Artigo / Por Everaldo Goes 7 de maio de 2026

De Sultans of Swing a Feira de Mangaio

O artista de bairro, a música feita por paixão e o que talvez estejamos perdendo

Milhões de brasileiros já ouviram a música Sultans of Swing ao longo de décadas. O solo de guitarra é conhecido, a melodia é agradável, o ritmo é envolvente. Muitos a classificam apenas como “um rock gostoso”. Mas poucos percebem que a canção da banda Dire Straits é quase uma pequena crônica social sobre artistas invisíveis, pertencimento comunitário e música feita antes por paixão do que por mercado.

A música nasceu depois que Mark Knopfler entrou num pub em Londres e viu uma banda simples tocando para poucas pessoas. Pub é uma espécie de bar tradicional muito comum em países do Reino Unido. Mais do que lugares para beber, os pubs funcionam como espaços comunitários, onde pessoas conversam, assistem futebol, ouvem música ao vivo e convivem cotidianamente.

Talvez, para o brasileiro, a melhor tradução cultural de um pub seja aquele pequeno bar de bairro numa praça simpática, frequentado por aposentados, trabalhadores e moradores da região. Gente que nem sempre vai ali para beber, mas para assistir futebol, jogar cartas sem apostas, conversar sobre política, relembrar histórias ou simplesmente sentir que pertence ao lugar. Em muitas cidades brasileiras, inclusive em Feira de Santana, alguns bares acabam se tornando pequenas instituições afetivas do bairro.

De Sultans of Swing a Feira de Mangaio mark knopfler dire straits Feira de Mangaio sivuca gadekha O artista de bairro, a música feita por paixão e o que talvez estejamos perdendoTalvez esses espaços sobrevivam porque oferecem algo raro no mundo contemporâneo: algumas horas de convivência, música e pertencimento em meio à correria e às pressões da vida cotidiana.

É nesse ambiente que surge a cena de ‘Sultans of Swing’. A letra descreve músicos modestos tocando um jazz tradicional chamado ‘Dixie’, referência cultural ao sul dos Estados Unidos e ao estilo Dixieland, ligado ao jazz surgido em Nova Orleans. Em determinado momento, a música diz:

It ain’t what they call rock and roll

A frase pode ser traduzida como:

“Isso não é o que chamam de rock and roll”.

Ali está escondido o coração da música. Aqueles músicos sabiam que tocavam algo fora da moda. Nos anos 1970, o mercado era dominado pelo rock. O swing e o jazz tradicional pareciam antigos. Mesmo assim, eles continuavam tocando.

A música não condena ganhar dinheiro com arte. O contraste é outro: tocar por paixão ou tocar apenas para se encaixar na indústria.

E isso talvez explique por que a canção permanece atual quase 50 anos depois.

Curiosamente, o próprio Mark Knopfler se tornou milionário cantando justamente músicos anônimos que pareciam indiferentes ao sucesso comercial. Existe uma ironia bonita nisso. Algo parecido ocorreu com artistas como Bob Dylan, Bruce Springsteen, Pink Floyd e Nirvana. Todos alcançaram enorme sucesso, mas produziram músicas tentando dizer algo sobre guerra, solidão, alienação, juventude, desigualdade ou angústia humana.

O problema talvez nunca tenha sido o dinheiro. O problema começa quando a arte nasce apenas como produto.

Boa parte da música contemporânea mundial, inclusive brasileira, parece muitas vezes construída já pensando em algoritmo, viralização, repetição rápida e consumo imediato. Isso atravessa vários gêneros, do banal ao religioso. Em muitos casos, o objetivo não parece mais emocionar, contar histórias ou revelar experiências humanas, mas apenas agradar ao mercado.

Talvez por isso ‘Sultans of Swing’ dialogue tanto com a música brasileira mais profunda.

Existe uma ponte surpreendente entre o pub inglês de Mark Knopfler e a feira nordestina eternizada por Sivuca e Glorinha Gadelha em ‘Feira de Mangaio’, popularizada na voz de Clara Nunes.

Quando a letra diz:

Mas é que tem um sanfoneiro no canto da rua

Fazendo floreio pra gente dançar

o Brasil encontra os ‘Sultões do Swing’.

Porque ali também está o artista popular invisível, tocando não para plataformas digitais, algoritmos ou contratos milionários, mas porque a música faz parte da própria vida comunitária. O “ronco do fole sem parar” talvez seja parente distante daquele jazz tocado no pequeno pub londrino.

No fundo, o guitarrista anônimo de ‘Sultans of Swing’ e o sanfoneiro de ‘Feira de Mangaio’ talvez sejam versões diferentes do mesmo personagem universal: o músico de bairro, de praça, de feira, de esquina, que exala talento sem precisar transformá-lo necessariamente em espetáculo de mercado.

Talvez seja justamente isso que emocione tanto nessas músicas. Elas transformam personagens comuns em eternos.

E talvez o mundo contemporâneo, tão acelerado e tão calculado, esteja sentindo falta exatamente disso.

Everaldo Goes é historiador, jornalista e editor do Feira Hoje.

Siga @feirahoje

07/05/25

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