Arte e Cultura 7 de setembro de 2025

Assemblage no Parque da Cidade revela a arte orgânica de Taurino Araújo

Poeta e jurista baiano transforma folhas, galhos e flores caídas em composições efêmeras que sobrevivem pela fotografia

No Parque da Cidade Joventino Silva, em Salvador, entre o chão úmido, folhas secas e galhos esquecidos, nasce o gesto silencioso de um artista que escuta o tempo. Taurino Araújo, poeta e jurista reconhecido internacionalmente, atravessa fronteiras da palavra para a imagem, criando composições visuais que resgatam a beleza do que o olhar comum costuma ignorar.

A Série Assemblage, desenvolvida por ele, é feita de encontros mínimos: uma flor caída, uma semente deslocada, um verde que se apaga. Esses elementos, recolhidos ao acaso, transformam-se em linguagem visual, em arranjos efêmeros que revelam poesia naquilo que parece estar prestes a desaparecer. A fotografia, nesse processo, atua como guardiã da memória.

A arte como rito de escuta

Mais do que uma prática estética, o trabalho de Taurino é um rito de escuta ao mundo. Cada folha se converte em palavra não dita, cada galho em traço de infância ou ruína. O chão se torna tela, e a fotografia, testemunha. Suas composições se alinham a tradições da land art e da arte povera, mas carregam a marca singular de um artista que transforma o instante em permanência.

Além de poeta e artista visual, Taurino Araújo é jurista, crítico literário e professor, com uma vasta produção intelectual que transita entre o Direito, a filosofia, a história e a literatura. Autor de livros e reconhecido por sua atuação cultural, ele insere sua obra na tradição da natureza-morta expandida, elaborando uma poética que é, ao mesmo tempo, denúncia e encantamento.

 

Reconhecimento internacional

Recentemente, Taurino passou a integrar o askART, um dos mais importantes diretórios internacionais de artistas visuais. Sua entrada nesse acervo simboliza não apenas uma conquista pessoal, mas a afirmação da potência cultural produzida no interior da Bahia e projetada para o mundo. Em suas assemblages, a arte não se destina a durar — mas a tocar. Quem observa não vê apenas folhas, mas gesto, memória e rereencantamento. É uma afirmação simbólica da força imagética da política cultural produzida fora do eixo Rio-São Paulo.

Elementos-chave da imagética de arte de Taurino Araújo

• Assemblage orgânica: montagem livre com elementos naturais, sem colagem ou fixação permanente — o que evoca a impermanência da vida.

• Natureza-morta pós-moderna: subversão do gênero tradicional ao usar materiais deteriorados, realçando o “belo no gasto”, o “vivo no que murcha”.


• Estética do intervalo: o espaço entre os elementos não é vazio, Taurino os coloca no campo de tensão e silêncio — tal como na poesia visual.
• Cromatismo simbólico: a paleta sugere estações, estados de alma, territórios afetivos — os vermelhos lembram sangue ou fruto; os verdes, nascimento; os pretos, silêncio ancestral, os terrenos lembram o pragmatismo e as pisadas de Taurino no Sertão.

• Composição intuitiva e ritual: as obras Taurino Araújo se parecem com pequenos rituais de passagem ou oferendas visuais — arte devocional sem dogma.

Assemblage

Taurino Araújo, Ph.D.

A minha arte,
visual,
no chão —
não pintei com tinta:
pintei com as cores
que o mundo
deixou cair.
Remontagem.

Folhas que foram sombra,
galhos que foram abrigo,
sementes sem destino
que aceitaram
virar enfeite de vento —
e eu,
vendo e catando,
tecendo aquarela,
fazendo beleza
com o que sobra.

Não assinei com nome:
juntei pedaços
em silêncio.
O tempo, meu pincel.
A luz, moldura.
Nome francês,
jeito tão baiano,
gesto ancestral:
assemblage.
Criei sobre o chão,
sem pedir licença —
mas com reverência.
Cada folha recolhida
trazia um eco.
Cada galho,
um segredo velho.
Cada flor seca,
um sim sussurrado
ao fim da estação.

Cor resgatada,
natureza-morta,
forma reanimada.
Fotografei
para que não morresse
tão depressa.
Formas remontadas,
respiro da terra.

Um instante de ordem
no caos das folhas.
Um altar improvisado
para o que a pressa
não percebe:
oração silenciosa
com nervuras tortas
e esquecido pólen.

Porque o chão foi tela,
o instante, tinta,
a memória, moldura,
e o gesto —
pura permanência
do que sempre passa.
É gesto e compaixão.
É colagem da alma.
É filosofia do toque
que ainda floresce
mesmo depois do fim.

É dizer com flores secas
o que nenhuma flor fresca
tem coragem.
É escutar o mundo
depois da queda,
e responder com garra,
triunfar com arte.

Uma cidade por dentro

Porque sou
o que ninguém vê inteiro
sou uma cidade por dentro:
muro pichado,
ambulante vendendo esperança.

Carrego calçadas gastas,
pontes quebradas
e um construir de balsas,
com as quais atravessei
o Rio da Prata,
um centro antigo
onde moro menino,
e um bairro novo
tão surpreendente.

Na cidade que sou,
há estação vazia,
e um anúncio de sonho
colado num poste.

Dentro de mim,
cidade e CEP,
há uma praça onde descanso
tudo o que me pesa.

E também há samba.
E barulho de feira.
E um café no ponto
dos batuques.

Minha alma tem periferias,
minha voz tem vielas,
meu silêncio,
um prédio de quinze andares
todos acesos, reluzindo.

Dentro de mim
há viadutos e becos,
a maior avenida do mundo
e um trânsito que não para.

07/09/25

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