Quando o copo contém risco: como bebidas adulteradas com metanol chegam à mesa do consumidor
Casos recentes revelam rede de falsificação de destilados em bares e restaurantes, alvo de investigação federal; OMS reforça que o consumo ideal de álcool é zero
Nas últimas semanas, surgiram alertas de intoxicação por metanol em diferentes estados do Brasil. Em São Paulo, ao menos três mortes foram confirmadas, e dezenas de pessoas apresentaram sintomas graves após consumir bebidas alcoólicas clandestinas. O governo federal montou uma força-tarefa para investigar a origem desses produtos e rastrear a rede que abastece bares e restaurantes com destilados falsificados.
Diferentemente de casos anteriores, que atingiam grupos restritos ou bebidas de fundo de quintal, a nova adulteração mostra uma logística mais sofisticada. As vítimas não compraram garrafas de aparência suspeita, mas consumiram em estabelecimentos comerciais aparentemente regulares. Os sintomas — náusea, vômito, dores de cabeça e, em casos graves, perda da visão — indicam a presença de metanol, um solvente industrial altamente tóxico.

OMS reforça que o consumo ideal de álcool é zero
Rede criminosa e rota do metanol
A Polícia Federal apura se o metanol usado na adulteração é importado irregularmente ou desviado do mercado legal. Especialistas acreditam que a contaminação não ocorre por simples adição deliberada de grandes quantidades, mas sim pelo uso de solventes ou etanol adulterado, que já chegam ao produtor clandestino com traços de metanol. Dessa forma, o risco se espalha de maneira menos evidente, dificultando a identificação imediata e prolongando a operação criminosa.
Em resposta, o Ministério da Saúde e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária emitiram notas técnicas para orientar hospitais e profissionais de saúde sobre o diagnóstico e o tratamento da intoxicação. Procons e secretarias estaduais de saúde intensificaram a fiscalização em pontos de venda. A ação conjunta pretende frear uma cadeia criminosa que expõe consumidores a risco de morte.
Como a bebida adulterada chega ao consumidor
A rota envolve diferentes elos: produtores clandestinos compram insumos no mercado paralelo, utilizam álcool de procedência duvidosa ou solventes destinados a outros fins e transformam em destilados que imitam cachaça ou vodka. Esses produtos são envasados sem rótulo regular ou selo fiscal, distribuídos por canais informais e acabam em bares e restaurantes. Como a aparência é semelhante à de bebidas legais, o consumidor não percebe a adulteração até que os sintomas apareçam.
O metanol, mesmo em pequenas quantidades, pode causar cegueira irreversível, lesões neurológicas ou morte. Como os primeiros sintomas se confundem com os de uma ressaca, o diagnóstico costuma ser tardio. Por isso, a recomendação é clara: só consumir bebidas com procedência garantida, registro no Ministério da Agricultura e rótulo fiscal. Estabelecimentos devem exigir fornecedores certificados, e qualquer suspeita deve ser comunicada à Vigilância Sanitária.
Organismos internacionais de saúde, como a Organização Mundial da Saúde (OMS), ressaltam ainda que o consumo ideal de álcool pelo ser humano deveria ser zero.
Santo Amaro, 1990: um caso emblemático
Em 1990, Santo Amaro da Purificação, na Bahia, foi palco de um episódio trágico conhecido como “cachaça da morte”. Pelo menos 35 pessoas morreram após consumir aguardente clandestina misturada com metanol. O caso marcou a história da saúde pública no estado e serve de alerta permanente sobre os riscos das bebidas sem registro oficial.
Everaldo Goes / Feira Hoje
03/10/25




