Hilda Ledoux e a construção do Direito em uma sociedade em transformação
Em entrevista ao Feira Hoje, a professora da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs) e homenageada em obra coletiva reflete sobre sua trajetória acadêmica, o papel do ensino jurídico e os caminhos do Direito diante das transformações sociais, destacando o desafio de formar profissionais capazes de interpretar a realidade e contribuir para uma sociedade mais justa. A entrevista foi concedida a Everaldo Goes, editor do Feira Hoje, e a Agenor Sampaio, professor da Uefs e organizador da obra ‘Navegando na jurisprudência do STF e do STJ Estudos em homenagem à professora Hilda Ledoux’, que será lançada nesta segunda-feira (13), às 17h, no Hall da Biblioteca Central Julieta Carteado

Professora Hilda Ledoux Vargas
Agenor Sampaio – Como a senhora recebeu a homenagem em um livro organizado por seus próprios alunos e colegas?
Hilda Ledoux – Com muita alegria!!! Uma grande honra receber uma homenagem tão significativa e bonita para uma professora!
AS – Ao olhar para sua trajetória, qual momento considera decisivo na escolha pelo Direito?
HL – Somos chamados a decidir pela escolha profissional ainda muito jovens. No meu caso, aos 16-17 anos ainda era imatura e não tinha a exata noção do que seria trabalhar com o Direito. Gostava de lidar com pessoas, com palavras e tinha um enorme apelo por justiça. O Direito então me pareceu o caminho certo a trilhar. E assim cheguei aqui.
AS – O que mais lhe marcou ao longo dos anos de docência na Uefs?
HL – O compromisso e dedicação dos estudantes, a entrega e responsabilidade com que os professores ensinam e desenvolvem pesquisa e extensão e a competência do pessoal de apoio ( secretárias e servidores). O ambiente de trabalho é maravilhoso e inspirador.
AS – Como a universidade contribuiu para sua formação e para sua carreira acadêmica?
HL – Contribuiu com muito mais que posso agradecer. Cheguei à Uefs apenas com especialização. Trabalhava como advogada e ensinava em instituições privadas qdo fiz o concurso para professor da Uefs e fui aprovada. Na universidade tive oportunidade de cursar o mestrado e posteriormente, o doutorado. Tive também a oportunidade de aprender bastante com a experiência como coordenadora da área de Direito e com a direção do Departamento de Ciências Sociais Aplicadas – DCIS.
Pude trabalhar com extensão e pesquisa e tudo isso, muito enriqueceu minha formação e carreira acadêmica.
Everaldo Goes – A senhora começou na Uefs como professora auxiliar e chegou à titularidade. O que mudou nesse percurso?
HL – Muito!!! Esse percurso fez de mim uma professora mais atenta ao academicismo, mais cuidadosa com o ensino, a pesquisa e a extensão, mais madura como educadora e pesquisadora e sobretudo, como ser humano.
Vida Acadêmica
EG – O que mais a motiva a continuar na sala de aula após tantos anos?
HL – O brilho que vejo nos olhos dos estudantes; a motivação deles em fazer o melhor possível, além do amor que tenho pelas aulas, pela interação e partilha com os estudantes.
EG – Qual é o maior desafio de ensinar Direito hoje?
HL – Os desafios do ensino público no Brasil: a falta de estrutura e incentivo do governo do estado, o salário defasado e incompatível com a qualidade do ensino superior.
EG – A senhora acredita que os estudantes chegam mais preparados ou mais desafiadores?
HL – Chegam preparados, estimulados e decididos a vencer os desafios que fazem parte da vida e da academia.
AS – Como equilibrar teoria e prática no ensino jurídico?
HL – No caso das disciplinas que ensino (Direito das Famílias, especialmente ) isso não é difícil pq a disciplina tem uma temática dinâmica e que encontramos no dia a dia. Trabalhar com casos práticos, análise crítica das decisões dos tribunais superiores, analisar filmes , obras literárias e músicas com os temas do Direito também ajudam nesse equilíbrio entre teoria e prática. Além disso o estudante tem a oportunidade de fazer estágios o que é bem importante para essa integração.
EG – Qual conselho daria a um estudante que está iniciando o curso de Direito?
HL – Dedique-se, viva a universidade, desfrute de tudo que ela oferece e estude bastante!
Direito e Sociedade
EG – O Direito acompanha a velocidade das transformações sociais?
HL – O Direito deve acompanhar as transformações sociais. É para isso que ele existe. Quando o Legislativo cochila e não consegue acompanhar as mudanças da sociedade, o Judiciário é chamado a dar respostas às questões sociais que batem a sua porta. É o que chamam de ativismo judicial e os estudiosos se empenham em interpretar essas decisões, pesquisando o fato social e contribuindo com a pesquisa para o desenvolvimento e atualização do Direito.
AS – Como a senhora avalia o papel do STF e do STJ na vida cotidiana do cidadão?
HL – Considero um papel importante para pacificar os conflitos sociais trazendo respostas a situações que, algumas vezes, não encontram-se reguladas por lei.
EG – O excesso de judicialização é um problema ou uma necessidade?
HL – A palavra excesso já nos remete a algo que extrapola os limites do aceitável. A judicialização é necessária para resolver conflitos que não são compostos consensualmente ou por meio da auto composição. Mas o excesso leva a uma sobrecarga do Judiciário e a uma resposta lenta e algumas vezes ineficiente.
AS – O Direito de Família mudou muito nas últimas décadas. O que mais chama atenção nessas mudanças?
HL – A necessidade de reconhecimento e regulamentação de famílias e relações familiares antes escondidas ou esquecidas (como a união estável, as uniões paralelas, as uniões homoafetivas, a filiação socioafetiva, por exemplo). Essas famílias e relações ansiam por reconhecimento de sua existência e de uma regulamentação justa e adequada de seus direitos, com base no princípio da dignidade da pessoa humana.

Professor Agenor Sampaio
AS – Temas como multiparentalidade e novas configurações familiares ainda enfrentam resistência?
HL – Sim. São temas polêmicos e não previstos por lei, AINDA. A decisão do STF que decidiu pelo reconhecimento da multiparentidade é de 2015 e até hoje não foi integrada ao sistema jurídico por meio de lei, só para se ter uma ideia. Uniões poliafetivas e simultâneas também não. São temas sensíveis que envolvem religiosidade e valores morais. Enquanto isso, seguimos sem previsão legal para eles.
Pesquisa e Produção
EG – Qual a importância da pesquisa acadêmica na formação do jurista?
HL – A pesquisa é fundamental para o Direito. Por meio dela, os pesquisadores podem contribuir de forma importante para a interpretação e ampliação do conhecimento, apresentando novas teses e construindo novas teorias para o Direito.
EG – Como vê iniciativas que envolvem estudantes na produção de livros, como esta obra?
HL – Vejo com alegria e entusiasmo. Com orgulho também por ter sido escolhida como homenageada por eles para essa obra. Me orgulho principalmente de ser professora da UEFS que possibilita a eles a realização desse feito e por ter alguns dos autores como integrantes do grupo de pesquisa que oriento. A satisfação é enorme em saber que, de alguma forma, os inspiro.
AS – O que diferencia um bom profissional do Direito hoje?
HL – O conhecimento interdisciplinar e a habilidade nas relações pessoais.
Uefs e Feira de Santana
EG – Qual o papel da Uefs na formação jurídica na região?
HL – A Uefs tem um curso de referência nacional. Está entre os melhores cursos de Direito do estado e do Brasil. Já formou profissionais que hoje ocupam cargos relevantes e que fazem a diferença, levando o conhecimento e a humanização do Direito por onde passam.
EG – Feira de Santana oferece oportunidades para quem se forma em Direito?
HL – Sim. A cidade é uma casa de portas abertas para o Direito.
EG – Como a senhora enxerga a relação entre universidade e comunidade?
HL – A extensão universitária contribui para a aproximação entre a universidade e a sociedade. O curso de Direito possui atividades extensionistas destinadas a levar o conhecimento jurídico às escolas, ações focadas na defesa de direitos fundamentais e mediação de conflitos populares, no direito do consumidor, no direito à saúde, assessoria jurídica popular para comunidades rurais e quilombolas, dentre outras que eu possa ter esquecido.
Reflexão Pessoal
EG – Se pudesse resumir sua trajetória em uma palavra, qual seria?
HL – Trabalho
EG – O que ainda a senhora deseja realizar na vida acadêmica?
HL – O inesperado.
EG – Que legado gostaria de deixar para seus alunos?
HL – Um legado de trabalho e entusiasmo pelas mudanças que podemos implementar com o ensino e a pesquisa, na sociedade, contribuindo para um mundo mais justo e igualitário.
EG – O que significa, pessoalmente, ser homenageada em vida por meio desta obra?
HL – Uma grande honra e realização.
Feira Hoje, 11/04/26
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