Zé Coió como fonte histórica
Além do publicitário e cronista, José Carlos Pedreira deixou um acervo valioso para pesquisadores interessados na história, na cultura, na economia, na política e no cotidiano de Feira de Santana
Talvez ainda não tenhamos percebido a real dimensão da importância do legado deixado por José Carlos Pedreira, o Zé Coió, que nos deixou no último domingo, 31 de maio de 2026, aos 88 anos. Entre as muitas homenagens prestadas ao publicitário, empresário e comunicador, merece destaque um aspecto que extrapola sua trajetória profissional. Para pesquisadores interessados na história, na cultura, na economia, na política e no cotidiano de Feira de Santana, sua obra constitui um acervo de valor extraordinário.
Ao longo de décadas, Zé Coió registrou fatos, personagens, acontecimentos, costumes e transformações da cidade. Em muitos casos, não escreveu apenas como observador. Foi testemunha ocular dos acontecimentos, conviveu com inúmeros personagens que retratou e participou de ambientes sociais, culturais, econômicos e políticos que depois transformou em narrativa. Seus textos preservam memórias que dificilmente seriam encontradas em documentos oficiais ou relatórios administrativos.
A relevância desse material pode ser compreendida à luz da própria evolução da pesquisa histórica. Desde a renovação promovida pela Escola dos Annales, na primeira metade do século 20, historiadores como Marc Bloch e Lucien Febvre demonstraram que a História não se constrói apenas com leis, atas, decretos ou grandes acontecimentos políticos. Memórias, experiências cotidianas, práticas culturais e testemunhos também constituem fontes fundamentais para compreender uma sociedade.
Um patrimônio documental da cidade
Sob essa perspectiva, os textos de Zé Coió assumem importância singular. Neles encontramos informações sobre pessoas, famílias, empresas, manifestações culturais, relações sociais, espaços urbanos, lideranças políticas e transformações econômicas que marcaram diferentes períodos da história feirense. Jacques Le Goff lembrava que todo documento é também um testemunho do seu tempo. Peter Burke destacou a importância da História Cultural. Carlo Ginzburg mostrou como pequenos indícios podem revelar aspectos profundos de uma sociedade. A produção de Zé Coió dialoga diretamente com essas reflexões ao registrar o cotidiano da cidade por meio de seus personagens e histórias.
Seus escritos constituem fonte valiosa para historiadores, sociólogos, jornalistas, memorialistas, estudantes, mestrandos e doutorandos interessados em compreender Feira de Santana. Em uma cidade que passou por profundas transformações urbanas, econômicas e sociais ao longo do século 20 e início do século 21, seus relatos ajudam a reconstruir cenários, identificar protagonistas e compreender modos de vida que poderiam desaparecer com o passar do tempo.
Mais do que uma homenagem póstuma, talvez seja o momento de pensar na preservação desse patrimônio documental. A digitalização, catalogação e disponibilização pública de sua produção permitiriam que futuras gerações tivessem acesso a uma parcela significativa da memória feirense. Quando uma pessoa parte, desaparecem experiências e saberes acumulados ao longo da vida. Mas quando seus registros permanecem preservados, a memória continua dialogando com o futuro.
É por isso que a obra de Zé Coió não pertence apenas ao passado. Ela constitui um legado para todos aqueles que desejarem compreender e interpretar a história de Feira de Santana.
Por Everaldo Goes
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04/06/26




