Relação entre zika e aborto divide entidades ligadas à Igreja
À Adital, Dom Roberto Francisco Ferreria Paz, bispo referencial nacional da Pastoral da Saúde, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), avalia o contexto do zika no país e as ações do governo para combater o vírus. De acordo com o bispo, por um lado, se constatam a consciência e a periculosidade da epidemia. “A vontade de uma articulação de todos os segmentos da nação: poder público, setor privado e a sociedade civil”. No entanto, Paz aponta a falta de uma visão holística sobre a saúde preventiva, que denota o “despreparo e a improvisação”.

Segundo Dom Roberto Francisco Ferreria Paz, bispo referencial nacional da Pastoral da Saúde, é possível e viável uma criança com as limitações da microcefalia desenvolver e levar sua existência, como outras síndromes e doenças.
Sobre a orientação de órgãos internacionais, como a Organização das Nações Unidas (ONU), que recomendou o aborto em caso de microcefalia, o bispo destaca que o posicionamento da Pastoral é “totalmente contrário”, primeiro por lesar diretamente o direito do nascituro, segundo, por configurar um diagnóstico precipitado, que não considera os procedimentos terapêuticos em relação à microcefalia. E por ainda não ter sido comprovada uma relação nítida de causa-efeito zika-microcefalia.
“Está claro, além disso, que é possível e viável uma criança com as limitações da microcefalia desenvolver e levar sua existência, como outras síndromes e doenças, pois, a ideologia da eugenia e da saúde perfeita é claramente perversa, eletista e anti-humana”, defende Paz.
O bispo também diz ser preocupante o oportunismo de ONGs que buscam aprovar o aborto via zika, omitindo que ainda não há uma demonstração confiável da relação do vírus com a doença. Uma vez que a microcefalia pode ser tratada, não podendo configurar um “diagnóstico de morte para a criança”.
Nas ações de combate ao vírus, Dom Roberto esclarece que a Pastoral da Saúde intervém na área da prevenção, conscientização e educação sanitária, com seus agentes comunitários se engajando, “na medida do possível e desejável”, no imediato combate juntamente com as autoridades públicas. “A quem corresponde, certamente, a direção e coordenação da campanha, com sua execução técnica”.

Para as Católicas pelo Direito de Decidir, as declarações públicas da hierarquia católica tem apresentado um caráter misógino, sem qualquer comiseração pela morte física, psíquica e emocional de muitas mulheres.
Sobre a estratégia de conter a epidemia por meio de insetos geneticamente modificados, os chamados insetos transgênicos, o bispo da Pastoral da Saúde lembra que a transgenia, seja ela de qualquer tipo, deve ser acompanhada sob o “princípio da cautela”, dos danos colaterais, após uma pesquisa segura. “Sem os cuidados prevalecentes, podemos, sem querer, causar impactos nocivos aos ecossistemas e à biodiversidade, trazendo consequências para a saúde humana”.
Dom Roberto Paz lembra que toda doença ou epidemia se origina quando se desrespeita a natureza e se degrada a vida. Desta forma é importante uma visão holística para se buscar uma saúde integral. “Vamos participar, plenamente, da Campanha da Fraternidade 2016, ligando economia, ecumenismo e ecologia no cuidado e responsabilidade da casa humana.”, complementa.
Com posicionamento bem diferente, a organização Católicas pelo Direito de Decidir (CDD) tem manifestado apoio às mulheres grávidas contaminadas pelo zika vírus e classificado as declarações públicas da hierarquia católica como de “caráter misógino”. “Estamos no Ano do Jubileu [da Misericórdia]. O Papa Francisco declara um tempo de misericórdia na Igreja. Não é misericórdia o que tem demonstrado a hierarquia católica, no Brasil. Sua palavra tem sido impiedosa, sem qualquer comiseração pela morte física, psíquica e emocional de muitas mulheres.”, afirma Maria José Rosado, presidenta da CDD, em comunicado da entidade.
De acordo com a CDD, a proibição do aborto é seletiva e injusta socialmente, porque recai sobre as mulheres pobres e negras, que vivem na periferia, sem as condições de saúde básicas, sendo as mais sujeitas à epidemia do zika vírus.
Questionando que a ciência não consegue diagnosticar a microcefalia nos primeiros meses da gestação e que este cenário é angustiante para as grávidas, a CDD pede compaixão para com as mulheres. “Se é impossível para a Igreja reconhecer que é direito das mulheres o controle sobre sua capacidade de gerar novos seres humanos, seja, pelo menos, capaz de compaixão, virtude tão cara ao Cristianismo”.
Feira de Santana, 26/2/16




