Uefs implementa ações de inserção social dos povos indígenas
O mês de abril é dedicado à mobilização e divulgação dos direitos dos povos originários. Diversas instituições realizam ações para debater o tema e dar visibilidade à diversidade e pluralidade dos povos indígenas. Na Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs), além da realização de atividades no Abril Indígena, políticas afirmativas implantadas há quase duas décadas buscam continuamente reparar desigualdades sociais e raciais do Brasil a partir de programas que dão condições para a permanência dos estudantes.
Na Uefs, a política de ação afirmativa para o acesso de estudantes teve início com uma resolução do Conselho Universitário (Resolução Consu 034/2006) que incluiu em cada curso de graduação duas vagas a mais a serem preenchidas por candidatos de comunidades indígenas e/ou quilombolas, reconhecidas pela Fundação Nacional do Índio (Funai) ou certificadas pela Fundação Cultural Palmares como remanescentes de quilombos. A instituição ainda é a única universidade pública do Brasil que possui uma residência exclusiva para estudantes indígenas dentro do campus universitário.
A Residência Indígena possui capacidade para 20 alunos, que têm três refeições diárias garantidas, durante todos os dias da semana, no Restaurante Universitário, e um auxílio residente no valor de R$ 700 por mês. Maria Xavier, da etnia Tumbalalá, da cidade de Abaré, egressa do curso de Agronomia, foi residente e destaca a importância das políticas afirmativas para permanência e conclusão do curso. ”As políticas de ações afirmativas são de fato o que nos garantem estar na universidade. O sistema de cotas é importante porque nos dá acesso, mas a cota por si só não nos dá permanência. Ainda acho que muita coisa precisa melhorar. As residências precisam ser ampliadas para dar melhor conforto para as pessoas que passam 24 horas do dia dentro da Uefs”, afirmou.
A Pró-Reitoria de Políticas Afirmativas e Assuntos Estudantis (Propaae) da Uefs, que tem como objetivos propor, planejar e acompanhar as políticas de ações afirmativas e planejar, implementar, coordenar e consolidar programas de assistência estudantil, tem projeto para ampliação da Residência Indígena. ”Entre 2020 e 2021 foi realizada uma reforma na parte elétrica e hidráulica, ajustes no telhado da casa, além de pintura e também de substituição de mobiliários e eletrodomésticos. Ainda há muito o que fazer. É prioridade a ampliação da Residência Indígena com a construção de mais quartos, mais banheiros e de espaço para estudo”, afirmou Renata Dias, pró-reitora em exercício da Propaae.
No semestre 2023.1 há 61 estudantes indígenas com matrícula ativa na Uefs. Os discentes são das etnias Potiguara, Pankararu, Tuxá, Tumbalalá, Xokó, Pitaguary, Pankará, Kaimbé, Truká, Mundukuru, Tupinambá, Atikum-Umã e Atikum. A maioria vem dos estados da Bahia e de Pernambuco. Uma diversidade que reúne línguas, opiniões e culturas diferentes. Para Renata Dias, ”as ações afirmativas na Uefs fizeram com que a universidade mudasse de cara. Hoje a instituição expressa de forma mais íntegra as pessoas e povos que compõem a população brasileira e isso reforça a importância das políticas afirmativas”.
A estudante de Agronomia da Uefs Cris Truká, do povo Truká, que habita a Ilha de Assunção, no município de Cabrobó, em Pernambuco, ressalta a importância de discutir as diferenças dos povos indígenas e desconstruir estereótipos. ”Somos 305 etnias no Brasil. O Abril Indígena vem com essa ideia de conscientização. Nem todos os povos são iguais, nem todas as culturas são iguais, nem todo físico é igual, nem todo mundo tem o cabelo igual, principalmente os indígenas do Nordeste. Pelo fato de ter ocorrido a invasão e a miscigenação, não existem mais os estereótipos que a galera do passado conhecia, que os livros de História mostram”, explicou.
Na Uefs, as atividades e debates do Abril Indígena foram promovidas pelo Centro de Memória dos Povos Indígenas do Nordeste – Anjuká. As ações terminaram nesta terça-feira (18) com a mesa de discussão ”Povos originários e a luta por seus territórios: o futuro das regularizações de terras indígenas na Bahia e no Brasil”. O evento foi organizado pela antropóloga e professora da Uefs Patrícia Navarro. ”Não é um mês de comemoração. É um mês em que os povos indígenas apontam todas as mazelas sofridas por eles desde a colonização, se reúnem em acampamentos, se mobilizam e colocam suas pautas de reivindicação, que são o direito à terra, à preservação das culturas, ao ingresso nas universidades, à saúde e à educação diferenciada”, disse Patrícia Navarro.
Sobre o Dia dos Povos Indígenas e o Abril Indígena, Maria Xavier acredita que é preciso usar a data como estratégia política de reconhecimento das lutas e causas dos povos originários. ”Acho que a reflexão que as pessoas precisam ter é esquecer o estereótipo indígena, principalmente da questão fenotípica que indígena tem cabelo liso, pele vermelha, olho puxado. As crenças que só tem indígena no Amazonas. Essas coisas precisam ser quebradas. Falta à sociedade valorizar a única cultura que de fato é brasileira, que é a cultura indígena. Nós somos ancestralidade brasileira e ela deve ser valorizada pela sociedade”.
Ascom/Uefs
FH, 29/04/23




