Reforma da Praça Fróes da Mota coloca patrimônio histórico no centro das atenções
Coreto de 1919, ladrilhos hidráulicos, ferro trabalhado e elementos ecléticos; praça conserva ainda peça de iluminação pública datada de 1903
A Praça Eduardo Fróes da Mota, no centro de Feira de Santana, será totalmente reformada após ordem de serviço assinada nesta quarta-feira (26) pelo prefeito José Ronaldo de Carvalho. A intervenção receberá investimento de R$ 852.585,37 e terá prazo previsto de quatro meses. Entre os cuidados anunciados está a manutenção
das características originais do coreto histórico, construído no início do século XX e um dos principais elementos arquitetônicos preservados no espaço.
A preocupação manifestada pelo prefeito se justifica pela riqueza do conjunto. Construído em 1919, o coreto se insere no repertório da arquitetura eclética das primeiras décadas do século passado,
9 período marcado pela combinação de diferentes referências artísticas e ornamentais. Mais do que simples equipamento para apresentações públicas, representa uma etapa da transformação do antigo largo em espaço urbano associado ao embelezamento e àmodernização de Feira de Santana.

Geometria e ferro
Um dos elementos mais expressivos é o piso, formado por ladrilhos hidráulicos policromos, com elaborada composição geométrica. Estrelas, losangos, triângulos e octógonos se repetem em módulos que remetem às artes decorativas do início do

Piso do Coreto
século XX. O desenho se situa no ambiente estético de transição do ecletismo para tendências cada vez mais geométricas que, alguns anos depois, ganhariam força com o Art Déco. Por isso, é mais adequado compreendê-lo dentro do repertório decorativo do período do que simplesmente classificá-lo como Art Déco.
A estrutura metálica possui igualmente grande valor histórico e artístico. Gradis e ornamentos em ferro trabalhado apresentam curvas, volutas, formas vegetais e desenhos que lembram liras estilizadas. A associação é especialmente significativa

Poste de iluminação de 1903
porque os coretos eram tradicionalmente utilizados para apresentações de bandas e filarmônicas. Nas partes superiores aparecem ainda frisos com círculos entrelaçados, pequenas formas radiais e elementos pendentes, além de ornamentação curvilínea que se aproxima de referências do Art Nouveau sem abandonar o caráter predominantemente eclético do conjunto.
Marcas do tempo
A cobertura mantém o desenho poligonal característico, com remate bulboso e certa inspiração orientalizante, recurso compatível com a liberdade formal da arquitetura eclética. O revestimento interno
atual, em madeira, pode ter passado por restaurações ou substituições ao longo do tempo, algo que somente documentação específica poderá esclarecer. Já o desenho geral da cobertura aparece em registros fotográficos antigos, demonstrando a permanência de sua configuração histórica.

A praça guarda ainda outro vestígioimportante: a base metálica de um antigo poste com a inscrição “1903 — Municipalidade de Feira de S. Anna”. A peça é anterior ao próprio coreto e registra uma fase precedente da modernização urbana. Estruturas semelhantes sobrevivem na Praça da Matriz, onde postes históricos de ferro apresentam inscrições de fabricantes e importadores do século XIX. A preservação desses elementos ganha importância especial numa cidade que assiste, cotidianamente, à destruição do próprio patrimônio histórico. Modernizar a Praça Fróes da Mota, portanto, significa também garantir que esses documentos materiais continuem contando a história de Feira de Santana às próximas gerações.
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