Manter jogador lesionado ajuda a ganhar Copa?
A Copa do Mundo de 2026 começa em 11 de junho, nos Estados Unidos, México e Canadá. O Brasil estreia em 13 de junho contra o Marrocos. Antes mesmo do início da competição, porém, uma discussão já ocupa espaço entre torcedores e analistas. Até que ponto vale a pena manter no elenco um jogador lesionado, sem garantia de condições físicas para atuar desde o início do torneio?
A questão ganhou força após Neymar sofrer uma lesão grau dois na panturrilha e passar a conviver com a possibilidade de desfalcar a Seleção na estreia. Mais do que uma discussão sobre um atleta específico, o episódio convida a uma reflexão sobre as prioridades do futebol brasileiro.
Durante décadas, a regra parecia clara. Em 1982, Careca foi cortado por lesão. Reinaldo, considerado por muitos um dos maiores atacantes do país, também ficou fora da Copa em meio às dúvidas sobre a condição física. Em 1986, Toninho Cerezo e Mozer acabaram cortados. Em 1994, Ricardo Gomes perdeu o Mundial após grave contusão. Em 2002, o capitão Emerson foi retirado da lista depois de machucar o ombro durante um treino recreativo.
Quando o ídolo fala
A própria Copa de 1986 oferece um exemplo interessante. Recuperando-se de uma grave lesão no joelho, Zico participou do Mundial do México sem estar na plenitude física. Décadas depois, em entrevista concedida em 2020, admitiu que não deveria ter ido. Disse que não ouviu o que o coração mandava, que era ficar fora daquela Copa. Não há como afirmar que a presença dele influenciou a eliminação brasileira. Mas o depoimento revela algo importante. O próprio jogador carregava dúvidas sobre as condições de disputar uma competição daquele nível.
Outro episódio emblemático ocorreu em 1998. Considerado um dos melhores jogadores do mundo, Romário ficou fora da Copa da França mesmo com grande pressão popular pela convocação. A decisão dividiu o país, mas foi tomada sob o entendimento de que a Seleção precisava de atletas aptos a competir desde o primeiro jogo.
No campo da indústria da audiência
Hoje, a sensação é diferente. O futebol se transformou em uma poderosa indústria de audiência, patrocínios, direitos de transmissão e engajamento digital. Certos jogadores passaram a representar muito mais do que rendimento dentro de campo. Surge então uma pergunta inevitável. A manutenção de atletas lesionados decorre de uma avaliação técnica ou da dificuldade de abrir mão de símbolos capazes de movimentar milhões de torcedores?
Ninguém discute a importância histórica de Neymar para a Seleção Brasileira. A questão é outra. Se a prioridade continua sendo conquistar o sexto título mundial, manter jogadores sem plena condição física fortalece ou enfraquece a construção de uma equipe realmente competitiva? Talvez essa seja uma das perguntas mais importantes da Copa de 2026.
Everaldo Goes é editor do Feira Hoje
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29/05/26




