Tecnologia e Comportamento 12 de março de 2024

O potencial de criação de dependentes de eletrônicos e internet: uma análise crítica dos jogos móveis

O design desses jogos foi feito com a intenção de criar um ciclo vicioso de dependência dos jogadores?

(Por Everaldo Goes*) – Nos últimos anos, a popularização de jogos móveis gerou uma série de questionamentos sobre o impacto dos dispositivos eletrônicos na sociedade, especialmente entre as gerações mais novas. Alguns desses jogos, com mecânicas simples e envolventes, se tornaram fenômenos mundiais, com milhões de downloads e uma base de jogadores predominantemente composta por crianças e adolescentes. Qual jovem não “brincou” com joguinhos que envolvem cuidar de personagens virtuais e atendê-los em várias necessidades, criando uma experiência constante de interação e gratificação?

No entanto, ao longo do tempo, surgiu uma hipótese intrigante: será que o sucesso de jogos desse tipo foi, de fato, planejado para criar futuros dependentes de dispositivos móveis e da internet lá no início das redes? Ou, ao menos, eles potencializam esse vício?

A mecânica dos jogos móveis: como funcionam e seus efeitos psicológicos

A mecânica central desses jogos é simples: o jogador deve alimentar e cuidar de um personagem virtual para evitar que ele “morra” ou sofra por negligência. Esse sistema de cuidados, por mais inocente que pareça, segue um padrão de gratificação instantânea. O personagem cresce à medida que é alimentado e recebe atenção, enquanto o jogador é recompensado com novos recursos e itens para personalizar o personagem. No entanto, se o jogador deixar de cuidar do personagem por um tempo, ele pode “morrer” ou ficar doente, o que provoca uma sensação de culpa e frustração, criando um ciclo emocional que pode manter o jogador mais envolvido com o jogo.

Esse tipo de estrutura de jogo exige interação constante para evitar a “falha” do personagem, o que leva o jogador a retornar ao jogo várias vezes ao dia. A sensação de progresso e recompensa constante cria um ciclo de envolvimento, que pode resultar em um vício, um fenômeno frequentemente observado em jogos móveis.

O que pode estar por trás do sucesso de jogos de cuidar de personagens?

A popularidade desses jogos pode ser atribuída à sua simplicidade e ao apelo emocional que criam. Eles não exigem habilidades complexas, apenas a atenção contínua do jogador. Além disso, esses jogos se inserem em um modelo de “game design” que favorece o engajamento contínuo, uma técnica comum na indústria de jogos móveis. No entanto, a questão crucial é: o design desses jogos foi feito com a intenção de criar um ciclo vicioso de dependência dos jogadores?

Embora não haja provas diretas de que os desenvolvedores desses jogos tenham o objetivo explícito de viciar seus jogadores, a forma como os jogos são estruturados sugere que o engajamento constante é incentivado. O simples ato de cuidar de um personagem virtual se transforma em uma tarefa que demanda atenção regular, criando uma sensação de obrigação e, com o tempo, pode se tornar algo compulsivo.

A hipótese do vício planejado: teoria da conspiração ou uma estratégia de mercado?

É plausível que, embora o principal objetivo de jogos como esses seja entreter, os desenvolvedores possam ter um entendimento sutil do comportamento humano, especialmente no que diz respeito ao impacto da gratificação imediata. Desde os primeiros jogos de arcade até os modernos jogos para dispositivos móveis, a indústria de jogos tem sido moldada por princípios de design que incentivam o engajamento contínuo. No caso desses jogos de cuidar de personagens, a dependência psicológica criada pela necessidade constante de atender às necessidades do personagem pode ser vista como uma ferramenta que prepara os jogadores para o consumo excessivo de dispositivos móveis e internet.

A teoria de que esses jogos foram intencionalmente projetados para criar dependentes de dispositivos móveis e internet se apoia em uma análise do comportamento de consumo digital. Os jogadores, ao se sentirem emocionalmente conectados ao personagem, são induzidos a gastar mais tempo no aplicativo, não apenas para evitar que o personagem “morra”, mas também para conquistar recompensas do jogo. Com o tempo, essa rotina de interações rápidas e frequentes pode se transformar em um vício, com o jogador sentindo uma necessidade constante de estar conectado, criando uma dependência dos eletrônicos que vai além da simples diversão.

O impacto psicológico nas gerações mais novas

Este fenômeno é especialmente alarmante quando observamos o impacto de jogos como esses nas gerações mais novas. Crianças e adolescentes, que estão em fases cruciais de desenvolvimento psicológico, podem ser mais suscetíveis aos efeitos desse ciclo de gratificação instantânea. O jogo não apenas ensina como manter um ser virtual, mas também cria a percepção de que é necessário estar constantemente conectado para evitar falhas ou perdas. A longo prazo, isso pode contribuir para o desenvolvimento de um comportamento dependente, no qual o indivíduo sente a necessidade de estar sempre com o celular ou em um ambiente digital para se sentir “conectado” ou “realizado”?

Além disso, o fato de muitos desses jogos serem gratuitos, mas oferecerem opções de compras dentro do aplicativo, potencializa o engajamento e, muitas vezes, leva o jogador a gastar dinheiro real para avançar ou conquistar recompensas mais rapidamente. Pergunta-se: esse modelo de negócio, conhecido como ‘freemium’, tem sido amplamente utilizado para manter os jogadores engajados e ao mesmo tempo gerar lucros significativos para os desenvolvedores?

A indústria de jogos móveis: lucros a xusto do bem-estar?

A indústria de jogos móveis, ao longo dos anos, tem se concentrado em otimizar o engajamento dos usuários, utilizando técnicas psicológicas que mantêm os jogadores conectados por mais tempo. Elementos como notificações constantes, recompensas diárias e ‘pontos de verificação’ que incentivam o retorno ao aplicativo são estratégias comprovadas para criar um ciclo vicioso. Embora isso seja um reflexo do modelo de negócios da indústria, onde o tempo de engajamento é diretamente relacionado à geração de lucros, é necessário considerar os impactos psicológicos dessa abordagem.

Embora muitos jogos móveis não tenham sido criados com o único objetivo de viciar os jogadores, é difícil negar que o design de muitos desses jogos facilita a criação de comportamentos dependentes. A busca constante por validação virtual e recompensas instantâneas pode ter efeitos duradouros sobre a relação dos indivíduos com a tecnologia.

O futuro da tecnologia e do comportamento digital

Embora não haja provas concretas de que esses jogos tenham sido criados intencionalmente para viciar jogadores e prepará-los para se tornarem dependentes de dispositivos eletrônicos e internet, suas mecânicas de recompensa constante e gratificação imediata certamente contribuem para a formação de hábitos de uso excessivo de tecnologia. Esse fenômeno reflete uma tendência maior na indústria de jogos móveis, que busca aumentar o engajamento dos usuários a qualquer custo, muitas vezes à custa do bem-estar psicológico e do equilíbrio na vida digital.

Portanto, é fundamental que os pais, educadores e desenvolvedores estejam cientes dos efeitos desses jogos no comportamento das crianças e adolescentes. Embora a tecnologia tenha inúmeros benefícios, é crucial que seu uso seja equilibrado, para evitar que se transforme em uma dependência que possa afetar negativamente o desenvolvimento e a saúde mental das futuras gerações.

*Everaldo Goes

Jornalista, Editor do Feira Hoje

Graduado em Licenciatura em História 

13/05/25

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