‘Feira é o Mundo’ ganha força em discurso de abertura do Flifs
Coordenadora do festival, Cristiana Barbosa apresentou uma leitura poética da identidade de Feira de Santana durante a solenidade de abertura, que contou com a presença da reitora da Uefs, Amali Mussi
Na noite dessa terça-feira, 25 de agosto, a abertura do 19º Festival Literário e Cultural de Feira de Santana reuniu autoridades, escritores, artistas, educadores e representantes de instituições no Teatro do Centro de Convenções. Dentre as presenças, representantes de entidades parceiras na realização do evento, dos governos municipal e estadual, e da reitora da Uefs, Amali de Angelis Mussi.
Um dos momentos marcantes da solenidade foi o discurso de Cristiana Barbosa de Oliveira Ramos, diretora do Centro Universitário de Cultura e Arte (Cuca), da Universidade Estadual de Feira de Santana, e coordenadora do Flifs. Ao desenvolver o tema desta edição, ‘Feira é o Mundo’, ela apresentou uma leitura poética da formação, da cultura e da identidade feirense.
“Os verdadeiros centros do planeta não cabem nas linhas frias dos mapas oficiais. Eles pulsam nas esquinas onde a vida ferve, transbordam na arte do povo e se erguem na delicada arquitetura do afeto, da coragem e do sotaque”, afirmou.
Ao longo do pronunciamento, Cristiana Barbosa apresentou Feira como uma grande encruzilhada de caminhos, histórias, saberes e culturas. “Quando o feirense brada que ‘Feira é o mundo’, ele proclama uma verdade soberana: não é preciso partir para ver a terra girar. O planeta inteiro deságua aqui.”
A coordenadora também destacou personagens, lugares e expressões da memória local, além de relacionar a tradição sertaneja à vida urbana contemporânea. Para ela, proclamar que “Feira é o Mundo” é também “subverter a lógica das margens” e afirmar que o interior da Bahia pode ocupar o centro da própria história.
Confira, a seguir, a íntegra do discurso
Solenidade de Abertura — FLIFS 2026
Festival Literário e Cultural de Feira de Santana
Senhoras e senhores, boa noite!
Em nome do professor Marcius de Almeida Gomes, secretário de Educação do Estado, e da magnífica reitora, professora Amali Mussi, saúdo cada olhar, cada presença aqui reunida.
Ao abraçarmos o tema desta 19ª edição do Festival Literário e Cultural de Feira de Santana — Feira é o Mundo —, nós, da Comissão Organizadora, reafirmamos uma certeza que nos queima o peito: os verdadeiros centros do planeta não cabem nas linhas frias dos mapas oficiais. Eles pulsam nas esquinas onde a vida ferve, transbordam na arte do povo e se erguem na delicada arquitetura do afeto, da coragem e do sotaque.
Feira nunca foi uma ilha esquecida no sertão; sempre foi e será encruzilhada. Como nos ensina Luiz Antonio Simas — voz preciosa que honrará este palco —, a encruzilhada jamais é um fim de linha ou um beco sem saída. Ela é o próprio coração do mundo. Este entroncamento de estradas é, acima de tudo, um vivo entrecruzar de almas, poéticas e saberes.
Aqui, o tempo e o movimento caminham de mãos dadas. Para além dos mitos da fundação, esta terra foi talhada pelo suor e pelos passos de vaqueiros, tropeiros, homens e mulheres que fizeram brotar vida deste chão. Quando o feirense brada que “Feira é o mundo”, ele proclama uma verdade soberana: não é preciso partir para ver a terra girar. O planeta inteiro deságua aqui — no ronco ritmado dos caminhões, na pisada firme dos feirantes, no viço da juventude que habita os corredores da UEFS e no pulsar contínuo do comércio. Feira é o microcosmo vertiginoso onde o sertão profundo abraça a modernidade urbana em um banquete diário.
Essa fome mansa de acolher o que vem de fora e renascer com a marca da nossa terra é pura antropofagia: um apetite universal que une tanto quem nasceu sob este sol quanto quem escolheu Feira para morar no coração.
Magistralmente concebida por Sidarta Gautama, a identidade visual do FLIFS 2026 traduz essa voracidade: ao entrelaçar a tradição sertaneja com as cores vibrantes da Pop Art, a arte nos lembra que a estética feirense é plural, audaz e conversa com o universo sem pedir licença.
Ao bradar que “Feira é o mundo”, subvertemos a lógica das margens. Afirmamos que o interior da Bahia é o centro da sua própria história. Há uma dignidade profunda em saber que as narrativas tecidas na poeira da Sales Barbosa, no canto polifônico da Queimadinha e do Tomba, ou no burburinho da Marechal têm força para ecoar até o infinito. Feira é o mundo é a certeza poética de que a paróquia e o universo habitam a mesma casa.
Trazer o FLIFS para o Centro de Convenções sob este lema é assumir a nossa verdadeira estatura. É mostrar que a nossa literatura e as nossas memórias têm alcance global. Se no mapa somos o maior entroncamento do Norte-Nordeste, na cultura somos a encruzilhada sacra onde o sertão encontra o Recôncavo, o mar conversa com a caatinga e a academia se curva à sabedoria popular.
O FLIFS muda de palco, mas sua alma permanece intacta: semear leitores e acender poéticas através do livro e da arte.
É nesta encruzilhada viva que o passado ganha corpo e salta das páginas. Maria Quitéria encarna o instante divino em que a coragem de uma única mulher refaz o destino de uma nação. Celebrá-la é atestar que a vanguarda feminina e a chama da liberdade nascem do nosso próprio solo. Lucas da Feira, por sua vez, é o nosso espelho cortante: o marco da insurgência negra e das chagas históricas que nos forjaram. Sua história não se fez pela docilidade, mas pela recusa e pelo levante contra a opressão. Colocar essas duas potências no centro do festival é provar que nossa identidade nunca foi uma estrada reta, mas uma teia viva de lutas, encontros e reinvenções.
Nossa programação é o reflexo exato dessa dança: 29 escritores, 24 cordelistas, 46 apresentações de escolas, 92 livros a serem lançados, 11 contações de histórias, 10 espetáculos cênicos e 10 shows.
Nos próximos dias, a erudição e a rua abraçam-se no mesmo ritmo. É o fio que une o pensamento afiado de Luiz Antonio Simas e Xico Sá, a memória afetuosa nas pílulas de Zé Andrade, a força crítica de Jessé Souza e a dor encarnada no espetáculo *Lucas da Feira*. É o sertão dialogando com a tecnologia nas mesas de Inteligência Artificial; é o encanto da infância na Flifinha com a Cia Cuca de Teatro; e é a música que flui de Maryzélia e Roberta Sá a Agnes Nunes — todas abraçando a nossa querida Márcia Porto —, passando pela imponência da Filarmônica 25 de Março, pelas fanfarras e pela peleja sagrada dos violeiros, que honram a memória de Dadinho e Caboquinho. É a voz ancestral de dona Costinha e do grupo União, e a poesia viva dos mestres do cordel: Chico Pedrosa, Antônio Barreto, Bule Bule, Franklin Maxado, e a potência feminina de Izabel Nascimento, Mestra Lainha, Juliana Maciel, Alice Moraes e dona Zuzu.
Memória, arte e encontros literários
As mesas do FLIFS 2026 desenham-se como laboratórios do pensamento. Acolheremos nomes como Thalita Rebouças, Roberval Pereyr, Luiz Pimentel, Fabrício Oliveira, Ryane Leão, Jéssica Senra e Midiã Noeli, ao lado dos mestres da UEFS, para entrelaçar ancestralidade e crítica social, celebrando os 70 anos de ‘Grande Sertão: Veredas’ e os 90 anos do mestre Olney São Paulo.
Inovação, Inteligência Artificial e cultura
Abrimos janelas inéditas para pensar os caminhos da tecnologia na arte. Entre o Espaço Conectados e o universo cosplay, provocamos a juventude a refletir sobre como a Inteligência Artificial conversa com a ética, a criação e a alma humana no meio digital.
Palcos e encantos da programação artística
Na Flifinha, a palavra ganha asas com a Cia Cuca de Teatro — nossa grande homenageada — em espetáculos como ‘Maria Minhoca’, ‘O Casarão Perdido’ e ‘O Fantástico Circo dos Sonhos’, abrindo as portas da imaginação.
No Teatro Carlos Pitta, encontros sublimes com a Orquestra Neojiba, Los Catedrásticos, ‘Moqueca de Maridos’ e o lirismo do mestre Asa Filho.
Na Praça do Cordel Dadinho e Caboquinho, um pedaço da nossa querida Praça Padre Ovídio, ou Praça da Matriz, está aqui representado pelo coreto e pela imagem do frontispício da Catedral. A tradição ganha vida na madeira entalhada da xilogravura, nos versos declamados e na celebração dos 50 anos da UEFS — a feirense mais ilustre.
No Palco Márcia Porto, o canto de Dionorina, Nívea Maria, as bandas Camutiê e 80 na Pista, somados aos corais do Cuca e da UATI, entoam o som da resistência. Ali também brilhará o futuro, com o protagonismo das crianças de mais de 40 escolas da nossa região.
De 25 a 30 de agosto, provaremos que nossa identidade é um mar que nunca seca. Porque aqui se cruzam caminhos, sotaques, saberes e afetos.
Que esta solenidade seja a abertura dos nossos portais internos. Por isso, tracem seus itinerários, pois o nosso convite é a palavra, o nosso convite é o LIVRO. Preparem-se para seis dias de música, cena, pensamento e reencontro. Ao celebrarmos Feira, celebramos a própria humanidade na sua forma mais bonita, plural e altaneira.
Nossa profunda gratidão a todas as mãos que teceram este momento: à Comissão Organizadora, aos parceiros, artistas, escritores, cordelistas, professores e monitores, expositores. Um agradecimento comovido aos trabalhadores e servidores da UEFS. Em nome da professora Taíse Bomfim, meu carinho especial aos companheiros da PROEX e do CUCA, e a cada cidadão que torna esta cidade um poema vivo.
Sejam infinitamente bem-vindos à grande encruzilhada onde Feira é, em toda a sua potência, o mundo! Que o FLIFS seja o ápice desse grande encontro.
Muito obrigada!
26/08/26
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