Disputa pela Cadeira 32 da ABL reúne seis nomes e projeta a multitrajetória de Taurino Araújo
Poeta, jurista, pensador, crítico e artista visual baiano Taurino Araújo apresenta candidatura à sucessão de Zuenir Ventura em momento de intensa recepção crítica de sua obra; processo eleitoral da Academia Brasileira de Letras terá inscrições abertas até 8 de outubro
A sucessão do jornalista e escritor Zuenir Ventura na Academia Brasileira de Letras começa a desenhar uma disputa de perfis bastante distintos para a Cadeira 32.
A Academia realizou, em 24 de setembro, a tradicional Sessão da Saudade e, em seguida, declarou oficialmente aberta a vaga. Segundo a ABL, as inscrições terminam em 8 de outubro e a eleição está marcada para 12 de novembro.
A página institucional registra, até o momento, os nomes de Drauzio Varella, Eduardo Baccarin-Costa, Gutemberg da Silva Miranda, José Hilcério Campos de Abreu e Eloi Angelos Guio.
Drauzio Varella e Eduardo Baccarin-Costa, candidatos inscritos à sucessão de Zuenir Ventura na Cadeira 32 da Academia Brasileira de Letras.

Taurino Araújo
A eles se soma a candidatura publicamente apresentada pelo poeta, jurista e pensador baiano Taurino Araújo, que anunciou sua participação no processo sucessório em 26 de setembro.
A vaga possui uma linhagem particularmente expressiva. Zuenir Ventura era o sétimo ocupante da Cadeira 32. Eleito em 30 de outubro de 2014, sucedeu a Ariano Suassuna e tomou posse em 6 de março de 2015. O patrono da cadeira é Manuel de Araújo Porto-Alegre.
Entre os nomes que chegam à sucessão, Drauzio Varella é o de maior exposição nacional prévia. Médico e escritor, construiu uma trajetória que associa divulgação científica, literatura de não ficção, televisão e intervenção pública, tendo em Estação Carandiru uma de suas obras mais conhecidas.
Sua movimentação em direção à Cadeira 32 foi antecipada por Ancelmo Gois, em O Globo, antes mesmo da abertura formal das inscrições.
Também entre os inscritos está Eduardo Baccarin-Costa, escritor, poeta e professor paranaense com trajetória concentrada na literatura e no ensino.
Doutor em Estudos Literários pela Universidade Estadual de Londrina, ocupa a cadeira 39 da Academia de Letras, Ciências e Artes de Londrina e desenvolve o projeto Casulo Criativo, dedicado à formação de novos leitores e escritores entre estudantes da rede pública. Romancista de produção extensa, chegou em 2024 ao 17º livro publicado, O Gringo do Bom Jesus, seu décimo romance.
Baccarin-Costa já havia participado de processo sucessório anterior da própria ABL, circunstância que acrescenta à disputa da Cadeira 32 outro nome de trajetória especificamente literária.
Sete portas para uma candidatura
Taurino Araújo nasceu em Jequié, em 25 de dezembro de 1968, e teve em Ubatã um dos territórios decisivos de sua formação. Poeta, jurista, advogado, ensaísta, crítico literário, professor e artista visual, doutor em Ciências Jurídicas e Sociais, ele chega à sucessão de Zuenir Ventura apresentando não apenas uma relação de obras, mas aquilo que sua fortuna crítica recente vem denominando uma multitrajetória.
A candidatura foi anunciada justamente em 26 de setembro, durante as comemorações dos 73 anos de emancipação política de Ubatã.
A coincidência biográfica conferiu ao anúncio uma dimensão simbólica: a cidade em que Taurino Araújo estudou, participou da vida cultural desde muito jovem, integrou e presidiu o Grupo de Arte Canoatan e exerceu, em 1989, a Secretaria Municipal de Administração tornou-se também o lugar escolhido para anunciar uma nova etapa de sua trajetória.
Nos últimos dias, porém, o anúncio começou a ultrapassar esse primeiro circuito. Nesta quinta-feira, 1º de outubro, A TARDE publicou nota própria sobre a candidatura, destacando a presença de Taurino Araújo na cena literária nacional e relacionando o movimento em direção à ABL à recepção de sua produção poética e intelectual. A TARDE
A candidatura ocorre, sobretudo, num momento incomum de concentração crítica em torno de sua obra.
Mário Nelson Carvalho acaba de dedicar-lhe Taurino Araújo — O Mercado das Sete Portas, estudo biográfico e crítico que procura compreender quase cinco décadas de atividade por meio de sete dimensões: poesia; pensamento; Direito, democracia e vida pública; crítica; construção cultural; arte; e convergência.
A metáfora das sete portas parte de uma pergunta especialmente adequada ao momento atual: por qual delas Taurino Araújo deveria entrar na Academia? A resposta construída pelo ensaio é que talvez não seja necessário escolher apenas uma.
A primeira porta é a poesia
A velha caturna chega à Academia
A produção poética de Taurino atravessa mais de quarenta anos e será reunida em A caturna e outros poemas — 40 anos de poesia brasileira. No centro desse percurso está A caturna, poema de 96 versos que recupera uma palavra antiga e rara da Língua Portuguesa e a converte em eixo de uma construção sobre língua, memória, território, caminhada e permanência.
O poema começa colocando nos pés do sujeito a velha palavra portuguesa e termina invertendo a relação entre homem e linguagem. Quando os passos do poeta já não ecoarem e “a poeira do tempo” o levar, será a própria caturna que continuará proclamando “o sol de um sonho, minha língua materna”.
Essa operação chamou a atenção do imortal Nelson Cerqueira, que dedicou a um único poema um tratado crítico de 48 páginas, posteriormente traduzido e publicado em inglês pela SSRN/Elsevier.
O estudo percorre literatura, filosofia, linguística, antropologia, memória e história para examinar a relação estabelecida pelo poeta com a Língua Portuguesa.
É justamente nesse ponto que A caturna ultrapassa a condição de poema isolado e passa a funcionar como uma espécie de eixo de leitura da trajetória.
Pensar a diferença
A segunda porta é o pensamento
Taurino é autor de Hermenêutica da Desigualdade: uma introdução às ciências jurídicas e também sociais, publicada pela Del Rey em 2019 e originada de tese doutoral defendida em Buenos Aires em 2017.
A proposta parte de uma inversão: em vez de tratar a desigualdade apenas como problema a ser eliminado abstratamente, procura compreender as diferenças concretas, as relações entre realidade, dogmática e investigação crítica e os mecanismos pelos quais sujeitos situados nas margens podem recuperar protagonismo.
Desse sistema nasce também o chamado modus audiens: escutar, acatar e atender. A formulação desloca o receptor da condição passiva e procura devolvê-lo ao centro do processo interpretativo. Não basta falar sobre o outro. É preciso criar condições para que ele seja ouvido. Esse movimento reaparece, sob linguagens diferentes, na poesia, na crítica, no Direito e nas artes visuais.
Da diferença à AGREGAÇÃO
Há, então, uma curiosa convergência entre teoria e imagem.
Em sua produção visual, Taurino Araújo trabalha com elementos encontrados — folhas, galhos, flores secas e fragmentos naturais — que são retirados da dispersão cotidiana e reorganizados sem perder completamente sua identidade de origem.
Uma dessas obras recebeu um título que acabou se tornando quase uma palavra-síntese da trajetória: AGREGAÇÃO. É precisamente essa operação que O Mercado das Sete Portas reconhece também na atividade intelectual de Taurino: aproximar aquilo que as classificações normalmente mantêm separado.
Uma obra construída também com os outros
Essa vocação ganhou escala coletiva em Signos em Transe: uma Fortuna Crítica sobre a Semiótica de Lícia Soares de Souza, projeto concebido, organizado, apresentado e curado por Taurino e que reuniu 62 autores de sete países e cinco idiomas, com lançamento na Academia de Letras da Bahia e apoio acadêmico e institucional da UNEB e do CNPq.
Das margens ao centro
A carta com que Taurino apresenta sua candidatura à ABL oferece sua própria resposta.
Nela aparece uma formulação que atravessa boa parte de sua produção: reconhecer as diferenças sem expulsá-las da comunidade e reconduzi-las ao centro das decisões.
É uma imagem que possui também uma dimensão biográfica.
O menino do interior da Bahia; o jovem ligado ao Grupo de Arte Canoatan; o professor; o estudante universitário; o advogado; o jurista; o pesquisador; o poeta; o crítico e o artista não aparecem, nessa interpretação, como personagens sucessivos que se substituem.
São manifestações diferentes de uma mesma trajetória
Por isso a candidatura não procura apagar a origem para alcançar o centro. Faz exatamente o contrário: procura levar consigo a experiência da margem.
O ano que não terminou
Há, finalmente, uma coincidência literária difícil de ignorar.
Taurino nasceu em 1968.
Zuenir Ventura transformou esse mesmo ano no título de uma das obras mais conhecidas da literatura jornalística brasileira: 1968 — O ano que não terminou.
Ao apresentar sua candidatura, Taurino Araújo fez dessa coincidência a abertura de sua carta à Academia: “Taurino Araújo (1968-) — o ano que não terminou…”
Entre o ano de nascimento do candidato e o título consagrado por Zuenir, a candidatura constrói uma pequena passagem literária entre duas biografias que não se confundem.
Não é apenas uma homenagem ao antecessor.
O hífen depois de 1968 permanece aberto.
Entre o ano de nascimento do candidato e o título consagrado por Zuenir, a candidatura constrói uma pequena passagem literária entre duas biografias que não se confundem.
Talvez seja essa imagem que melhor sintetize o momento.
A Cadeira 32 está vaga. Os nomes estão postos, outros ainda podem surgir até 8 de outubro, e os acadêmicos farão sua escolha em 12 de novembro.
Enquanto isso, uma trajetória iniciada entre Jequié e Ubatã atravessa poesia, pensamento, Direito, crítica, universidade e artes e chega diante da Academia levando consigo uma palavra antiga da Língua Portuguesa. A Caturna. Primeiro, o homem calçou a palavra. Agora, resta saber até onde ela caminhará.
01/10/26




