Complexo do Campo do Gado: da feira de animais a um novo espaço de cultura, turismo e lazer
Feira de Santana nasceu da feira. Configurada como entroncamento entre o Sertão e o Recôncavo, essa posição favoreceu a circulação e a comercialização do gado.
A literatura sobre o tema, mostra que consolidação desse tipo de comércio levou a criação de espaços específicos para os animais e ajudou a dar uma cara à economia feirense. A existência de lagoas e nascentes em abundância fazia com que os tropeiros parassem para repouso, deles e do gado.

Ali surgia o feirante, que vendia alimentos, consertava selas dos animais, vendiam redes e outras mercadorias. Assim antes da cidade de Feira surgia a feira.
Não demorou a que estes comerciantes passassem a dormir na região e o povoamento se fez através do conhecido campo do gado. Este complexo foi empurrando a cidade para fora. A cidade se expandia e o campo do gado se deslocava. Àquela altura, já existia o matadouro que foi aumentado no bairro da Queimadinha.
Em meados dos anos 70, eu menino adolescente, frequentava o espaço onde hoje se localiza o Centro de Convenções. Na verdade, o complexo ocupava o espaço até a garagem da prefeitura e o Parque do Saber. Ali era o matadouro municipal. Do outro lado tinha a Mafrisa, onde existe o Shopping Boulevard. Ao redor, lembro bem das salgadeiras, onde hoje existe o Bairro São João até a Avenida Maria Quitéria.
A gente se divertia, vendo o movimento dos comerciantes, a compra e venda frenética de gado, cavalos e acessórios. O artesanato de couro, as selarias, geravam riquezas locais. Entretanto, nada conseguia conter a fedentina daquela atividade econômica. A chegada de condomínios na região fazia os protestos aumentarem contra a poluição do campo do gado. Para que o leitor tenha ciência, a rua que liga o centro de convenções a Avenida Joao Durval, até hoje chamamos de Rua do Fedor. Aí a cidade cresceu e empurraram o campo do gado mais uma vez para o local onde hoje se localiza.
Feira de Santana deixou há muito de depender da pecuária como atividade estruturante. O comércio e os serviços assumiram papel predominante, enquanto a própria cadeia pecuária mudou, transporte rodoviário, frigoríficos, novas formas de comercialização e integração regional reduziram a centralidade das antigas feiras presenciais.
Isso ajuda a explicar porque um espaço que historicamente movimentava milhares de animais hoje apresenta outra intensidade de utilização. A diferença entre o tamanho físico herdado e sua utilização econômica atual é justamente o ponto que merecia investigação. Em busca de lembranças fui acompanhado de um colega professor da UEFS visitar o complexo numa quarta-feira. Fiquei decepcionado com o descaso. A pecuária de corte praticamente não existe mais ali no local. Se vende e se compra gado pela internet. Sobraram alguns poucos saudosistas que vão ali bater papo. As lojas todas fechadas e apenas um restaurante funcionando. Fiquei de voltar numa segunda, e voltei.
Segunda feira, dia 21 de setembro, convidado pelos jornalistas Glauco Wanderley, Jânio Rego e Everaldo Goes, lá fomos visitar o complexo. Eles estão produzindo seus textos, eu aqui estou com o olhar do economista, filho dessa cidade, que passei o olho crítico.
Para começar, vou separar em três espaços: feira de animais, matadouro e parte estrutural do complexo situado na Rua Heráclito Dias de Carvalho, nº 1.301, possui 102.320 m² de área total, dos quais 54.114 m² são de área construída. Portanto, estou falando de aproximadamente 10,2 hectares, uma área considerável.
Um equipamento público desse tamanho demanda uma gestão mais eficiente e porque não dizer, uma autonomia financeira. Mas aqui cabe uma pergunta que não quis até aqui se calar: A utilização econômica e social atual de uma área pública de mais de 100 mil m² é compatível com seu tamanho, sua localização e seu potencial urbano? Com a palavra, os pesquisadores com seus estudos.
A feira tradicional não acabou. Continua sendo realizada às segundas-feiras. Uma reportagem publicada em 14 de setembro de 2026 pelo jornalista Jânio Rego no Blog da Feira, descreve justamente a situação que observamos: o equipamento parece atualmente muito grande diante do volume de comércio de animais realizado.
A reportagem associa essa redução às transformações da cadeia produtiva pecuária e à perda da antiga abrangência regional da feira. Uma reportagem do Globo Rural, de período anterior, registrava a comercialização semanal de 700 a 1.200 animais no Campo do Gado. Atualmente a falta de transparência é enorme, pois não encontrei nenhum dado estatístico sobre as últimas movimentações de compra e venda do local. Um equipamento público dessa magnitude deveria dispor de indicadores sistemáticos de movimentação econômica.
Tudo bem que em 2024 foram efetivadas melhorias, incluindo pintura, limpeza das áreas internas e externas, recuperação de banheiros, redondel e arquibancada. Na ocasião, entretanto, comerciantes já reivindicavam intervenções adicionais justamente nos currais, considerados o núcleo da atividade comercial.
Sim, existe uma Associação de Comerciantes do Complexo Matadouro e Adjacências (ACMA). Não quero aqui ser mal intencionado e afirmar que o complexo está abandonado, mas com certeza ele se encontra com subutilização relativa. Nome pomposo né? Quanto ao matadouro, em maio de 2026, a Câmara Municipal aprovou autorização para que o Município conceda à iniciativa privada a administração, manutenção e exploração econômica do Matadouro Público Municipal por 15 anos, prorrogáveis por mais 15. A propriedade do imóvel continuará municipal.
O próprio poder público reconhece que o modelo atual necessita de investimento e modernização da infraestrutura, equipamentos, manutenção especializada e adequação às normas sanitárias e ambientais. Todavia, até a data da publicação deste artigo, a licitação não foi publicizada.
Enquanto isso, em maio de 2026, o vereador Jurandy Carvalho fez uma denúncia de que os resídios do matadouro estão sendo jogados no Riacho das Panelas. Reclamações de moradores sobre fortes odores já se fazem presentes. Qualquer projeto de requalificação do Complexo precisa considerar saneamento, tratamento de resíduos e compatibilidade ambiental entre atividades produtivas e a ocupação urbana que cresceu ao redor do equipamento. Aqui acende a luz amarela: a cidade está alcançando o campo do gado.
Quando o atual Complexo foi construído durante a administração de José Falcão, entre 1983 e 1988, a área do Pampalona ficava aproximadamente oito quilômetros distante do centro e era descrita como praticamente desabitada. A própria Prefeitura reconhece que a implantação do Complexo contribuiu para acelerar a ocupação do entorno. Hoje a situação é completamente diferente. Campo do Gado Novo, Pampalona, Gabriela, Sobradinho, Jardim Cruzeiro e outros bairros formam uma extensa área urbanizada.
O futuro do Complexo do Campo do Gado não precisa significar a renúncia de sua função histórica. Ao contrário, sua identidade ligada à pecuária, ao vaqueiro, à cultura sertaneja e às relações entre Feira de Santana e sua vizinhança, pode constituir justamente o principal ativo para sua requalificação.
O desafio seria transformar um equipamento utilizado intensamente apenas em determinados períodos em um espaço de múltiplos usos, capaz de funcionar durante a semana, nos fins de semana e também à noite. Nesse desenho, turismo rural e turismo cultural poderiam constituir um primeiro eixo.
O visitante não encontraria apenas uma feira de animais, mas um espaço de interpretação da própria formação de Feira de Santana: história da pecuária, tropeirismo, vaqueiros, couro, alimentação sertaneja, agricultura familiar e memória das antigas feiras. Isso poderia envolver pequenos espaços museológicos, exposições, gastronomia, artesanato e eventos temáticos.
A Universidade poderia participar levando o museu Casa do Sertão a ter uma presença no local e levaria todo seu conhecimento acumulado intra muros. Os cursos de Agronomia, Economia, Administração, Engenharia de Alimentos, Biologia e outros precisam estar conectados.
Outro ponto seria a economia da cultura. Shows de forró, samba de roda, música sertaneja e outras manifestações regionais, festivais gastronômicos, literatura de cordel, apresentações de quadrilhas, exposições e peças teatrais poderiam estabelecer um calendário regular.
O interessante seria evitar a lógica de grandes eventos esporádicos. O objetivo deveria ser criar fluxo permanente de pessoas. Há, entretanto, uma condição importante: vida noturna não se cria apenas colocando bares e palcos. Seriam necessários iluminação, segurança, transporte público noturno, acessibilidade, estacionamento, saneamento, ordenamento do comércio e integração com os bairros do entorno. Isso nos permite conectar o artigo às questões de mobilidade urbana.
Não estou falando simplesmente em colocar alguns bares, um palco e realizar grandes shows de vez em quando. Isso seria pouco diante das dimensões e das possibilidades do equipamento. A proposta deveria ser mais ambiciosa: criar condições para que o Complexo seja utilizado também depois que o sol se põe, transformando parte de uma área hoje subutilizada em espaço permanente de cultura, gastronomia, lazer e convivência.
A economia noturna poderia começar justamente pela identidade do lugar. Restaurantes de culinária regional, pequenos bares, casas de forró, apresentações de sanfoneiros, samba de roda, repentistas, literatura de cordel, teatro e manifestações da cultura sertaneja poderiam conviver com feiras gastronômicas e de artesanato. Em vez de copiar os espaços de entretenimento existentes em outras partes da cidade, o Campo do Gado teria de oferecer aquilo que nenhum shopping center pode reproduzir facilmente: sua história e sua ligação com o sertão. Isto, certamente, tocaria o lado sensível do morador da cidade e dos visitantes, aquela ideia de pertencimento.
Há ainda um efeito econômico que não pode ser desprezado. Quando um espaço urbano passa a funcionar durante mais horas do dia, amplia-se a possibilidade de geração de renda. Restaurantes precisam de cozinheiros e garçons; eventos demandam técnicos, músicos, produtores e trabalhadores de apoio; feiras movimentam agricultores, artesãos e pequenos comerciantes. O mesmo patrimônio público passa, portanto, a produzir atividades econômicas durante um período maior, sem que seja necessário abandonar sua função histórica. Isso em Economia chamamos de sinergia de projetos.
Mas economia noturna não nasce por decreto. Não adianta inaugurar bares e palcos se as pessoas tiverem medo de permanecer no local ou não conseguirem voltar para casa. Seriam necessários iluminação adequada, segurança, acessibilidade, transporte coletivo noturno, áreas de embarque e desembarque, estacionamento, saneamento, tratamento dos resíduos, banheiros e manutenção permanente. Também seria indispensável considerar os moradores dos bairros vizinhos.
Vida noturna não pode significar simplesmente transferir para Pampalona, Campo do Gado Novo e demais áreas do entorno problemas de ruído, trânsito e desordem urbana.
É exatamente nesse ponto que a requalificação deixa de ser apenas uma proposta cultural e passa a ser uma questão de planejamento urbano. O Complexo precisaria funcionar integrado à cidade. Linhas de ônibus em horários compatíveis com os eventos, espaços adequados para táxis e transporte por aplicativo, circulação segura de pedestres e integração com os bairros próximos seriam componentes do projeto, e não detalhes a serem resolvidos posteriormente.
Não proponho transformar o Campo do Gado numa espécie de shopping center a céu aberto. Seria justamente o contrário. Sua vantagem está naquilo que o diferencia. A boiada, o vaqueiro, o couro, a sela, o tropeiro, a música, a comida e a própria feira fazem parte da memória econômica e cultural da cidade. É essa identidade que poderia ser convertida em turismo, cultura, lazer e renda.
Talvez esteja aí uma das oportunidades que Feira de Santana ainda não percebeu. Durante décadas, o Campo do Gado ajudou a movimentar a economia da cidade durante o dia. Nada impede que, preservando sua história, possa também ajudar a movimentá-la à noite.
Isso também permitiria inverter a lógica atual de utilização do equipamento. Em lugar de concentrar movimento principalmente em determinados dias e horários, seria possível estabelecer um calendário permanente. Numa noite poderia haver música regional; em outra, teatro; nos fins de semana, gastronomia, artesanato, exposições, esportes rurais e atividades para crianças. Grandes shows poderiam existir, mas não deveriam constituir o centro do projeto.
Um equipamento dessa dimensão precisa de frequência cotidiana, e não apenas de multidões ocasionais. Feira de Santana não precisa escolher entre preservar o Campo do Gado e modernizá-lo. Pode modernizá-lo justamente preservando aquilo que lhe dá identidade.
Antônio Rosevaldo Ferreira, economista, professor do Departamento de Ciências Sociais Aplicadas da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs)
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24/09/26




