O afoxé Filhos de Gandhy e a mestiçagem brasileira: outros modos de ser e viver o comum
Neste artigo, o professor Humberto de Oliveira analisa o Afoxé Filhos de Gandhy como expressão da mestiçagem brasileira, refletindo sobre identidade, tradição e novas formas de viver o comum entre o sagrado e o profano
Humberto Luiz Lima de Oliveira (CELCFAAM- UEFS-BRASIL)
À Rémi Astruc, que me sinalizou a possibilidade de outras formas de utopia.
« Nous ne pouvons transmettre au lecteur, sous forme de concepts, ce dont nous traitons ici. Nous pouvons, toutefois, le représenter au moyen d’exemples, pourvu que nous n’ayons pas de crainte, quand il s’agit d’un sujet important, de les chercher dans nos plus intimes recoins de la vie personnelle. Car, où donc pourrions-nous trouver des exemples pareils ? » (Buber, 1982, p. 37)
Uma das mais famosas atrações do Carnaval da cidade de Salvador, na Bahia, sem dúvida alguma, é o Afoxé Filhos de Gandhy, cujo desfile se constitui em um dos pontos altos do período carnavalesco. [1]
Ao ver mais de dez mil homens, de variadas idades, de diversas tonalidades de pele, de classes sociais distintas, alguns falando línguas estrangeiras além do português, todos, e cada um, sem exceção, procurando ser fiéis, ao máximo, ao som e ao ritmo da canção ijexá, ao som de atabaques, após terem sido abençoados por um sacerdote do candomblé, cada um e todos tomados por uma apaixonada vontade de ser e viver em paz, de levar a paz para a rua, de espalhar a paz no mundo, é inevitável pensar em uma aporia, em uma contradição insolúvel.
De fato, este aglomerado humano, aparentemente tão diverso ou excêntrico, reúne-se no e para o carnaval, uma festa eminentemente pagã, dedicada às alegrias da carne segundo o ideário cristão que, em seu calendário, prevê que, logo após esta festa orgíaca, tenha lugar a Quaresma, um tempo de penitência, de sofrimento infligido à carne, logo, punição de “pecados”, tempo de viver voltado sobre si mesmo, tempo de introspecção.
No entanto, é exatamente no Carnaval da Bahia, particularmente desta cidade chamada de “Roma negra”, que estes milhares de homens candidatam-se a integrar este bloco carnavalesco, compram a indumentária, aceitam vestir-se como “orientais”, fantasiam-se de “árabes” e “muçulmanos” e vêm integrar o afoxé.
Creio que seja importante tentar oferecer uma ideia menos vaga do que seja um afoxé. Antes de tudo, convém dizer que sua cadência é de grande beleza, e o movimento dos corpos, acompanhando o ritmo na dança, enche de beleza plástica a avenida por onde passa o cortejo. E, o mais importante, o afoxé é também um candomblé de rua, um cortejo que sai durante o carnaval. É uma manifestação afro-brasileira com raízes no povo iorubá, em que seus integrantes são vinculados a um terreiro de candomblé e que tem rituais que necessitam ser respeitados, tais como:
1. O desfile só pode acontecer depois de invocadas as divindades, depois de cumpridos rituais públicos e secretos (“a parte do axé”);
2. No domingo e na terça-feira, antes da saída do bloco, é feito o padê para Exu, a fim de que a divindade conceda licença para a festa e permita que os foliões possam brincar com tranquilidade;
3. Os afoxés, e notadamente os Filhos de Gandhy, tocam essencialmente o ritmo ijexá[2], que é um ritmo suave e destinado aos orixás Exu, Oxum, Osain, Ogum, Logum-edé, Obá, Yansã e Oxalá. É tocado exclusivamente com as mãos.[3]
Observe-se que o principal instrumento musical utilizado nos rituais chama-se runi, em iorubá, sendo traduzido por voz ou rugido — ahún ou grunhido = hún, conforme estudiosos. Eis o que diz José Flávio Pessoa de Barros em seu artigo online intitulado Mito, memória e história: a música sacra de Xangô no Brasil:
“[…] O maior deles, de tom grave, chama-se run, o que significa, em iorubá, voz — ohùn ou rugido, grunhido — hùn (Caciatore, 1977: 222). Outros atribuem a esse nome outro significado, proveniente da língua fon, e que teria o sentido de sangue ou coração (Lacerda, 1998: 7). Todas as acepções aludem ao caráter especial que o instrumento possui no contexto religioso. É o responsável pelo solo musical e variações melódicas, e também pelas invocações dos deuses. De som grave, geralmente percutido com uma baqueta de madeira e uma das mãos, é considerado como « o que chama os orixás », o som que chega ao « orum », terra dos ancestrais […]” [i]
É importante observar que o nome afoxé vem do iorubá e significa a, prefixo nominal; fo = dizer, pronunciar; xé = realizar-se. Para alguns estudiosos, afoxé quer dizer o enunciado que faz acontecer.
Interessa-nos aqui entender esse enunciado que faz acontecer. Pensamos que se trata, de fato, do poder da energia que se manifesta inicialmente pela palavra, pelo apelo, pelo chamado, pela conjuração, que se faz verbo. Daí a necessidade de observar o ritual de conjuração. Ou seja, passa pela invocação da divindade que, ao se manifestar, enunciará as condições, profetizará os acontecimentos, definirá as condições para a saída do cortejo e concederá suas dádivas, suas bênçãos, afastando os perigos e atraindo o bem. Por isso o uso de instrumentos específicos, como os atabaques e, dentre eles, o run.
De fato, quer seja em iorubá, significando voz ou rugido, quer seja na língua fon, significando sangue ou coração, cabe ao instrumento um papel destacado no ritual. É graças a ele, ao seu toque, que se possibilitam tanto o solo musical quanto suas variações melódicas, além da correta invocação das divindades.
Convém ressaltar que o candomblé é uma religião que escapa aos maniqueísmos, à lógica binária do “ou isto ou aquilo”, “ou o bem ou o mal”. A mesma palavra pode ser invocada para o bem ou para o mal, a depender das circunstâncias. Mal e bem podem andar juntos, de mãos dadas, ou do mal fazer-se o bem e do bem surgir o mal.
O bem, ou o bom, é, no Carnaval, saber que se poderá manifestar livremente sua identidade, ou viver uma outra identidade, mas, de qualquer modo, entregar-se sem freios à dança, ao canto, ao ritmo, aos sons da festa, aos apelos do corpo e, talvez, ao álcool, pois há foliões que não bebem (!), mas que, ainda assim, entregam-se ao frenesi da música ensurdecedora dos trios elétricos e talvez esperem ter sucesso sendo caça e caçador, pois o Carnaval é também, para muitos, o espaço da sedução, da conquista amorosa ou sexual.
O “mal” estaria, claro, na possibilidade da desmedida: da violência que leva à agressão moral ou física, do roubo e do furto, do excesso de álcool ou de comida. Das doenças sexualmente transmissíveis também se tem medo. Por isso, é preciso apelar à proteção das divindades. E aqui ficam claras as razões da opção pelas religiões de herança afro: ao contrário das religiões de tradição judaico-cristã ou muçulmana, o candomblé é uma religião extremamente aberta e isenta de julgamentos. É o pensamento do homem que determina a qualidade moral de sua ação. Poder-se-ia dizer que o “pecado” é uma noção pouco conhecida, embora possa ser traduzido como sendo “tudo aquilo que não faz bem à alma e ao corpo de quem o pratica”.
Talvez por isso, a partir dos anos setenta do século XX — e não é coincidência que essa seja a década em que as manifestações da chamada contracultura passam a surgir e circular com mais ênfase na Bahia e no Brasil —, os intelectuais brasileiros começam a repensar a cultura nacional e levam a classe média urbana a descobrir a beleza das manifestações da cultura popular e, dentre elas, o carnaval de rua e os afoxés, em especial.
Torna-se “chic” frequentar alguns terreiros famosos e também brincar ao som do trio elétrico — o que antes era considerado “coisa de gentalha” —, e formam-se blocos carnavalescos dos mais diversos. Descobre-se também o fascínio dos afoxés. O que passava despercebido agora se destacava na multidão. O que estava debilitado conhecerá o ânimo necessário para refazer-se e evidenciar-se, como comprovam as palavras do intelectual, poeta, músico e ex-ministro da Cultura do Brasil, Gilberto Gil:
“Aquela aparição extraordinária do Gandhy, em 1949, foi uma comoção muito grande para mim. Os elementos ligados à expressividade negra, os aspectos orientais, os turbantes ligando ao Oriente Médio, fazendo ponte com a Índia, todas essas coisas que eu vim a saber depois, estavam ali, naquele momento, naquela aparição, naqueles homens com aqueles tamancos, com aquela singela elegância. […] Vem a adolescência, eu vou-me embora da Bahia e volto depois do exílio, em 1973. Vou ver o Carnaval. Encontro o (Afoxé Filhos de) Gandhy quase sem poder entrar na avenida (um pequeno grupo de integrantes, na Praça da Sé, sem conseguir passar). Os blocos de índio, muito fortes e hegemônicos, não deixavam espaço, mandavam na avenida. O Gandhy não conseguiu entrar até a hora em que fiquei por lá. Aquilo me doeu e fui para casa com a decisão de fazer alguma coisa…” (Gilberto Gil, 2009, n. 47, p. 28-30)
Outros intelectuais e dirigentes de afoxés famosos na Bahia tecem severas críticas a este Afoxé Filhos de Gandhy que, diferentemente dos anos iniciais, aceita em suas fileiras foliões “estranhos”, isto é, alheios aos critérios de pertença, de origem, de religião — ou seja, não negros ou mestiços, não pertencentes ao terreiro, nem adeptos do candomblé.
Na verdade, os Filhos de Gandhy tornaram-se um símbolo de status e de prestígio masculino para o carnavalesco de classe média: desfilar em suas fileiras, de turbante e colar de contas brancas e azuis, constitui-se, no Carnaval da Bahia, um momento de alto destaque social, que pode trazer pontos no currículo amoroso e social de um carnavalesco. Por isso, ao invés de “[…] daqueles 100 de 1973 […] hoje são mais de 10 mil […]” [4].
Vejamos agora o que diz outra voz, a do Prof. Dr. Jaime Sodré, que, como músico, tocou bateria no trio de Dodô e Osmar e foi alabê dos Filhos de Gandhy:
“[…] Eu era alabê do Gandhy. Quando saí, havia uma unidade que era a dos lanceiros. Eram senhores que iam com uma lança e, se você cometesse qualquer tipo de indisciplina, era expulso. E os colares que se usavam não eram para dar a senhor ninguém, pois eram colares de santo. Sabe como é que se saía no Gandhy? Se eu, associado, te convidasse. E, se essa pessoa se portasse mal, nós dois saíamos do bloco. Então era pouca gente, conhecida. De repente, o Gandhy começou a atrair pessoas que não são da religião, e aí perdeu-se a disciplina, o conjunto foi inchando. O bloco passou a ter prestígio depois de Camafeu de Oxóssi e Gilberto Gil. Virou mito, começou a provocar fascínio na juventude e nas mulheres. Aí as meninas ficam trocando beijo por colar… É a mentalidade carnavalesca atual. O foco do Carnaval, que era brincar com respeito mútuo, isso já foi. Agora é a posse. E aquele colar… Se fosse benzido, pelo menos (risos). […]” (MENDONÇA, 2009, p. 9)
Estas duas falas, de lugares sociais nem tão distantes assim — ambos os discursos são enunciados por intelectuais que conseguem fazer ecoar suas falas com maior ou menor intensidade, a depender do momento e dos ouvintes —, mostram bem o (alegre) drama em que vivem este e outros afoxés que não recusaram a participação e a colaboração de intelectuais.
Ou que viram, de maneira intuitiva, a oportunidade de deixar a pobreza franciscana em que viviam e livrar-se das dificuldades financeiras. O caminho mais fácil foi o mais conhecido: fazer certas concessões. Ou, ainda, compreender que, para permanecer, é preciso acompanhar os tempos.
Por exemplo, foliões que não são adeptos do candomblé, nem acreditam nas divindades, mas desejam desfilar no bloco, precisam acatar os rituais e seguir determinadas orientações.
Para evitar maiores constrangimentos, no site do bloco, na primeira página, são apresentadas as regras que devem reger a participação no desfile:
PARA MANTER UMA PERFORMANCE DO NOSSO “TAPETE BRANCO DA PAZ”, FAZEMOS ALGUMAS OBSERVAÇÕES:
- NÃO É PERMITIDO QUE OS ASSOCIADOS COLOQUEM MULHERES DENTRO DA CORDA, POIS PODERÃO SOFRER PUNIÇÃO AUTOMÁTICA.
- O TRAJE DO MAIOR AFOXÉ DO MUNDO PERTENCE A VOCÊ. NÃO TIRE O SEU TURBANTE PARA COLOCÁ-LO NA CABEÇA DE MULHER, POIS O TURBANTE É O SÍMBOLO MAIOR DA NOSSA INDUMENTÁRIA.
- NÃO É PERMITIDO DESRESPEITAR TURISTAS, REPÓRTERES, ASSOCIADOS E O PÚBLICO EM GERAL. GANDHY SEMPRE PREGOU A NÃO VIOLÊNCIA.
- NÃO USE DEMASIADAMENTE BEBIDAS ALCOÓLICAS PARA NÃO DENEGRIR A NOSSA IMAGEM (sic).
- NÃO TRANSFORME O AFOXÉ EM DOIS BLOCOS, FICANDO FORA DA CORDA. COLABORE DENTRO DELA, POIS A BELEZA PLÁSTICA É FUNDAMENTAL!
- NÃO É PERMITIDO O USO DE ADEREÇOS DIFERENTES, COMO CHUPETAS E PENAS NO TURBANTE. SÓ O USO DO BROCHE PADRÃO.
- O CORPO DE SEGURANÇA E OS CORDEIROS EXISTEM PARA DAR MAIOR TRANQUILIDADE A VOCÊ. AJUDE-OS, NÃO DIFICULTANDO SEU TRABALHO (sic).
- CONFIRA OS ITENS DE SUA FANTASIA. O VERDADEIRO SÓCIO DO GANDHY SERÁ FISCAL DO FALSO SÓCIO. NÃO SE JUNTE A ELE PARA NÃO SE CONTAMINAR.
Se lanças havia e eram apontadas, é porque as transgressões existiam e transcorriam habitualmente, sendo até mesmo previsíveis, pois os castigos eram conhecidos e corriqueiros.
Atualmente, ao invés da arma, há uma relação de regras de boa conduta esperada de cada participante, com uma clara ameaça para aquele que praticar o que parece ser uma transgressão imperdoável: colocar uma mulher dentro da corda, isto é, integrá-la ao desfile, que deve ser eminentemente masculino (regra n. 1).
A punição mais rigorosa é ser expulso do bloco. Fora disso, apela-se para a “boa consciência”, aconselha-se e pede-se colaboração: evitar o uso demasiado de bebida alcoólica, por exemplo, para não “denegrir” a imagem do bloco.
São outros os tempos, outros mores, poderíamos dizer.
Não sei se deveríamos lamentar a ausência de tamancos nos pés, que hoje podem calçar marcas famosas de tênis. Ou lamentar também que a adesão ao bloco não esteja mais vinculada tão somente ao critério de recomendação, ao aval da conduta do neófito (pode-se até discutir a autoridade moral de quem indica, tanto quanto a do indicado).
De fato, dentre os mais de dez mil foliões já apontados, uma grande parcela vem das classes médias média e alta. São rapazes que se diferenciam dos antigos estivadores pela cor da pele mais clara ou menos negra e por serem, em sua maioria, jovens — alguns recém-saídos da adolescência, outros ainda imberbes, é verdade —, e que portam tênis Adidas ou Reebok, não importa se importados ou comprados no camelô, falsificados, portanto.
Mas há também elegantes senhores ou professores universitários tentando parecer “blasés” ou “descolados”, e que tentam acompanhar os cânticos e os passos da dança que desconhecem — ou nos quais não acreditam.
Não importa: lá estão na avenida como “iniciados”, seguindo uma outra tradição, a do candomblé de rua.
Seus adeptos deixaram as lanças, mas se tornaram muito mais conhecidos. Formam uma multidão e passaram a ser cobiçados por grande parte das mulheres que vão ao Carnaval e se dispõem previamente a esperar a passagem do cortejo.
E não se pense que são apenas garotinhas, ninfetas ou afoitas balzaquianas da classe média, entediadas, à busca de aventuras, que esperam a passagem desses “cavaleiros do Oriente”.
É que a mística de um bloco de estivadores, de homens rudes e estranhamente pacifistas, que quebram o ritmo frenético do Carnaval com uma canção ijexá que convida quem a ouve a voltar-se para si mesmo, a escutar-se na escuta desse som aparentemente desconhecido — mas que encontra estranhas ressonâncias na alma baiana ou brasileira, não importa a classe ou a cor da pele —, essa mística perpassa o imaginário social.
Desperta nos homens o ciúme e uma certa expressão de falso desdém, puro despeito recolhido no silêncio. E, nas mulheres, torna-se um atrativo.
Trocam beijos por colares? Não. Apenas um beijo — mesmo que demorado, lânguido, molhado, sensual — por um colar.
Como uma prenda, essa nova donzela dos tempos hipermodernos levará seu colar branco e azul, lembrando-se talvez de um cavaleiro de mãos calejadas que a beijou de modo mais ardente do que o esperado. Ou o inverso pode ter acontecido.
Um maduro trabalhador do porto, ou vendedor ambulante, rígido em sua moral de operário, lembrar-se-á, com certo orgulho, de uma jovem ou de uma mulher madura, bonita e perfumada, que deslizou em sua boca um desejo que ele não julgava possível em alguém tão aparentemente franzina e elegante.
Além do mais, o nome do Afoxé Filhos de Gandhy ficou para sempre associado ao tema da não violência, sendo seus foliões vistos como “cavaleiros da paz”.
Daí a aparente contradição, aos olhos dos que pensam por uma lógica essencialmente binária: como dez mil homens podem desfilar em silêncio, sob cânticos de oração, em plena festa de Carnaval, tradicionalmente associada ao tumulto, à algazarra, ao excesso?

Tapete branco toma as ruas de Salvador — Foto: Mateus Pereira/GOVBA
Não sabem os descrentes que, para prevenir-se de toda violência — das brigas, das badernas, das enrascadas e atrapalhações —, antes de tudo se pede permissão ao senhor dos caminhos, Exu, o brincalhão, o sensual, o irreverente, mas também o mensageiro, o passeur, responsável pelo trânsito entre o mundo do aqui e do agora e o do além, entre o profano e o sagrado.
Por isso o padê, a oferenda como ritual obrigatório, que se completa publicamente na praça.
Claro que, na contemporaneidade, os processos de modernização fazem com que se percam antigas marcas étnicas, apagando traços de uma suposta “pureza” identitária, tão lamentada por alguns.
Mas talvez devêssemos aprender com o bambu que, ao se vergar sob as tempestades, ao contrário de árvores grandes e fortes, não se quebra como o carvalho. Passada a tormenta, recompõe-se em seu pleno verdor.
Ao contrário de outros afoxés que buscam uma certa “pureza” étnica, os Filhos de Gandhy passam a primar pela heterogeneidade, pela diversidade de seus adeptos.
E não deixa de ser interessante observar que a cidade para para ver esse Afoxé, que, ao abrir-se para não iniciados, desperta o rancor e a ira dos que defendem um “retorno às origens”, uma etnicidade rígida.
Logo ele, que se mantém fiel à marca masculina que historicamente rege um afoxé, ao contrário de outros blocos que cruzam gênero e etnia, ou mesmo daqueles exclusivamente formados por negros, mas nem sempre vinculados ao candomblé.
O certo é que, mestiço, os Filhos de Gandhy são esperados na avenida para “abençoar” o Carnaval. Para aspergir água de cheiro, limpar caminhos, semear a palavra de amor e gratidão aos ancestrais e saudar as divindades.
Para mostrar ao mundo como podem conviver o sagrado e o profano — não como opostos, mas como dimensões interdependentes.
E, dessa forma, paramentados como “orientais”, milhares de homens trazem ao Ocidente uma tradição de sabedoria de vida que parecia perdida aos foliões mais afoitos, oferecendo-lhes a oportunidade de reencontrar, em plena folia, a palavra do divino.
Para assombro daqueles que, moldados pelo pensamento binário ou pela busca do absoluto, não acreditam na possibilidade de viver, no aqui e no agora, formas de ser e viver em comum.
Pois é assim que desfila o Afoxé Filhos de Gandhy: sob o signo do transitório e do imponderável, dançam esses homens, cheios de paixão de viver, de todas as idades, de crenças diversas, momentaneamente desligados de seus passados, aceitando partilhar de um afoxé.
Pedem licença a Exu, mensageiro da alegria, para viver — ainda que por instantes — a própria alegria de viver, cantando e dançando a mais bela canção ijexá.
Ijexá
Clara Nunes
Filhos de Gandhi, badauê
Ylê ayiê, malê debalê, otum obá
Tem um mistério
Que bate no coração
Força de uma canção
Que tem o dom de encantar
Seu brilho parece
Um sol derramado
Um céu prateado
Um mar de estrelas
Revela a leveza
De um povo sofrido
De rara beleza
Que vive cantando
Profunda grandeza
A sua riqueza
Vem lá do passado
De lá do congado
Eu tenho certeza
Filhas de Gandhi
Ê povo grande
Ojuladê, katendê, babá obá
Netos de Gandhi
Povo de Zambi
Traz pra você
Um novo som: Ijexá
E, durante essas horas em que desfilam pelas avenidas, mais de dez mil homens, ao aceitarem partilhar regras previamente estabelecidas, não hesitam em compor uma comunidade de iguais, de foliões, ainda que sem a consciência de viver o Comum, mas sabendo que nele estão.
Referências bibliográficas
ASTRUC, Rémi. NOUS?L´aspiration à la Communauté et les arts. Versailles: RKI Press, 2015.
BARROS, José Flávio Pessoa de. Mito, memória e história. A música sagrada de Xangô no Brasil. In http://www.rizoma.net/interna.php?id=156&secao=afrofuturismo
BAUMAN, Zygmunt. Vida líquida. Tradução Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Zahar, 2007.
GIL, Gilberto.” O Gandhy é o mundo”. In Muito. Gandhy 60. Suplemento cultural do jornal A Tarde. domingo23 de fevereiro de 2009.
MENDONÇA, Tatiana. “A gente precisa democratizar a alegria” In Muito. Gandhy 60. Suplemento cultural do jornal A tarde. domingo23 de fevereiro de 2009, n. 47, p. 9-13.
LIMA DE OLIVEIRA, Humberto Luiz. La perception de l’« Autre » à travers Ashini (1960) d’Yves Thériault au Canada, Tenda dos Milagres (La Boutique aux miracles, 1969) de Jorge Amado au Brésil et L’Espérance-macadam (1995) de Gisèle Pineau aux Antilles. Thèse de doctorat sous la direction d’Alain Vuillemin. Université d’ Artois, 2009, disponível em: <http://www.theses.fr/2009ARTO0009/document>. Acesso em 17 julho de 2016.
ORTIZ, Renato. Cultura brasileira e identidade nacional. 4.ed. São Paulo:Brasiliense, 1994.
Referências eletrônicas
http://www.fabula.org/revue/cr/333.php
http://www.filhosdegandhy.com.br/
http://pt.wikipedia.org/wiki/Filhos_de_Gandhy
http://www.ask.com/bar?q=afox%C3%A9s&page=1&qsrc=121&ab=0&u=http%3A%2F%2Fwww.bahia-online.net%2Fafoxes-blocosafros.htm
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http:.wikipedia.org/wiki/Demografia_do_Brasil
https://screenshots.firefox.com/j794vlJrR ADAsqYJ/blogs.correio24horas.com.br
www1.folha.uol.com.br/folha/brasil/ult96u74571.shtml
http://www.hist.umn.edu/~rmccaa/laphb/28fall98/laphb28a.htm
[1] Foto extraída dehttps://screenshots.firefox.com/j794vlJrR ADAsqYJ/blogs.correio24horas.com.br (acessado em 27.09.2017)
[2] Ijexá é uma nação do Candomblé, formada pelos africanos escravizados vindos de Ilesa, na Nigéria, e que vieram em maior quantidade para a região do Reconcâvo baiano, notadamente em Salvador (Bahia).
[4] “Há 35 anos desfilo no Gandhy.Nesses anos vi passar por ali muita gente importante da vida musical e cultural da Bahia, das interfaces entre a cultura negra e a cultura da classe média, muita gente das universidades, das escolas, da vida política”[…](Gilberto Gil, ibd
[5] Trata-se de um título honorífico dos mais respeitados nas comunidades religiosas. Cabe a ele, além da função de entoar os cânticos e iniciar no aprendizado litúrgico os que ainda se encontram em formação, zelar pelos instrumentos musicais, conservar sua afinação, e providenciar as cerimônias de consagração daqueles que, produzindo os sons da música, estabelecem a relação entre os homens e as divindades. (Cf MITO, MEMÓRIA E HISTÓRIA: A música sacra de Xangô no Brasil
José Flávio Pessoa de Barros. http://www.rizoma.net/interna.php?id=156&secao=afrofuturismo
[6] “Exu é o orixá da comunicação, da paciência, da ordem e da disciplina. É o guardião das aldeias, cidades, casas e do axé, das coisas que são feitas e do comportamento humano. A palavra Èșù, em iorubá, significa ‘esfera’, e, na verdade, Exu é o orixá do movimento. Ele é quem deve receber as oferendas em primeiro lugar a fim de assegurar que tudo corra bem e de garantir que sua função de mensageiro entre o Orun (o mundo espiritual) e o Aiye (o mundo material) seja plenamente realizada”.https://pt.wikipedia.org/wiki/Exu_(orix%C3%A1) acesso em 27.09.2017
[7] Afoxé Filhas de Oxum, por exemplo.
[i] José Flávio Pessoa de Barros. MITO, MEMÓRIA E HISTÓRIA: A música sacra de Xangô no Brasil
José Flávio Pessoa de Barros. http://www.rizoma.net/interna.php?id=156&secao=afrofuturismo
* Humberto Luiz Lima de Oliveira, professor, membro honorário da Academia Metropolitana de Letras e Artes, membro efetivo das Academia Feirense de Letras, Academia Brasileira de Artes Integradas, Academia de Cultura da Bahia, Academia internacional de Literatura Brasileira, é também colunista do Jornal Feira Hoje.
Publicado originalmente na revista Communauté des Chercheurs sur la Communauté
19/03/26




