Por que Feira desacelera na Sexta-Feira Santa — e o que isso revela sobre a cidade
Herança colonial, rituais coletivos e novas formas de viver o feriado ajudam a explicar por que a data ainda molda o ritmo urbano
Nesta Sexta-Feira Santa, Feira de Santana desacelera. O movimento intenso do comércio diminui, ruas ficam mais silenciosas e a cidade parece seguir um ritmo diferente. Mais do que um marco religioso, o dia revela um comportamento coletivo que atravessa gerações e permanece presente mesmo em uma sociedade cada vez mais diversa.
Essa pausa tem raízes históricas. Foi trazida ao Brasil ainda no período colonial, especialmente de Portugal, a partir de rituais públicos ligados ao luto, à penitência e à memória. Procissões, encenações e práticas coletivas ocupavam ruas e mobilizavam comunidades, estruturando o calendário e a vida urbana.
Rituais que organizavam a vida coletiva
Estudos de historiadores como João José Reis, Laura de Mello e Souza e Ronaldo Vainfas ajudam a compreender esse fenômeno. Ao analisarem práticas como procissões do “Senhor Morto”, irmandades religiosas e rituais públicos de luto, esses pesquisadores mostram que tais manifestações ultrapassavam o campo da fé individual e desempenhavam um papel central na organização da vida social.
Nesses contextos, a Sexta-Feira Santa se insere nessa mesma lógica como um momento coletivo de reflexão e silêncio, mas também como uma forma de lidar com temas universais como morte, sofrimento, culpa e pertencimento. Mais do que religião, trata-se de um dispositivo cultural que ajuda a organizar o tempo e os vínculos sociais.
Entre tradição e ressignificação
Com o passar do tempo, esses sentidos foram se transformando. Em Feira de Santana, como em outras cidades brasileiras, a data também passou a ser vivida como feriado comum por parte da população. Para muitos, é um dia de descanso e lazer — com deslocamentos para praias, encontros entre amigos e práticas populares como os tradicionais ‘babas-de-saia’, em que grupos jogam futebol de forma descontraída e bem-humorada.
Já houve, inclusive, tentativas de restringir o funcionamento de bares nessa data, em sintonia com o significado religioso original, o que revela tensões entre tradição e mudança. Ainda assim, o que se observa é a convivência de diferentes sentidos atribuídos ao mesmo dia.
Múltiplos sentidos para um mesmo dia
Assim, a Sexta-Feira Santa permanece como um marco no calendário, mas com significados múltiplos. Entre o silêncio herdado da tradição e a diversidade de práticas contemporâneas, a cidade desacelera — e revela como cultura, história e cotidiano seguem entrelaçados.
Everaldo Goes é graduado em Licenciatura em História, jornalista e editor do Feira Hoje
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03/04/26




