Trump, Zelensky e a geopolítica global: um novo foco para os EUA?
E como isso afeta o Brasil?
Everaldo Goes*
O episódio de sexta-feira (28/02) envolvendo os presidentes Donald Trump (EUA) e Volodymyr Zelensky (Ucrânia), diante das câmeras na Casa Branca, pode representar mais do que um simples rompimento na relação entre os dois países. Estaria Washington lavando as mãos em relação à guerra da Ucrânia contra a Rússia? Ou esse movimento indica uma reorientação estratégica mais ampla?
Entre as muitas hipóteses, uma se destaca: os Estados Unidos podem estar deixando a questão Ucrânia x Rússia nas mãos da Europa para concentrar seus esforços militares e econômicos na Ásia, onde disputas entre a China e seus vizinhos, como Taiwan, ganham cada vez mais relevância.
Essa hipótese se alinha à visão de mundo que Trump demonstrou em seu primeiro mandato e que agora reforça no segundo. Para os EUA, a China representa um desafio estratégico muito maior do que a Rússia. Enquanto Moscou é uma ameaça militar regional, Pequim desafia Washington em múltiplas frentes: econômica, militar, tecnológica e diplomática.
O Indo-Pacífico será o grande palco da disputa pela hegemonia global nas próximas décadas, e os EUA não podem se dividir entre a Europa e a Ásia sem comprometer sua posição. Se a prioridade é conter a ascensão chinesa, o papel dos americanos na guerra da Ucrânia pode se tornar secundário.
A Europa fica com o problema da Ucrânia?
Trump sempre criticou a dependência europeia da proteção militar americana. Ao reduzir o apoio a Kiev, ele pressiona a União Europeia a assumir mais responsabilidades e fortalecer suas capacidades de defesa. França e Alemanha, por exemplo, terão que decidir se aumentam o financiamento para a Ucrânia ou se buscam uma negociação direta com a Rússia.
Enquanto isso, no Pacífico, a escalada de tensões entre China e seus vizinhos se torna cada vez mais urgente. Taiwan, disputas territoriais no Mar do Sul da China e o avanço da presença militar chinesa colocam a região no centro das atenções estratégicas dos EUA. Washington já reforça alianças com países como Japão, Coreia do Sul, Filipinas, Austrália e Índia, preparando-se para possíveis confrontos.
O que esperar desse novo cenário?
Ucrânia perde prioridade
Com menos apoio americano, Kiev pode enfrentar dificuldades para sustentar sua resistência, enquanto a Rússia consolida seus ganhos.
Europa mais independente ou mais vulnerável?
A União Europeia pode reforçar sua defesa ou ceder terreno político para Moscou.
Ásia no centro das tensões globais
Taiwan será um grande teste para os EUA, com risco de um confronto direto entre Washington e Pequim.
Se os EUA estiverem, de fato, mudando o foco da Europa para a Ásia, o equilíbrio global pode ser redesenhado, trazendo consequências ainda imprevisíveis para a ordem internacional.
Como isso afeta o Brasil?
A reorientação estratégica dos Estados Unidos para a Ásia, em detrimento da prioridade dada à Europa e à Ucrânia, pode ter implicações significativas para o Brasil, tanto no campo econômico quanto no político. O Brasil, como membro do bloco Brics, pode enfrentar uma pressão crescente para se alinhar com a China, dado o aumento da rivalidade entre Pequim e Washington. A ascensão da China como potência global pode trazer benefícios econômicos para o Brasil, como maior acesso ao mercado chinês e novos investimentos, mas também pode colocar o país em uma posição delicada, caso a tensão entre EUA e China evolua para um confronto direto.
Além disso, a diminuição do foco dos EUA na Ucrânia pode alterar a dinâmica geopolítica na América Latina, onde o Brasil, tradicionalmente aliado aos norte-americanos, poderia ver seu papel político se redefinir. Em um cenário onde os EUA se concentram na Ásia e reduzem seu envolvimento na Europa e na Ucrânia, o Brasil poderia ter mais espaço para exercer influência na América Latina, mas também precisaria adaptar suas alianças e estratégias para lidar com o novo foco dos EUA.
Esse reposicionamento pode também impactar o comércio global e, consequentemente, as exportações brasileiras, além de modificar as relações diplomáticas em uma região onde o Brasil tem um interesse estratégico crescente, como no caso das disputas no Atlântico Sul e a presença da China em vários projetos de infraestrutura no Brasil e na América Latina.
E se os EUA pressionarem o Brasil?
Se os EUA pressionarem o Brasil, o país poderá enfrentar um dilema estratégico. Washington pode exigir um posicionamento mais alinhado com seus interesses, especialmente em relação à China e à Rússia, duas potências com as quais o Brasil mantém laços importantes.
Isso poderia ocorrer de várias formas:
Pressão Comercial e Econômica
Os EUA poderiam impor barreiras a exportações brasileiras, especialmente no agronegócio, onde o Brasil compete diretamente com produtores americanos.
Podem tentar dificultar o acesso do Brasil a financiamentos internacionais, argumentando que o país está muito próximo da China.
Podem oferecer vantagens econômicas para afastar o Brasil da influência chinesa, como acordos comerciais mais favoráveis.
Pressão Política e Diplomática
Os EUA podem cobrar um posicionamento mais claro contra a Rússia na guerra da Ucrânia e contra a China nas disputas do Indo-Pacífico.
Podem usar organismos internacionais, como a OEA e o G20, para isolar o Brasil, caso ele não siga a linha americana.
Podem reforçar parcerias com países sul-americanos alinhados aos seus interesses, reduzindo a influência do Brasil na região.
Pressão Militar e Estratégica
Os EUA podem aumentar sua presença militar na América Latina para conter a influência chinesa e russa, tornando o Brasil um alvo indireto dessa disputa.
Podem cobrar o Brasil por uma posição mais firme sobre a presença chinesa na infraestrutura nacional (5G, portos, ferrovias etc.).
Podem tentar aproximar o Brasil da Otan como fizeram com a Colômbia, para afastá-lo dos Brics.
O que o Brasil pode fazer?
Manter uma posição equilibrada e pragmática, evitando tomar lados claros na disputa EUA x China.
Reforçar alianças dentro da América do Sul para ganhar mais autonomia nas negociações.
Diversificar parceiros comerciais para reduzir a dependência tanto dos EUA quanto da China.
Se a pressão americana for intensa, o Brasil pode ter que escolher entre enfrentar represálias econômicas ou ajustar sua diplomacia para minimizar danos. Como potência regional, o país tem margem para negociação, mas precisará agir com cautela para não se tornar um mero peão no tabuleiro geopolítico global.
*Everaldo Goes
Historiador
Jornalista editor do Feira Hoje
FH, 02/03/25




