico do agressor e a estrutura que sustenta a violência contra mulheres
Mais uma mulher foi assassinada brutalmente, e enquanto dormia. O crime foi na madrugada dessa quarta-feira (25), na cidade de Serrinha, vizinha de Feira de Santana. Ela tinha 60 anos. O companheiro, 42. A brutalidade do método — golpes de enxada — retira qualquer ilusão de descontrole momentâneo. Dormia, ela. Provavelmente, em paz. Ele, acordado, decidiu matá-la.
Há quem chame de tragédia, quem diga que “foi por ciúme”, ou que “a relação era conturbada”. Repetem-se as fórmulas do silêncio. Mas é preciso ir além do espanto passageiro e nomear com clareza: o que vimos foi mais um feminicídio — o assassinato de uma mulher por ser mulher, por não mais se submeter, por ousar envelhecer, existir, escolher, recusar.
Estamos diante de uma lógica muito antiga, quase invisível de tão repetida: o corpo da mulher como território a ser dominado. Como se o parceiro tivesse posse vitalícia sobre ela. E a separação, a discordância, ou até o silêncio, fossem crimes imperdoáveis aos olhos desse domínio. A brutalidade é apenas o desfecho de uma estrutura sustentada por ideias, práticas e permissões sociais.
A pergunta que muitos se fazem, calados ou em voz alta, é: que tipo de homem mata uma mulher com quem conviveu? O perfil, embora diverso, tem traços comuns: são homens com profundo medo da perda de controle, que veem a companheira não como alguém, mas como algo — uma extensão de si mesmos. Quando ela deseja ir embora ou viver de outro modo, isso não é visto como escolha legítima, mas como desobediência.
Frequentemente, apresentam ciúme patológico, comportamento possessivo, intolerância à frustração, e, em muitos casos, traços de personalidade narcísica ou paranoide. Mas não se enganem: não se trata de loucura no sentido clínico. A maioria desses homens sabe exatamente o que está fazendo. O que os move é a ideia de que “se não for minha, não será de mais ninguém” — uma frase dita antes de tantos crimes.
Há também o que não se vê nos laudos: a formação afetiva e simbólica baseada no machismo estrutural, que ensina desde cedo que homem “manda”, que mulher “obedece”, que rejeição é insulto, e que reagir com violência é prova de virilidade.
O feminicídio é o ponto final de um longo parágrafo de silenciamentos. Começa quando se ri da mulher que pensa, se invalida a que fala, se desconfia da que denuncia. Continua quando não se dá crédito à sua palavra, nem se oferece abrigo quando ela foge.
Não conheço o nome da mulher que morreu em Serrinha. Mas ela existia. Talvez fosse mãe, avó, vizinha querida, uma mulher como tantas. E como tantas, será lembrada como estatística, a menos que se quebre o ciclo. Que se escute as mulheres antes que elas sejam caladas. Que se questione a masculinidade que mata. Que se reeduque os afetos.
O machismo é uma herança maldita que naturaliza o poder desigual. Mas herança não é destino. E enquanto pudermos escrever, falar, denunciar — estaremos lutando contra esse destino.
*Adalberto Nunes é professor aposentado, colunista eventual e colaborador do Feira Hoje. Escreve sobre comportamento, sociedade e memória.
Feira Hoje, 26/06/25




