Artigo / Por Everaldo Goes 19 de julho de 2026

Quando a catimba do passado ajuda a compreender o presente

Memórias do dirigente Osório Vilas Bôas revelam como pressões, armadilhas e interferências faziam parte dos bastidores das competições

Durante os últimos 30 dias, sempre que assistia aos jogos de uma determinada equipe em um grande evento encerrado neste domingo (19), algumas passagens de um livro publicado há mais de meio século voltavam à minha memória. Lances interpretados de maneiras diferentes, punições desproporcionais, infrações ignoradas e decisões quase sempre favoráveis ao mesmo lado produziam uma incômoda sensação de familiaridade. Não pretendo afirmar o que não posso provar. Registro apenas aquilo que vi e a lembrança que as imagens despertaram.

O livro é ‘Futebol: Paixão e Catimba’, publicado em 1973 por Osório Vilas Bôas, com texto organizado pelos jornalistas Newton Calmon e Carlos Casaes. Mais do que uma autobiografia, é um relato sobre os bastidores do futebol baiano em uma época na qual dirigentes exerciam enorme influência sobre clubes, federações, Quando a catimba do passado ajuda a compreender o presente Memórias do dirigente Osório Vilas Bôas revelam como pressões, armadilhas e interferências faziam parte dos bastidores das competições Durante os últimos 30 dias, sempre que assistia aos jogos de uma determinada equipe em um grande evento encerrado neste domingo (19), algumas passagens de um livro publicado há mais de meio século voltavam à minha memória. Lances interpretados de maneiras diferentes, punições desproporcionais, infrações ignoradas e decisões quase sempre favoráveis ao mesmo lado produziam uma incômoda sensação de familiaridade. Não pretendo afirmar o que não posso provar. Registro apenas aquilo que vi e a lembrança que as imagens despertaram.tribunais e arbitragens. Osório conta as histórias com impressionante naturalidade, como se determinadas artimanhas fossem parte legítima do jogo.

Em uma das passagens mais conhecidas, ele narra a escolha do árbitro Francisco Moreno para uma partida entre Bahia e Vasco, pela Taça Brasil de 1959. Depois de conduzir as negociações para que fosse escolhido um juiz paulista, Osório recebeu de Mendonça Falcão, então presidente da Federação Paulista, um telegrama com a frase: “Seguiu a encomenda”. O dirigente negou que o árbitro tivesse recebido dinheiro, mas admitiu que ele concedeu ao Bahia, em suas palavras, uma “colher de chá”.

Pressão assumida como estratégia

Osório também relata que pressionava árbitros baianos antes de partidas importantes. Deixava claro que aqueles que prejudicassem o Bahia poderiam ser vetados de competições nacionais. Ele próprio utilizou a palavra “coação” para definir o método, embora procurasse justificá-lo como uma forma de garantir que o clube não fosse prejudicado.

Em outro episódio, ocorrido durante uma excursão pela antiga União Soviética, contou a um árbitro que estaria autorizado a contratar juízes estrangeiros para trabalhar na América do Sul. A informação não era verdadeira. Segundo Osório, depois da conversa, o homem tornou-se “muito simpático” com o Bahia durante a partida. O dirigente relata a cena quase com humor, satisfeito com o resultado da estratégia.

Há ainda o amistoso contra o Sporting, em Lisboa. Nos minutos finais, o árbitro correu em direção à marca do pênalti. Osório entrou no campo e afirmou que ele não estava marcando a penalidade, mas encerrando a partida. Diante da pressão, o juiz confirmou o fim do jogo. O empate garantiu ao Bahia a divisão da renda, dinheiro necessário para comprar as passagens de retorno da delegação.

O livro apresenta outras histórias igualmente reveladoras. Osório admite que pagou uma gratificação ao responsável pelo placar de um estádio para que permanecesse exposto o resultado de uma derrota anterior do Bahia por 6 a 0. A intenção era despertar a revolta dos jogadores antes da revanche. Também relata o pagamento de uma premiação aos atletas do Bahia de Feira para que se empenhassem contra o Galícia, adversário direto na disputa por um título estadual.

Nada disso diminui a importância histórica de Osório Vilas Bôas para o Esporte Clube Bahia. Ex-jogador, conselheiro, vice-presidente e presidente, ele comandou o clube entre 1958 e 1960 e, novamente, de 1961 a 1969. Estava à frente do Bahia na conquista da Taça Brasil de 1959, quando o time baiano superou o Santos de Pelé e tornou-se o primeiro campeão do principal torneio nacional daquela época.

Sob a direção dele, o Bahia se fortaleceu institucionalmente, ampliou a torcida e se consolidou como uma das principais forças esportivas do país. Osório também teve longa trajetória pública. Foi inspetor da Polícia Civil, vereador de Salvador e deputado estadual, mandato cassado pelo AI-5 em 1969. Sua vida ultrapassou, portanto, os limites dos estádios.

‘Futebol: Paixão e Catimba’ merece ser lido não apenas pelos torcedores do Bahia. É um documento histórico sobre as relações de poder que cercavam o esporte brasileiro. O valor da obra está justamente na franqueza do autor. Osório não se apresenta como um observador inocente. Ele revela armadilhas, pressões e interferências das quais participou, ao mesmo tempo que tenta estabelecer uma fronteira entre a catimba aceitável e a corrupção.

Talvez essa fronteira nunca tenha sido tão nítida quanto o dirigente imaginava. Uma conversa reservada com um árbitro, uma ameaça de veto, uma indicação conveniente ou uma sucessão de decisões favoráveis pode não deixar recibos ou depósitos bancários. Ainda assim, é capaz de alterar partidas, campeonatos e a confiança do público.

Mais de 50 anos depois, o livro permanece atual. Não porque as histórias tenham necessariamente se repetido, mas porque ajudam a compreender a desconfiança provocada quando os critérios deixam de parecer iguais para todos. Osório escreveu sobre um tempo em que a catimba era praticada nos bastidores e depois narrada com orgulho. Hoje, com dezenas de câmeras, recursos tecnológicos e milhões de pessoas acompanhando cada lance, determinadas decisões continuam produzindo perguntas que nenhuma imagem parece suficiente para responder.

O grande problema não está apenas no erro. Erros sempre existiram e continuarão existindo. O problema surge quando eles seguem repetidamente a mesma direção. Nesse momento, a memória procura explicações. E foi assim que, durante os últimos 30 dias, voltei diversas vezes às páginas de Osório Vilas Bôas.

Osório Cardoso Villas Bôas faleceu em 7 de janeiro de 1999, aos 84 anos. Ele nasceu em Salvador em 7 de outubro de 1914.

Everaldo Goes é graduado em Licenciatura em História, jornalista e editor do Feira Hoje

Siga @feirahoje

19/07/26

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