Quando ‘Irmãos Coragem’ entrou nas casas — e nas praças — do Brasil
Quando a primeira versão da novela Irmãos Coragem estreou em 1970, criada por Janete Clair e exibida pela TV Globo, muitos brasileiros provavelmente enxergaram ali apenas mais uma narrativa popular em pleno regime militar. Para setores conservadores da época, a televisão brasileira — especialmente a Globo — funcionava como instrumento de defesa da ordem e combate ao avanço do comunismo. Mas, olhando mais de meio século depois, surge uma pergunta histórica inquietante: e se novelas como ‘Irmãos Coragem’ também estivessem ajudando a desmontar silenciosamente os próprios valores tradicionais que parte daquela sociedade imaginava proteger?
A trama mostrava jovens irmãos enfrentando estruturas locais de poder ligadas ao coronelismo. João, interpretado
por Tarcísio Meira, Jerônimo, por Cláudio Cavalcanti, e Eduardo, vivido por Cláudio Marzo, confrontavam o poder do coronel Pedro Barros, interpretado por Gilberto Marinho.
Seria apenas ficção?
Talvez. Mas também é possível interpretar a novela como símbolo de uma profunda mudança social e econômica que já transformava o Brasil. O país deixava de ser majoritariamente rural. Milhões migravam para centros urbanos. O consumo de massa crescia. Rodovias integravam regiões antes isoladas. A televisão consolidava-se como principal meio de comunicação nacional.
Nesse contexto, o velho coronelismo tornava-se cada vez mais incompatível com o novo modelo capitalista urbano-industrial que avançava sobre o país.
Há alguns dias, conversando com o bisneto de um antigo coronel do interior baiano, ouvi críticas duras à televisão brasileira dos dias atuais. Homem culto, vindo de uma tradicional família rural, ele via novelas e programas televisivos como parte da destruição dos antigos valores familiares, religiosos e regionais. Foi então que levantei uma hipótese que o deixou em silêncio: talvez a transformação do Brasil tradicional não tivesse ocorrido apesar da modernização capitalista e midiática, mas justamente por meio dela.
Ele admitiu que aquilo fazia sentido.
Durante muito tempo, setores conservadores brasileiros acreditaram combater o comunismo enquanto apoiavam um processo que transformaria profundamente o próprio imaginário social brasileiro. A modernização econômica precisava de:
– consumidores;
– integração nacional;
– mobilidade;
– enfraquecimento de estruturas locais fechadas;
-e novos padrões culturais.
Atelevisão ajudava a construir esse novo país.
Em muitos municípios do interior, inclusive nas sedes dos distritos, onde poucas famílias possuíam aparelhos televisivos, prefeituras instalaram televisores em praças públicas. Centenas de pessoas reuniam-se à noite para assistir novelas e o Jornal Nacional. Mais do que entretenimento, aquilo representava integração cultural e formação de imaginário coletivo.
Não se trata aqui de afirmar uma conspiração comprovada. Mas ignorar o poder cultural da televisão seria ingenuidade histórica.
Pesquisadores da Comunicação, da Sociologia e da indústria cultural já demonstraram que meios de massa ajudam a moldar comportamento, linguagem, consumo, estética, percepção política e visão de mundo.
A própria música de abertura de ‘Irmãos Coragem’, interpretada por Jair Rodrigues, parecia funcionar como um hino emocional da mudança:
“É preciso coragem…”
Coragem para quê?
Talvez para abandonar um velho Brasil e entrar em outro.
Muito antes da televisão dominar o país, a literatura já registrava sinais do desgaste daquele mundo rural tradicional. Em O Coronel e o Lobisomem, de José Cândido de Carvalho, o coronelismo aparece quase como memória melancólica de um poder condenado ao desaparecimento diante dos novos tempos.
Em algumas regiões brasileiras, essa estrutura desapareceu rapidamente. Em outras — especialmente em partes do Nordeste — resistiu por mais tempo através de prestígio familiar, influência política e relações pessoais de mando.
Muitos idosos ainda recordam aquele período com ambiguidade. Reconhecem abusos, violência e arbitrariedades. Mas também afirmam que “as coisas se resolviam”. Havia sensação de ordem imediata, ainda que sustentada por métodos incompatíveis com a democracia moderna.
Talvez esteja aí uma das grandes ironias históricas do Brasil contemporâneo.
O velho mundo rural não foi desmontado apenas por revoluções de esquerda ou discursos socialistas. Em parte, foi corroído silenciosamente pela urbanização, pelo consumo, pela televisão e pela modernização capitalista apoiada por muitos daqueles que acreditavam estar defendendo a tradição.
*Everaldo Goes é historiador, jornalista e editor do Feira Hoje
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16/05/26




