Artigo / Por Adalberto Nunes 22 de março de 2026

Autismo e neurodivergência em tempos de diagnósticos rápidos

Em meio à ampliação dos critérios clínicos e à influência das redes sociais, cresce o número de pessoas que se reconhecem em categorias diagnósticas. O fenômeno amplia o debate sobre inclusão, mas também acende um alerta sobre simplificações e excessos

Há uma inquietação silenciosa atravessando o nosso tempo. Nunca se falou tanto sobre saúde mental, e, paradoxalmente, nunca pareceu tão difícil compreender o que, de fato, nos aflige.

Multiplicam-se diagnósticos, laudos, classificações. Em meio a essa profusão de nomes, cresce também uma sensação difusa de pertencimento a categorias clínicas. Para muitos, não se trata apenas de compreender um sofrimento, mas de encontrar, rapidamente, um lugar onde ele possa ser reconhecido.

O fenômeno não surge por acaso. A ampliação dos critérios diagnósticos em manuais como o DSM-5 contribuiu para que condições como o Transtorno do Espectro Autista passassem a abarcar um espectro mais amplo de manifestações. O que antes era identificado em casos mais evidentes hoje inclui formas mais sutis, ampliando o alcance do diagnóstico.

Essa mudança teve efeitos importantes, sobretudo na inclusão e no reconhecimento de pessoas historicamente invisibilizadas. Mas também trouxe novos desafios.

Entre o reconhecimento e o excesso

Parte da comunidade científica tem chamado atenção para o risco do chamado sobrediagnóstico, quando critérios mais amplos e contextos sociais específicos levam à classificação de experiências humanas diversas como condições clínicas.

O psiquiatra Allen Frances, que coordenou uma edição anterior do manual diagnóstico, tornou-se uma das vozes mais críticas desse processo. Para ele, a expansão excessiva de categorias pode transformar aspectos da vida cotidiana em patologias, diluindo a fronteira entre sofrimento e doença.

Isso não significa negar a existência dos transtornos, tampouco deslegitimar quem recebe um diagnóstico sério e bem fundamentado. Significa, antes, reconhecer que o campo da saúde mental é atravessado por incertezas, interpretações e influências culturais.

O papel das redes e da autoidentificação

Outro elemento contemporâneo se soma a esse cenário. As redes sociais passaram a desempenhar um papel central na difusão de informações sobre saúde mental, muitas vezes traduzindo conceitos complexos em linguagem acessível, mas nem sempre precisa.

Vídeos curtos, listas de comportamentos e testes informais circulam amplamente, oferecendo explicações rápidas para experiências subjetivas. Nesse ambiente, a identificação pode ocorrer antes mesmo de uma avaliação clínica rigorosa.

Não é raro que indivíduos se reconheçam em descrições genéricas e passem a interpretar suas vivências exclusivamente à luz de um possível diagnóstico. O risco, nesse caso, não está apenas no erro, mas na redução da complexidade da experiência humana a um rótulo único.

A importância da escuta qualificada

O pesquisador Simon Baron-Cohen, referência nos estudos sobre o autismo, ressalta que o espectro é amplo e exige avaliação cuidadosa, contextualizada e multidisciplinar. Não se trata de um traço isolado ou de um comportamento pontual, mas de um conjunto de características que precisam ser compreendidas em profundidade.

A escuta clínica, quando realizada com rigor, não busca apenas enquadrar o indivíduo em categorias, mas compreender sua história, suas relações e o modo como se constitui no mundo.

Ao substituir essa escuta por classificações apressadas, corre-se o risco de perder justamente aquilo que mais importa.

Nomear não é explicar

Há, no fundo, uma questão mais profunda. Nomear um sofrimento não equivale a explicá-lo. Muito menos a resolvê-lo.

Vivemos em uma época que valoriza respostas rápidas. Diante da angústia, do desconforto, da sensação de inadequação, a promessa de um diagnóstico pode funcionar como alívio imediato. Ele organiza, dá sentido, oferece pertencimento.

Mas também pode limitar.

Ao reduzir a experiência a uma categoria, corre-se o risco de deixar de investigar outras dimensões do sofrimento, como contextos sociais, trajetórias pessoais, relações familiares e condições de vida.

Um convite à cautela

Não se trata, portanto, de negar diagnósticos, nem de desautorizar profissionais. Trata-se de um convite à cautela.

É preciso  que há, sim, pessoas neurodivergentes, que demandam respeito, compreensão e políticas adequadas. Mas é igualmente necessário evitar que toda forma de mal-estar seja imediatamente convertida em classificação clínica.

Entre a invisibilidade e o excesso, existe um caminho mais exigente, que passa pela escuta, pela reflexão e pelo cuidado.

O risco dos rótulos

Talvez o maior risco do nosso tempo não seja a ausência de nomes, mas o excesso deles.

Há uma geração que, em busca de compreender a si mesma, encontra respostas rápidas demais para perguntas que exigiriam mais tempo, mais escuta e mais silêncio.

O diagnóstico pode ser uma ferramenta valiosa. Mas, quando utilizado de forma indiscriminada, pode transformar-se em atalho.

E atalhos, como sabemos, nem sempre nos levam ao lugar certo.

*Adalberto Nunes é professor e colaborador do Feira Hoje.

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22/03/26

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